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"As bombas, os lança-chamas e essas merdas todas não destruíram apenas árvores e aldeias": 30 poemas para o fim do mundo

21 mar, 16:00
Guerra Civil de Espanha, por Gerda Taro

Ainda não é o fim do mundo. Ou, como escreveu Manuel António Pina, ainda não é o fim nem é o princípio, “é apenas um pouco tarde”. Neste sábado, 21 de março, Dia Mundial da Poesia, reunimos poemas escolhidos por jornalistas da CNN Portugal, não para enfeitar a data com versos de ocasião, mas para se procurar na poesia qualquer coisa mais funda e mais útil do que o consolo. Uma forma de resistência, de lucidez, de fúria, de ternura, uma maneira de continuar a dizer o que a pressa, o ruído e a barbárie todos os dias nos tentam gastar. Há poemas de amor e de perda, de insubmissão, de ruína e de fogo, de beleza, poemas que não salvam ninguém mas ainda nos ajudam a respirar, a pensar, a fincar contra o medo. E a abrir este caderno está uma fotografia de Gerda Taro, fotojornalista, feita em Barcelona, em agosto de 1936: uma miliciana republicana em treino, joelho na areia, o revólver estendido, apanhada nesse instante raro em que tudo parece ainda exercício e já é guerra

Não há uma maneira limpa de atravessar este tempo. Há dias em que o mundo se nos apresenta partido, exausto de si mesmo, e a linguagem vem atrás dele, também ela ferida, também ela a perder a sua serventia. Talvez seja por isso que continuamos a voltar a poemas: não para que expliquem o que já sabemos, mas para encontrar neles uma voz menos gasta, um corte mais fundo, uma verdade que não precise de falar mais alto para ficar.

Nem sempre é preciso procurar a beleza. Às vezes basta procurar nitidez.


As escolhas de Maria João Caetano

Descobri recentemente a alegria de partilhar poemas.

Faço-o regularmente com alguns dos meus amigos mais queridos. É, tal como acontece com as canções, os livros, os filmes, as conversas, os abraços e todas as outras coisas boas que partilhamos, além de uma alegria, uma maneira de não permitir que a barbárie tome conta de nós. Com os poemas pensamo-nos. Desafiamo-nos. Emocionamo-nos. Rimos. Ficamos furiosos. Às vezes quase choramos. Revoltamo-nos. Discutimos. Calamo-nos. Resistimos.

Juntos, talvez consigamos.

Amor como em casa

Manuel António Pina

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa. 

Manuel António Pina, por Luísa Ferreira

Com licença poética

Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Chão

Gonçalo M. Tavares

Não há limite que não seja por ele suportado.
Suporta todo o cansaço. Traições, fadiga, falhanços.
Aconteça o que acontecer tens um corpo que pesa;
e um chão, mudo, imóvel, que não desaparece.

Destino

Maria Teresa Horta

Não bordo por destino
Nem me dobro
Não cedo à mão da vida
Nem me encubro
Não cumpro    não aceito
Nem me calo
Não amo o que é imposto
Nem me afundo

Maria Teresa Horta, por Peter Collins

Contranarciso

Paulo Leminski

em mim
eu vejo
o outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente centenas
o outro
que há em mim é você
você
e você
assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
não posso adiar o coração
Não posso adiar o amor para outro século

A importância do pequeno-almoço

Francisca Camelo

qualquer mulher sabe que
é preciso manter as tropas:
passar a ferro as fardas parir herdeiros esfregar o chão / de joelhos o sarro sai melhor
quem mais poderá explicar às crianças a ausência 
do soldado do empregado fabril do político fervoroso que põe o pão na mesa
se o sexo é político, imagina as lides da casa
lavar à mão as manchas de vinho / sémen / sangue
fazer a cama quando vazia
reunir no prato os nutrientes necessários
para a capitalização do pai adúltero

depois de fazer o pequeno-almoço
as mulheres-âncora atracadas à enseada
assistem em silêncio à partida das armadas de dom joão, o primeiro / o anterior / o pai deste
para que agora - isto não é novo –
pelo menos quinze mil machos sigam audazes.
a ideia é a de sempre: 
queimar florestas / rapinar minas / estuprar indígenas / baptizar terras que já tinham nome
reproduzir hospícios e quartos forrados a papel de parede amarelo 
enterrar a semente bem funda no colo do útero

