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"Trump tem muito mais pressa do que o Irão. Precisa de salvar a face, esta guerra está a acelerar a dor económica do país"

13 mai, 13:08
Donald Trump em Fort Bragg (AP)
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Daniela Melo, politóloga, analisa no podcast Fúria Épica, da CNN Portugal, uma guerra que começou por ser apresentada como segurança nacional e se transformou em gasolina cara, sondagens más, fissuras no MAGA, medo republicano das intercalares e pressão para Donald Trump encontrar uma saída sem parecer derrotado


A guerra fica sempre mais longe no mapa do que na vida das pessoas. No caso americano, já não está apenas no Golfo, no estreito de Ormuz, nas bases atingidas, nas negociações que avançam e recuam, nos comunicados de Teerão ou nas frases lançadas por Donald Trump entre a Casa Branca, Mar-a-Lago e as redes sociais. Está também no depósito do carro, no supermercado, nas taxas de juro, na conversa ansiosa sobre o mês seguinte.

“Os americanos querem sair da guerra do Irão.” A frase é de Daniela Melo, politóloga e professora na Universidade de Boston, em entrevista ao podcast Fúria Épica, da CNN Portugal. A ansiedade com o custo de vida fundiu-se com a ansiedade do conflito. Aquilo que começou como promessa de força contra o programa nuclear iraniano aparece agora como impasse caro, politicamente tóxico e difícil de explicar.

Há, na leitura de Daniela Melo, um “défice de legitimidade”. Trump não convenceu o país sobre a necessidade da guerra antes de a começar. Depois, as justificações foram mudando. A bandeira, desta vez, não chegou para abraçar todos. O velho reflexo americano de fechar fileiras em torno do Presidente em tempo de conflito existe, mas ficou sobretudo dentro da base republicana. Fora dela, e até nas suas margens, crescem as perguntas: quanto custa, para que serve, como acaba?

A resposta ainda não aparece. Trump precisa de impedir o Irão de chegar à arma nuclear, mas precisa também de “salvar a face”. Precisa de pressionar Teerão, mas não pode empurrar indefinidamente a economia americana para cima dos preços. Precisa do MAGA, mas há vozes da direita populista que olham para o Médio Oriente e veem a traição de uma promessa antiga: acabar com as guerras intermináveis. Precisa do Congresso, ou pelo menos de não ser travado por ele, mas os republicanos já fazem contas às intercalares de novembro.

No fim, a pergunta deixa de ser apenas militar. É eleitoral. Se a guerra terminar, Trump tentará vendê-la como negociação dura. Se continuar, os democratas tentarão transformá-la em fatura. Daniela Melo não vê forma de os americanos esquecerem isto até novembro: “Parece-me impossível que isto não tenha efeito e que não seja um dos grandes temas das eleições intercalares, mesmo que o conflito chegue ao fim”. A guerra, afinal, pode continuar mesmo depois do cessar-fogo. Basta só chegar às urnas. À vida americana já chega. 


Olhando para os Estados Unidos a partir de dentro, que é onde a Daniela está agora, e há já alguns anos, a guerra no Irão é hoje uma guerra distante, a milhares de quilómetros, ou é uma guerra que já está, se calhar, até mais no bolso dos americanos e dentro da política americana?

Eu diria que a guerra está muito presente na mente dos americanos. Aliás, estava ainda há pouco a ver uma sondagem feita no mês passado que mostrava que a preocupação com conflitos internacionais passou a ser a segunda maior preocupação do público americano, de acordo com as sondagens. E isso reflete o que temos visto nos últimos dois meses. E o que é que tivemos nos últimos dois meses? A questão do Irão.

