"Os EUA estão a adaptar-se à China e a usar o poder enorme do Estado para dar incentivos às suas empresas"

14 mai, 07:15
Chegada de Donald Trump à China (AP)
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ENTREVISTA || "Acabou a ideia ingénua de que a globalização ia só ser abertura e que seria o Estado a sair e o mercado a entrar", afirma Alberto Cunha, que dá como exemplos a presença de Elon Musk perto de Donald Trump ou os negócios da Palantir ou da OpenAI com o Estado norte-americano. Até porque, como mostra a guerra no Irão, "os conflitos não se ganham necessariamente com quem tem mais porta-aviões, ganham-se economicamente"

 


Aproveitamos o acontecimento do dia para falar das tendências de uma era - e o dia é o da visita oficial presidente dos Estados Unidos à China. Alberto Cunha, investigador, académico, doutorado em Estudos Europeus pelo King’s College Londres, é professor na Universidade de Lisboa, especialista e comentador da CNN Portugal, e na conversa com a CNN Portugal ele pratica uma ginástica que lhe é habitual, a de "destrumpizar" a análise. E assim se desenha uma panorâmica de passados - e de futuros.

Nota: esta versão transcrita da entrevista foi ligeiramente encurtada e editada por razões de clareza e oralidade.


Vamos falar das relações entre os Estados Unidos e a China. Não tanto do que se passa neste encontro, mas aproveitando-o para ganhar distanciamento e tentar compreender em que sentido está a evoluir esta relação. Quando olhamos para o último ano, quais são os factos ou mais determinantes?

Quando os historiadores olharem para as relações entre os Estados Unidos e a China, penso que podem identificar duas datas muito importantes no último ano: 24 de fevereiro de 2025 e 12 de maio de 2025. Mais do que as datas em si, importa aquilo que elas representam.

Em 24 de fevereiro, foi aprovada, sob proposta dos Estados Unidos, uma resolução nas Nações Unidas que defendia a paz para a Ucrânia sem se referir uma única vez ao facto de a Rússia ter sido o agressor e o invasor. Essa resolução foi aprovada, mas todos os cinco países europeus abstiveram-se e todos os dez países não europeus, incluindo os Estados Unidos, votaram a favor desta resolução. Para termos noção, isto aconteceu quatro dias antes daquele famoso encontro de Zelensky na Casa Branca.

O que é que esta data representa? Representa que os Estados Unidos e a Europa, num assunto da maior importância para a Aliança Transatlântica, já não pensam da mesma forma. E não só não pensam da mesma forma como estão, em certos momentos, de lados opostos. No fundo, os Estados Unidos renunciam à hegemonia liberal, que teve pontos bons e maus, mas que era um sistema que funcionou, mais ou menos, durante 65 anos.

A segunda data é 12 de maio. Foi uma data no meio de toda aquele nevoeiro de ameaças tarifárias e recuos tarifários. A certa altura, os Estados Unidos, pela voz do seu Presidente e do secretário do Comércio, ameaçaram a China com tarifas de 150%, 100% e 50% sobre alguns materiais que consideravam críticos para a segurança nacional, incluindo, por exemplo, cobre, alumínio e algumas terras raras.

A China retaliou e, no dia 12 de maio, os Estados Unidos recuaram. Recuaram sem a China ter feito qualquer cedência.

O que é que esta data nos mostra? Mostra-nos que os Estados Unidos já não são o fulcro, ou pelo menos já não são o único fulcro, do sistema económico mundial. A comparação é instrutiva. Na mesma altura, a Comissão Europeia foi ao campo de golfe do Sr. Trump, mandatada, por exemplo, pela Alemanha, pela Holanda e por outros países que queriam amenizar as tensões, e fez algumas cedências para os Estados Unidos voltarem atrás nas tarifas. Mas a China não fez qualquer cedência.

E, portanto, estas duas datas mostram-nos o ponto atual das relações entre os Estados Unidos e a China.

Na China já não olham para o Ocidente como um bloco mais ou menos identificável

O que determina esta ponto atual? 

O ponto atual é marcado por duas tipologias e dois tipos de conflito. A primeira tipologia é que não há uma superioridade efetiva dos Estados Unidos em nenhum campo do poder internacional sobre a China, exceto no campo militar, e mesmo esse terá de ser testado. Mas no económico e no financeiro essa superioridade já não existe de forma clara.