e aos poucos gerar novos e delicados manequins de mãos calejadas
deixar que a geração anterior ensine a seguinte a fazer o café 
(atenção. não se faz café de qualquer maneira, é preciso formar uma pirâmide de pó, não deixar que a
água toque no funil, não ligar de imediato na temperatura máxima, dar-lhe o tempo certo de ebulição, mas continuando,)
vertê-lo quente na chávena de manhã 
sementar esse pão vaporoso na mesa milagrosamente limpa
colher fruta fresca valorizar a louça lavada
não regressar nunca
à sodoma abandonada
porque nessa 
o café já esfriou
quem faz o pequeno-almoço
sabe de tudo isto
retorna a casa só e as mãos
sempre invisíveis
costuram dores como contas de rosário 
nos dentes e figos abertos no lugar dos lábios

só quem come o pequeno-almoço
tem a boca demasiado cheia
para perceber o fundamental:

é que sem elas 
o mundo não chegaria sequer
ao meio dia.

O incêndio

João Luís Barreto Guimarães

Alguém tem de amar 
o banal. Alguém tem de tratar disso. Os
rostos que passam idênticos
como os pombos
de uma praça. A mala
que apenas fecha se alguém
se senta em cima. Insectos suicidando-se
contra o brilho dos faróis. O apetite
da ferrugem
nos portões da avenida.  Alguém
tem de amar o vulgar (falar
do que é
ordinário). O cheiro a peixe frito que
sobe desde a cozinha. As luas que nascem dos
dedos quando 
se roem as unhas. Alguém tem de amar
o que é feio
(trazê-lo para o poema). Só assim
Por entre o impuro pode o
Incêndio acontecer.

Dez chamamentos ao amigo [EXCERTO]

Hilda Hilst

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

Uma vez que tudo já se perdeu

Ruy Belo

Que o medo não te tolha a tua mão
nenhuma ocasião vale o temor
ergue a cabeça dignamente irmão
falo-te em nome seja de quem for
No princípio de tudo o coração
como o fogo alastrava em redor
uma nuvem qualquer toldou então
céus de canção promessa e amor
Mas tudo é apenas o que é
levanta-te do chão põe-te de pé
lembro-te apenas o que te esqueceu
Não temas porque tudo recomeça
nada se perde por mais que aconteça
uma vez que já tudo se perdeu


As escolhas de Pedro Santos Guerreiro

Quantas guerras há no mundo?

Hoje fazemos assim: vemos fantasmas, ouvimos vozes e sentimos arrepios na espinha.

Hoje saímos dos desenhos inanimados e entramos no filme de ação que é a palavra contar: aos vivos contar os mortos, à História contar as histórias, ao ido e ao caído aclarar que estão a contar para alguma coisa e não para qualquer coisa nenhuma.

Hoje:

O Espetáculo

W.B. Yeats

Caímos nos sonhos que os para-sempre vivos
Sopram sobre o espelho manchado do mundo,
E depois alisam com mãos de marfim e suspiram. 

Guerra

Fernando Rendón

Terás sempre razões

Vais sacar a espada
como um anjo

e quando a tiveres desembainhado
és já um demónio

Neste beco sem saída

Ahmad Shamlou

Eles cheiram o teu hálito
Que Deus ajude aqueles que disseram “Amo-te”
Eles cheiram o teu coração!
Oh, meu Deus! Como são estranhos estes dias!
E o amor
É açoitado
No poste junto ao bloqueio de estrada!

Esconde o amor no armário!

No beco sem saída sinuoso e revirado da geada
O fogo
Tem de ser mantido em brasa
Por uma carga de cânticos e poemas
Não te arrisques a pensar!
Oh, meu Deus! Como são estranhos estes dias!
O tipo que bate à porta à noite
Está aqui para matar a luz

Esconde a luz no armário!

Ei-los! Carniceiros
Estacionados em cada passagem
Com tronco e machado para decapitar
Oh, meu Deus! Como são estranhos estes dias!
Eles encostam bisturis aos lábios sorridentes
E às bocas que cantam

Esconde a paixão no armário!

Este é o churrasco de canários
Sobre lírios e jasmim em chamas
Oh, meu Deus! Como são estranhos estes dias!
Satanás! Numa festa embriagada de triunfo
Põe a sua mesa no nosso funeral

Esconde Deus no armário!

O Morto N.º 18

Mahmud Darwich

O olival era verde, outrora.
Era… E o céu
uma floresta azul. Era, meu amor.
O que o alterou naquela noite?