Portanto, em primeiro lugar, os americanos tendem a virar-se para o custo de vida, a inflação, os problemas com a economia; e, em segundo lugar, para a questão do Irão. E eu iria mais longe: diria que a análise das sondagens dos últimos dois meses também mostra muito claramente que a ansiedade económica dos americanos se fundiu agora com esta questão da guerra no Irão, porque o público americano começou a perceber que ambas as questões estão absolutamente ligadas. Estes desenvolvimentos na perceção da opinião pública têm sido corrosivos para a aprovação de Trump. As sondagens também mostram muito claramente que os americanos querem sair da guerra do Irão, que veem este impasse nas negociações como algo que está a acelerar a dor económica do país e que os está a afetar claramente no bolso. Os republicanos no Congresso estão a abrir fissuras e a falar mais abertamente sobre a sua oposição à política externa do Presidente nesta região.

E depois também temos aqui esta perceção de que os americanos estão a perder soft power a uma velocidade incrível. E os americanos também se preocupam com isto, obviamente menos do que com as outras questões que os afetam mais no dia a dia, mas esta ideia de que a marca americana deixou de ser aceite pelo mundo, até pelos nossos aliados europeus, é algo que claramente também preocupa, porque terá impactos não só políticos, mas potencialmente também económicos, nos próximos anos. Tudo isto num contexto de uma guerra que, neste momento, segundo a estimativa de Pete Hegseth, está pelos 29 mil milhões, mas sabemos que esses custos também não incluem ainda, por exemplo, a reconstrução das bases que foram atingidas pelos iranianos na região. Ou seja, os custos, na verdade, são mais altos do que isto.

Tudo isto faz parte da discussão pública neste momento nos Estados Unidos.

Nesta primeira resposta, falou de estudos de opinião, de sondagens. Uma das mais conhecidas diz que dois em cada três americanos consideram que Donald Trump ainda não explicou claramente os objetivos da intervenção militar ou desta guerra. Isto é só uma falha de comunicação ou é uma consequência natural do modo como Donald Trump faz, ou tem gerido, a política externa dos Estados Unidos, sobretudo neste último mandato, neste segundo mandato?

Diria que são ambas as coisas. Há um défice de legitimidade nesta questão da guerra do Irão e o público americano responde também a esse défice de legitimidade. Porque é que eu lhe chamo um défice de legitimidade?

Por um lado, porque o Presidente não justificou aos americanos, inicialmente, a necessidade desta guerra. Quando começou a justificá-la, já tínhamos entrado num conflito e as justificações variavam de dia para dia. Portanto, não havia uma coerência estratégica, mesmo na comunicação ao público americano, sobre o que motivou os Estados Unidos, neste momento, a decidir que teria de enfrentar este desafio. Chamemos-lhe assim.

O que vimos é que a opinião pública reagiu a esta ideia de um conflito de escolha de uma forma fora do comum, eu diria. Porque, geralmente, quando os Estados Unidos estão envolvidos num conflito, os cientistas políticos estudaram muito bem este efeito do rally around the flag, do abraçar a bandeira, não é? Ou seja, temos de defender os nossos. E claramente também há esse efeito, mas, na verdade, na maioria dos americanos, temos visto o inverso.

Ou seja, as sondagens mostram claramente que o público vê esta guerra, sobretudo, como inconclusiva, dispendiosa, quando o país está a enfrentar uma crise económica — crise económica, quer dizer, um abrandamento; se calhar falar em crise económica é demais, mas um abrandamento da economia. Os americanos veem isso como prejudicial para os seus bolsos.

Veem a guerra, como eu dizia, como inconclusiva, como dispendiosa. A subida dos combustíveis, das idas ao supermercado, das taxas de juro, tudo isso foram promessas eleitorais de Donald Trump, para já não falar da promessa eleitoral de não se envolver neste tipo de conflitos. Portanto, são promessas visivelmente quebradas pelo Presidente e tudo isso tem levado os americanos a questionarem-no.

Por outro lado, o défice de legitimidade, obviamente, também é uma questão da aprovação do Congresso, ou seja, da legalidade desta ação no Médio Oriente. E mesmo aí também já começamos a ver sinais de rutura, mesmo dentro do Partido Republicano, e de pressões várias para que o Presidente procure a aprovação do Congresso para poder continuar as hostilidades.