. . . . . .

Pararam o camião dos operários numa curva.
Calmos.
mandaram-nos voltar para leste... Calmos.

. . . . . .

O meu coração era um pássaro azul, outrora
Oh ninho do meu amor.
E os teus lenços para mim eram brancos. Eram, meu amor.
Quem os sujou esta tarde?
Não sei, meu amor.

. . . . . .

Pararam o camião dos operários numa curva.
Calmos.
mandaram-nos voltar para leste... Calmos.

. . . . . .

Dar-te-ei tudo
A sombra e a luz,
o anel de noivado e tudo o que desejas,
um pomar de oliveiras e figueiras,
e, à noite, visitar-te-ei, como de costume.
Entrarei, em sonhos, pela janela… e atirar-te-ei uma flor de jasmim.
E não me culpes se eu chegar atrasado.
É porque eles me detiveram.

. . . . . .

O olival era sempre verde.
Era, meu amor.
Cinquenta vítimas
transformaram-no em lago de sangue ao poente…
                                                    Cinquenta vítimas.
Meu amor… não me culpes.
Eles mataram-me... mataram-me…
Mataram-me…

O escritor palestiniano Mahmoud Darwish, por Ulf Andersen

Monólogo e explicação

Fernando Assis Pacheco

Mas não puxei atrás a culatra,
não limpei o óleo do cano,
dizem que a guerra mata: a minha
desfez-me logo à chegada.

Não houve pois cercos, balas
que demovessem este forçado.
Viram-no à mesa com grandes livros,
com grandes copos, grandes mãos aterradas.

Viram-no mijar à noite nas tábuas
ou nas poucas ervas meio rapadas.
Olhar os morros, como se entendesse
o seu torpor de terra plácida.

Folheando uns papéis que sobraram
lembra-se agora de haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.

Sociedade [EXCERTO]

Maxamed Ibraahin Warsame "Hadraawi"

Se os jovens não fossem massacrados,
a lâmina não estivesse manchada de sangue;
aquele que cuida de ti no fim
não fosse o pequeno-almoço de abutres;
o corajoso que procura salvar-te
não fosse arrastado por animais selvagens;
se aqueles cuja segurança deveria ser assegurada
não estivessem crivados de balas,
com os lobos a correrem uns contra os outros para os alcançar;
se aqueles que deveriam estar de luto
não fossem forçados a regozijar-se —
e esta demonstração de alegria usada como um amuleto;
se quem quer que permaneça vivo não tivesse
caído sob o poder das armas,
tornando-se insensível à dor,
estaria eu tão em sintonia contigo?

Se a terra não tivesse sido devastada
pela negligência e falta de água;
se Benadir, outrora próspera, não fosse
agora vista com pena;
se ao amanhecer os refugiados não
fugissem em ondas, em grande número
rompendo para os locais sagrados;
se a gasolina não fosse fetichizada;
se até as raparigas do campo
que costumavam usar popeline fino
não fossem agora abusadas no Bahrein;
se o país não tivesse ido
mil vezes implorar
aos reis árabes, aos emires emplumados
estaria eu tão em sintonia contigo?

Dulce et Decorum Est

Wilfred Owen

Curvados, como velhos mendigos sob sacos,
De joelhos tortos, tossindo como bruxas, praguejávamos através do lodo,
Até que, diante dos clarões assombrosos, viramos as costas,
E rumo ao nosso descanso distante começamos a arrastar-nos.
Homens marchavam adormecidos. Muitos tinham perdido as botas,
Mas continuavam, calçados de sangue. Todos mancos; todos cegos;
Embriagados de fadiga; surdos até aos estrondos
Das granadas de gás caindo suavemente atrás.

Gás! GÁS! Rápido, rapazes! — Um êxtase de agitação
Ajustando os capacetes desajeitados a tempo,
Mas alguém ainda gritava e tropeçava
E se debatia como um homem no fogo ou na cal.—
Ténue através dos vidros enevoados e da luz verde espessa,
Como sob um mar verde, eu vi-o a afogar-se.

Em todos os meus sonhos, diante do meu olhar impotente,
Ele lança-se sobre mim, asfixiando, engasgando-se, afogando-se.