Nós estávamos a falar da ideia da promessa trumpista de afastar os Estados Unidos de novas guerras e também da promessa de baixar o custo de vida, na verdade, de estar a esbarrar com a realidade ou com a vida quotidiana dos americanos. Mas eu gostava de falar de outro ponto, este sim voltando ao Irão. O objetivo declarado de Donald Trump era impedir o Irão de chegar à arma nuclear, mas este impasse sucessivo parece estar a envolver muitas vezes algumas questões de orgulho, de dissidências. Certamente o estreito de Ormuz tem muito peso nisto. Mas a minha pergunta é concreta e é esta: o objetivo americano ainda é impedir a bomba iraniana ou já é só não perder a face neste impasse todo?

Para Donald Trump e para esta administração, são ambas as coisas. Por um lado, não perder a face é importante do ponto de vista político, porque este impasse no Irão está-se a tornar politicamente tóxico. Portanto, Donald Trump precisa de justificar à base eleitoral, sobretudo à sua base eleitoral, mas também ao país, este tipo de agressão e a utilização destes recursos para uma guerra que, neste momento, se encontra num impasse para o qual não há uma saída óbvia.

Aliás, podemos pensar que o bloqueio do estreito de Ormuz, agora levado a cabo pelos Estados Unidos, tem surtido algum efeito diplomaticamente na continuação das negociações, mas, como sabemos, ainda não levou realmente a nenhum breakthrough, ou seja, ainda não houve aquele momento em que há realmente um salto qualitativo nas negociações. Eu chamo-lhe uma faca de dois gumes. Porquê? Porque é verdade que os Estados Unidos estão a conseguir pressionar mais os iranianos e a economia iraniana, que já estava com problemas, mas também está a afetar a economia global e está a afetar os Estados Unidos.

Portanto, tudo isto empurra os preços para cima, há esta pressão inflacionista sobre o custo de vida. Portanto, todos percebemos que é uma estratégia que não pode ser uma estratégia a longo prazo e que o Irão, até segundo os próprios serviços de intelligence dos Estados Unidos, tem o tempo a seu favor. E o facto de a opinião pública no Irão não ir pressionar muito as elites do Irão da mesma forma que acontece nos Estados Unidos — sendo ainda uma democracia em funções e que vai a eleições — também pesa.

Quando Donald Trump fala do Irão — e fala diariamente: se não fala na Casa Branca ou em Mar-a-Lago, fala nas redes sociais —, ainda hoje voltou a falar e disse que o cessar-fogo estava ligado às máquinas, que não iria sequer negociar com a ala mais lunática iraniana e apenas com a outra ala. Eu não sei exatamente a que alas é que ele se referia, mas, sempre que Trump fala do Irão, ele está a falar naturalmente para Teerão, mas também para Israel, também para os mercados, como vemos, os mercados acabam sempre por se mover ao sabor do vento que Trump vai lançando. Fala para a MAGA também, obviamente, e se calhar fala para eleitores que vai ser preciso mobilizar nas intercalares. A minha pergunta é: para quem é que Trump fala quando fala do Irão, Daniela? É para toda esta gente, certamente, ou mais para uns do que para outros?

Exato, ou seja, para todas estas audiências, incluindo as internacionais. Vamos por partes, talvez. Ou seja, o que é que temos visto na base republicana? Se houve algum rally around the flag, como dizíamos, foi dentro do Partido Republicano e, sobretudo, na sua base MAGA, que continua a confiar, pelo menos de acordo com as sondagens, na capacidade do Presidente de levar estas negociações a bom termo.

No entanto, mesmo aí, vemos fissuras, e começamos a ver fissuras que são, sobretudo, geracionais. Em ambos os partidos, tanto à direita como à esquerda — isto são dados do Pew Research Center do último mês —, vemos que a maioria dos adultos com menos de 50 anos, neste momento, avalia negativamente Israel e Netanyahu. Ou seja, há um crescimento da oposição a Israel, tanto à direita como à esquerda.

Isto é algo inédito nos Estados Unidos. É realmente algo inédito. Tínhamos visto essa oposição a Israel e ao alinhamento dos interesses dos Estados Unidos com os interesses israelitas na região à esquerda.

À esquerda isso já se debate há bastante tempo. Foi, aliás, tema das últimas eleições presidenciais. Mas agora começamos a vê-lo também à direita. E é, sobretudo, o eleitorado mais jovem que se está a virar primeiro contra Trump e contra este tipo de aventuras de guerra pelo mundo. Portanto, há realmente aqui alguns efeitos que já se conseguem medir muito bem e que poderão ser indícios do que será a política externa americana no futuro.

Uma política, talvez, que, se houver uma resposta dos partidos a este segmento mais jovem, com menos de 50 anos, que é o segmento que obviamente influenciará o partido nas próximas três, quatro décadas, nos mostre que vem aí algo de novo. A base católica também tem tido alguns abalos. Relembremos que os católicos deram o voto — a maioria dos católicos votou em Biden quando Biden foi eleito Presidente —, mas depois houve uma mudança radical.

Nas eleições do ano passado, vimos que o voto católico foi sobretudo para Donald Trump. Ora, Donald Trump também tem tido, como sabemos, e isto envolve também o Irão, umas quezílias muito públicas com o Papa. Os posicionamentos do Papa sobre o Irão e, enfim, muito diretamente, sobre a maneira como Pete Hegseth, no Departamento da Guerra, fala da guerra como sendo uma guerra justa e pede a Deus que auxilie os soldados americanos — estou agora a parafrasear —, tudo isso tem tido um eco muito forte aqui nos Estados Unidos, que é um país extremamente religioso, muito cristão, e onde os católicos realmente também são um bloco eleitoral muito importante para o Partido Republicano.

Portanto, começamos a ver todas estas fissuras. Não sabemos exatamente ainda onde é que a poeira irá assentar antes de chegarmos aos midterms, às intercalares, ou até às presidenciais, mas todos estes indícios são indícios de fissuras e de volatilidade mesmo na base de apoio a Donald Trump.

E a minha pergunta é muito concreta. Se esta guerra já deixou de ser uma questão de segurança nacional, como os Estados Unidos e a Casa Branca tentaram vender, e já é também uma questão doméstica, inclusive no MAGA. Pessoas como Tucker Carlson, como Marjorie Taylor Greene e outras vozes da direita mais populista têm avisado muito para os custos desta guerra na América interna. Que peso é que o MAGA terá, ou esta direita mais populista e conservadora que sempre apoiou Trump terá, no desfecho?

Eu percebo a pergunta. É verdade que alguns dos influenciadores, das principais figuras mediáticas dentro do Partido Republicano de Trump, o Partido Republicano MAGA, se têm virado de forma muito pública também contra as decisões do Presidente em relação ao Irão. Tucker Carlson é provavelmente a pessoa que mais se tem distinguido nesse aspeto.

Aliás, ainda há uns dias deu uma entrevista enorme ao New York Times exatamente para explicar o seu posicionamento e para explicar a sua decisão de não apoiar muito publicamente a administração sobre isto.

Tem também uma coisa muito curiosa, desculpe interrompê-la, mas a verdade é que Tucker Carlson chamou louco a Donald Trump. Na entrevista é confrontado com isso, ele disse: eu nunca chamei louco a Trump. Depois é-lhe mostrado esse trecho — o que não é uma coisa que o New York Times faça muitas vezes, porque não é um canal de televisão — e ele diz: bom, se calhar eu disse isso. Acho que foi um momento muito interessante, essa entrevista de Tucker Carlson.

Foi muito interessante, uma entrevista longuíssima. Eu também ouvi tudo. Acho que foi mais de uma hora de entrevista com Tucker Carlson, em que percebemos esta ideia de que Tucker Carlson é coerente com os seus próprios princípios, e é isso que as pessoas que o ouvem também querem.

Querem honestidade. Querem honestidade, pelo menos, e alguma credibilidade na apresentação da opinião. Mas o que Tucker Carlson apresenta é sempre a opinião.