Se, em sonhos sufocantes, pudesses também caminhar
Atrás do carro em que o lançamos,
E observar os olhos brancos a contorcerem-se no seu rosto,
O seu rosto pendente, como um demónio cansado do pecado;
Se pudesses ouvir, a cada solavanco, o sangue
Gargarejando dos pulmões corrompidos pela espuma,
Obsceno como o cancro, amargo como o bolo
De feridas vis, incuráveis, em línguas inocentes,—
Meu amigo, não dirias com tanto entusiasmo
A crianças ávidas por alguma glória desesperada,
A velha Mentira: Dulce et decorum est
Pro patria mori.

O que é casa?

Mosab Abu Toha

O que é casa:
é a sombra das árvores no meu caminho para a escola
    antes de serem arrancadas.
É a fotografia a preto e branco do casamento dos meus avós
    antes de as paredes ruírem.
É o tapete de oração do meu tio, onde dezenas de formigas
   dormiam nas noites de inverno, antes de ser saqueado e
   colocado num museu.
É o forno que a minha mãe usava para cozer pão e
   assar frango antes de uma bomba reduzir a nossa casa
   a cinzas.
É o café onde eu via jogos de futebol
   e brincava —

O meu filho interrompe-me: poderá uma palavra de quatro letras abarcar
   tudo isto?

[sem título]

Serhiy Zhadan

Uma mulher caminha pela rua.
Ela pára em frente a uma loja.
Ela hesita.
Precisa de comprar pão.
Comprá-lo agora ou esperar até amanhã?, pergunta-se.
Ela pega no telemóvel.
Fala com a mãe.
Fala de forma brusca, não ouve,
levanta a voz.
Ela grita enquanto está
em frente à montra de uma loja.
Como se estivesse a gritar com o seu próprio reflexo.
Ela interrompe a conversa, sem ouvir,
e caminha pela rua amaldiçoando
a sua invisível, e por isso ainda mais
odiosa,
mãe.

Ela chora por causa de alguma ofensa da sua mãe
e porque não consegue perdoá-la.
Ela esquece-se do pão.
Ela esquece-se de tudo no mundo.

De manhã, o primeiro
Bombardeamento começa.

Se os dois sobrevivermos 

Yaryna Chornohuz

                             para “Kucher”

se os dois sobrevivermos
tentarei pela primeira vez na minha vida
plantar uma semente num campo ainda
não minado
com as minhas mãos de urbanita
que só com a chegada da guerra
vi
o que está escondido sob o asfalto
se os dois sobrevivermos
viveremos na terra
onde a cada respiração perdida
diante dos teus olhos
o passado ocorre
invisível e nítido
a lua ficará azul e vibrará nos nossos ouvidos
todos os invernos serei bordada por gelo das montanhas
     e estepes como mapas distorcidos
e não haveria nisso nem uma lasca de romance
o romance desapareceu há muito 
juntamente com o heroísmo
deixando-me apenas a tua repentina
presença...
cinzenta e apaixonada
a Morte seria convidada a aquecer-se connosco junto à chama da fogueira
Ela vai espancar-nos com os seus paus de madeira.
Vamos esfregar-lhe
as mãos entorpecidas.
se os dois sobrevivermos
eu não suportaria tão dolorosamente
a dolorosa luz da primavera
que me magoa
ela continuará inevitavelmente a chegar depois do inverno que
eu não consigo esquecer
neste país os invernos nunca são esquecidos

Yaryna Chornohuz, poeta, fuzileira naval e médica de combate ucraniana, por Viacheslav Ratynskyi

As escolhas de Tiago Palma

Em 1922 perguntaram a T. S. Eliot se a poesia era uma necessidade do homem moderno. Respondeu que não. 

E quando lhe pediram que dissesse para que servia, deixou uma frase seca, quase maliciosa, ou quase insolente, e que um século depois ainda morde: ocupa menos espaço. Talvez seja isso. Talvez a poesia ainda nos acompanhe porque cabe onde quase tudo falha, porque entra sem pedir licença na dobra mais estreita do dia e fica lá a trabalhar devagar. Não vem explicar o mundo, que o mundo já quer explicar-se demais, nem trazer consolo fácil, que para isso há frases a mais e verdade a menos, nem pô-lo em ordem, vem apertá-lo até ao osso. Tira às palavras o uso gasto, o brilho falso, a conversa que as amolece, e devolve-lhes peso, temperatura, corpo. Num tempo de excesso, talvez venha servir para isto: para concentrar em poucos versos aquilo que nos parte, e o que nos falta, o que ainda julgamos amar, contra a pressa e contra o medo.

A mim não serve para muito. E à parte isso, tudo.