É a sua opinião, a sua visão e a sua leitura. Ele é um tipo interessante porque ajudou Donald Trump nesta última campanha. Não há dúvida sobre isso.

Tucker Carlson fez vários comícios, entre aspas, até comícios digitais, quase. Exatamente. Com Donald Trump, com outros membros da administração e com J. D. Vance. Portanto, é alguém que tem o número direto da Casa Branca, de várias pessoas na Casa Branca, e que, portanto, pode realmente fazer um grande estrago na opinião pública.

Mas isso é algo que também não acontece de repente. Portanto, ainda é difícil medir até que ponto é que personalidades como Carlson conseguiram realmente persuadir o público MAGA.

Mas esse público também nasceu contra a ideia de guerras intermináveis. Por exemplo, o Iraque, o Afeganistão, a forma como saíram. Quase um instinto isolacionista. A forma de Trump comandar a política internacional norte-americana não é, de todo, isolacionista. Isto é uma fenda real no trumpismo com o movimento MAGA ou é quase um desentendimento familiar, uma discussão familiar que no fim se recompõe?

Por agora, Trump tem conseguido manter o seu eleitorado. E está a lutar para isso. Eu quero dar um exemplo de outro ângulo.

Donald Trump tem investido muito do tempo que tem para a política doméstica na questão da guerra interna dentro do partido. Ou seja, o que é que vimos nas últimas semanas? Nós estamos agora em primárias.

Primárias tanto do Partido Democrático como do Partido Republicano para selecionar quem serão os candidatos de cada um dos partidos para as próximas eleições. E o que é que vimos no estado do Indiana, em particular? Um estado que vota e que apoia maioritariamente Donald Trump.

Vimos Donald Trump usar o seu capital político, a sua energia e a máquina do partido, que a família de Donald Trump também controla neste momento. Ele pôs a sua nora à frente do partido. O que é que vimos?

Vimos Donald Trump utilizar todo este capital político e todo o poder institucional que tem para lançar desafios aos candidatos que já estavam no lugar. Candidatos esses republicanos. Candidatos esses que votam com o Partido Republicano 80% a 90% das vezes.

E porquê? Porque ele viu esses candidatos como tendo-o desafiado na luta pelo redesenho dos distritos eleitorais dentro do Indiana. Ou seja, há um canibalismo dentro do Partido Republicano, liderado pelo próprio Donald Trump, contra qualquer pessoa, qualquer agente institucional, ou seja, qualquer pessoa que esteja eleita no Congresso e que se oponha aos seus desejos.

Ou seja, Donald Trump está a tentar lidar com a questão da sua aprovação em queda, da aprovação em queda do Partido Republicano. Ele tem tentado, basicamente, utilizar a guerra como pretexto também para manipular as eleições e para tentar, de várias maneiras, redesenhar o mapa eleitoral, para conseguir ter o resultado eleitoral que quer, apesar da opinião pública e do lugar em que a opinião pública se encontra. E, enfim, Donald Trump basicamente vai atacando o partido por dentro e está a tentar livrar o partido destas vozes anti-MAGA, também para eliminar este tipo de influências que vê como negativas na opinião pública.

Eu vou guardar duas perguntas finais para falar das intercalares, mas antes há aqui uma pergunta que eu penso que é importante, e da qual a Daniela já falou muitas vezes na antena da CNN, mas ainda não tínhamos falado os dois, nem neste podcast, que é o lugar do Congresso quase como uma força de bloqueio, ou uma não força de bloqueio. Numa guerra assim, os senadores, os congressistas, ainda condicionam verdadeiramente o Presidente dos Estados Unidos, neste caso Donald Trump, ou limitam-se a reagir ao que Trump já decidiu, muitas vezes de uma forma se calhar não tão legal ou tradicional?

O Congresso tem essa força, se decidir utilizá-la. É tão simples quanto isso. Ou seja, o que vimos no último ano foi um Congresso que, sendo liderado tanto no Senado como na Câmara dos Representantes pelo Partido Republicano — se bem que por margens minúsculas —, foi um Congresso que se recusou a utilizar formalmente os mecanismos institucionais que tem para poder trazer accountability, para poder realmente trazer transparência a todas estas decisões. Porque o Congresso não tem o poder só de legislar e não tem o poder só de aprovar as finanças do país, digamos assim, as despesas do país. O Congresso também tem a capacidade, sobretudo através das suas comissões, de indagar, de questionar, de ter audiências públicas com membros do Governo, com pessoas como Marco Rubio, Pete Hegseth e tudo mais.

E no primeiro ano vimos o Congresso realmente não utilizar estes mecanismos propositadamente, porque estas comissões são lideradas pelo Partido Republicano e havia uma pressão bastante óbvia da Casa Branca sobre os congressistas para que estas audiências públicas não fossem levadas a cabo. E esta guerra no Irão também começou a mudar isso. Ou seja, começou a haver uma pressão maior, mesmo dentro do Partido Republicano, para que se retomassem estes mecanismos.

Estes mecanismos são importantes porque trazem à baila, ou seja, obrigam o poder executivo a prestar contas ao país, a prestar contas ao Congresso, muito publicamente. E isso em si também tem um efeito na opinião pública.

Daniela, desse lado republicano mais institucional, Senado, Câmara, também financiadores, obviamente, há um desconforto verdadeiro com Donald Trump, nomeadamente nesta política de guerra? Ou é apenas o medo — e fazendo já aqui a passagem — de pagar a fatura nas intercalares?

É. A curto prazo é... Bem, são ambas as coisas, mais uma vez, não é?

Mas, a curto prazo, o problema mais sério do Congresso, do Congresso republicano, são as intercalares. E os congressistas estão, francamente, entre a espada e a parede. Porquê?

Porque, se discordarem de Trump, acontece-lhes o que aconteceu no Indiana esta semana, em que o próprio Presidente se lança numa campanha de oposição a membros do seu próprio partido, que já estão eleitos e que vão à reeleição. E o Presidente tenta, e com sucesso, porque fez isso com bastante sucesso no Indiana — parece-me que foram quatro de seis, mas não tenho a certeza absoluta sobre os números, mas foi a maioria —, que a maioria daqueles que foram às primárias, os candidatos de oposição apoiados por Trump, conseguissem basicamente o apoio oficial do partido. Ou seja, porque é que eu digo que os congressistas estão entre a espada e a parede?

Porque, por um lado, têm um Presidente que é extremamente impopular neste momento, que quebrou várias promessas eleitorais, não só no que diz respeito à política externa, que tem sempre menos influência nas eleições, sobretudo nas eleições intercalares, mas também porque tudo isso, obviamente, tem tido consequências económicas desastrosas. E, embora a economia americana tenha conseguido manter-se mais ou menos estável, mesmo num período de abrandamento da economia, do crescimento dos empregos e por aí fora, as expectativas para a economia no próximo ano são sobretudo negativas. E tudo isso vai influenciar os eleitores na hora de ir votar.

Agora, quem são os eleitores que serão influenciados? E essa também é uma questão que, obviamente, este congressista tem de se pôr. Os eleitores MAGA, que são realmente MAGA, que se consideram MAGA dentro do Partido Republicano, esses eleitores provavelmente irão votar.

Porque foram votar, vimos agora isso no Indiana: o Presidente mobilizou-os e eles foram votar, e conseguiram realmente retirar os candidatos que já estavam no Partido Republicano e substituí-los pelos candidatos mais MAGA, chamemos-lhes assim. Mas, nas eleições intercalares, não serão apenas esses os eleitores importantes. Temos os eleitores independentes, por exemplo, que são a maior fatia do eleitorado e que estão cada vez mais mobilizados contra Trump, contra a guerra do Irão e contra a sua política económica.