Blues da Morte de Amor

Vasco Graça Moura

Já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.

Uma espécie de perda

Ingeborg Bachmann

Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-
mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.

O Apanhador de Desperdícios

Manoel de Barros

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

o pássaro azul

Charles Bukowski

há um pássaro azul dentro do meu coração que
quer sair
mas sou forte demais para ele,
digo, fica aí dentro, não vou deixar
que ninguém
te veja.

há um pássaro azul no meu coração que
quer sair
mas eu despejo-lhe whiskey em cima e inalo
fumo de cigarros
e as putas e os empregados dos bares
e os merceeiros
nunca saberão que
ele está
lá dentro.

há um pássaro azul no meu coração que
quer sair
mas sou forte demais para ele,
digo,
fica aí em baixo, queres lixar-me
a vida?
queres foder-me
a escrita?
queres arruinar-me as vendas de livros na
Europa?

há um pássaro azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou mais esperto, só o deixo sair
nalgumas noites
quando estão todos a dormir.
digo: sei que estás aí,
por isso, não estejas
triste.

depois volto a guardá-lo no sei lugar,
mas ele vai cantando um bocadinho
lá dentro, não deixei que morasse
completamente
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e isto é suficiente bom
para fazer um homem
chorar, mas eu não
choro,
e tu?

Charles Bukowski, por Sophie Bassouls

As pessoas sensíveis

Sophia de Mello Breyner Andresen

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa

Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem

Rêve Oublié

António Maria Lisboa

Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti

Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna

Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo

Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada

Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro

E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.

Um Adeus Português

Alexandre O´Neill

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e ao seu minuciosa e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

A defesa do poeta

Natália Correia

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

Poeta no supermercado

Fernando Assis Pacheco

I

Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.

Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte…
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.

II

Um homem tem que viver.
e tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.
Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz — como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.

Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.

Fernando Assis Pacheco, por João Duarte Rodrigues

Como dizer poesia [EXCERTO]

Leonard Cohen

Qual é a expressão exigida pela nossa época? A época não exige expressão nenhuma. Já vimos fotografias de mães asiáticas enlutadas. Não estamos interessados na agonia dos teus órgãos remexidos. Não há nada que possas estampar no teu rosto que se equipare ao horror desta época. Nem sequer tentes. Apenas te sujeitarás ao desdém daqueles que sentiram profundamente as coisas. Já assistimos a películas de seres humanos em pontos extremos de dor e desenraizamento. Toda a gente sabe que andas a comer bem e que estás até a ser pago para estares aí em cima. Estás a actuar diante de pessoas que passaram por uma catástrofe. Tal facto deverá tornar-te bastante discreto. Diz as palavras, transmite a informação, chega-te para o lado. Toda a gente sabe que estás a sofrer. Não poderás contar à plateia tudo o que sabes sobre o amor a cada verso de amor que disseres. Chega-te para o lado e as pessoas saberão o que tu sabes por já o saberes. Nada tens para lhes ensinar. Tu não és mais belo do que elas. Não és mais sábio. Não lhes grites. Não forces uma penetração a seco. É mau sexo. Se revelares o contorno dos teus genitais, então cumpre o que prometes. E lembra-te que as pessoas não desejam propriamente um acrobata na cama. De que é que nós precisamos? De estar perto do homem natural, de estar perto da mulher natural. Não finjas que és um cantor adorado com um público vasto e leal que tem vindo a acompanhar os altos e baixos da tua vida até ao momento presente. As bombas, os lança-chamas e essas merdas todas não destruíram apenas árvores e aldeias. Destruíram igualmente o palco. Achaste que a tua profissão escaparia à destruição geral? Já não há palco. Já não há ribalta. Tu estás no meio das pessoas. Portanto, sê modesto. Diz as palavras, transmite a informação, chega-te para o lado. Fica a sós. Fica no teu canto. Não te insinues.


Madrid, fim de 1936. Robert Capa encontra três crianças à porta de casa, diante de uma parede crivada pela Guerra Civil de Espanha. Não há soldados, não há frente de batalha, não há heroísmo: há a infância encostada ao entulho. É por isso que a fotografia ficou — porque mostrou que a guerra também acontecia aqui, no bairro, na soleira, no corpo civil da cidade. E porque Capa, um dos grandes fotojornalistas do século XX, soube fixar numa fachada ferida o que um bombardeamento faz a uma vida. (Foto: Robert Capa/International Center of Photography/Magnum Photos)

 

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