Eu posso-lhe fazer então uma pergunta para terminarmos? Eu acho que é interessante a propósito do que está a dizer. Para quem não sabe ou para quem não se recorda, as eleições intercalares são só a 3 de novembro, mas, como a Daniela lembrou, já há candidatos, já há primárias a correr. Mas daqui a alguns meses, ou seja, a 3 de novembro, quando os americanos forem votar, eles vão lembrar-se do Irão como uma guerra necessária, que era aquilo que se calhar lhes era garantido no início, como uma guerra confusa, que foi aquilo de que falámos aqui hoje, ou como mais um episódio da imprevisibilidade de Donald Trump, que para muitos também é vista como uma arma negocial, porque mantém os adversários, os aliados e os mercados sem saberem o passo seguinte? Nessas eleições, o Partido Republicano — e neste momento se calhar confunde-se um bocado o Partido Republicano com Donald Trump —, as pessoas vão olhar para esta guerra como uma coisa positiva, ou até positiva desse ponto de vista da imprevisibilidade de Trump? Ele é um negociador e o que fez foi negociar? Ou, quando chegarmos a 3 de novembro, nada disto vai ter peso e o que vai ter peso é o custo da guerra e o custo na vida das pessoas?

Para que Donald Trump consiga mudar a narrativa, esta guerra tem de chegar a um termo. E é um termo em que Donald Trump possa salvar a face de alguma maneira. E Donald Trump também já nos disse, muito mais claramente do que fez no início da guerra, que a sua linha vermelha passa pela questão do urânio, da retenção do urânio enriquecido e do futuro enriquecimento do urânio pelo Irão.

Tudo o resto parece mais ou menos negociável, exceto também a abertura de Ormuz, mas isso é para ambas as partes: ambos precisarão da abertura de Ormuz eventualmente. A questão aqui é os timings. Ou seja, Donald Trump tem muito mais pressa nesta questão — aliás, devido a todas as razões que temos enumerado — do que o Irão. O Irão parece ter o tempo do seu lado e isso dá-lhe mais uma carta nestas negociações.

Se o público americano se irá lembrar ou não? Parece-me impossível que, num ano de eleições, o público tenha a capacidade de esquecer isto, até porque o Partido Democrata apostará exatamente nestas linhas de ataque para concorrer contra Trump. Parece-me impossível que isto não tenha efeito e que não seja um dos grandes temas das eleições intercalares, mesmo que o conflito chegue ao fim.

E mesmo com essa aura de negociador implacável, provavelmente não servirá de muito.

Eu diria que essa aura está cada vez mais frágil. Não nos esqueçamos de que Donald Trump prometeu — ou seja, grande parte da sua marca, da sua imagem — esta ideia de que é um grande negociador, que é uma pessoa com grande capacidade de melhorar a economia nos Estados Unidos. E, por mais que Donald Trump diga que a economia está ótima e que as coisas só podem melhorar a partir daqui, as sondagens mostram claramente que o público não concorda.

Não concorda com essa análise. E, na verdade, é isso que conta na hora das eleições. Quem é que está motivado para votar?

Quem é que está motivado para aparecer às urnas? E o que as sondagens também mostram muito claramente é que os democratas e os independentes estão muito mais motivados neste momento do que os republicanos. Portanto, essa motivação não é necessariamente um apoio declarado ao Partido Democrata, porque o Partido Democrata também está com sérias divergências internas e com problemas de estratégia global e tudo isso, mas o Partido Democrata beneficia não só destes problemas económicos e de política externa trazidos pela administração de Trump, mas beneficia também deste movimento reacionário contra Trump.

E isso em si pode ser o suficiente para realmente mudar o poder no Congresso nas próximas intercalares. E é nisso que os democratas apostam neste momento. Ou seja, quando o petróleo passa os 100 dólares por barril nos Estados Unidos, há uma barreira que realmente se quebra para o público americano.

O público americano é hiperdependente do carro. Não tem outras alternativas. E, a partir do momento em que a gasolina está aos preços a que está e que os economistas nos dizem que, mesmo que a guerra terminasse amanhã, estes efeitos na economia global, nos preços do petróleo, se manteriam por meses, talvez até ao ano que vem, os americanos vão percebendo que este apertar do cinto está para ficar, se não for para piorar.

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