A segunda tipologia é que aquilo que pensávamos como Ocidente, ou a Aliança Transatlântica, tem de ser visto de forma diferente. E posso garantir que, em Pequim, isso já é pensado de forma diferente. Eles já não olham para o Ocidente como um bloco mais ou menos identificável.

Claro que pode haver líderes — sempre houve — mais próximos da Europa do lado dos Estados Unidos e mais ou menos próximos dos Estados Unidos do lado da Europa, mas havia um bloco, uma ideia. Um conflito como a Ucrânia teria a unanimidade de opiniões, não talvez de resolução, mas teria a unanimidade de opiniões dos dois lados do Atlântico durante 65 anos. Agora não tem. A China sabe isso.

Falando dos tipos de conflito, na verdade, os Estados Unidos e a China estão a disputar dois conflitos. E isto é uma diferença importante, na minha opinião, em relação à Guerra Fria. Há muitas diferenças, mas os Estados Unidos e a União Soviética, além de representarem sistemas ideológicos relativamente rígidos — e hoje isso não acontece, existe uma certa flexibilidade tanto do lado da China como do lado dos Estados Unidos —, aceitavam, bem ou mal, que existia algo que era o sistema das Nações Unidas.

Ora, neste momento, há um vácuo nesse sistema das Nações Unidas. Ele existe na prática. As instituições são como pessoas que demoram muito tempo a falecer, ou nunca falecem, mas já não têm a mesma importância.

E os conflitos são em dois níveis. Há o conflito para jogar o jogo das relações internacionais, em que os Estados Unidos e a China são apenas mais poderosos do que os outros, mas há outros atores: há a Índia, há a Rússia, mesmo que enfraquecida, há a Europa, há o Brasil. Mas há também o conflito a um metanível, que é o conflito para definir as regras do sistema internacional. E esse, no fundo, é o conflito mais importante.

Aquilo que os Estados Unidos e a China querem fazer é definir as regras do jogo das relações internacionais.

Se eu fizer uma analogia um bocadinho forçada, ou talvez não, espero que ajude lá em casa: eu posso jogar um jogo de computador e posso jogar melhor do que os outros, mas nem toda a gente tem acesso a definir as regras do jogo de computador. Ou seja, muitos dos atores regionais podem jogar o jogo de computador, que são as relações internacionais, mas aquilo que os Estados Unidos e a China querem fazer é definir as regras do jogo das relações internacionais. E fazem-no de várias formas.

Por exemplo, a China tem a Organização de Cooperação de Xangai, tem acordos que fez agora com a ASEAN, tem os próprios BRICS, embora os BRICS não estejam capturados pela China, porque a Índia e o Brasil não compram a agenda, digamos, de desdolarização da China. Mas a China está a usar também os BRICS com esse objetivo.

Os Estados Unidos, por exemplo, criaram ou revitalizaram instrumentos como o Quad e o AUKUS, como resposta à perceção de que há necessidade de fazer algo novo, um sistema novo, dado que as Nações Unidas já não funcionam e aquilo que é a ancoragem transatlântica já não funciona para os Estados Unidos.

Portanto, são estes dois conflitos que temos. E isto é uma enorme diferença em relação ao período da União Soviética e dos Estados Unidos.

Que jogo é este? Estamos a falar do sistema económico, do regime político, de relações internacionais no sentido em que, por exemplo, passamos do multilateralismo a relações diretas, como as que Donald Trump faz? De que falamos quando falamos do tal jogo de computador?

Está tudo interligado. Uma das minhas académicas favoritas é a Susan Strange, que trabalhou muito nos anos 70 e 80. O conceito mais famoso dela, que aliás está a regressar ultimamente, é a ideia de poder estrutural. E o poder estrutural, de acordo com ela, tem quatro dimensões principais: económica, financeira, securitária e do conhecimento, ou seja, controlo do conhecimento, cadeias de conhecimento. Depois tem alguns eixos secundários, como energia, welfare, comércio.

O conflito do Irão é perfeito para percebermos que os conflitos não se ganham necessariamente com quem tem mais porta-aviões. Ganham-se economicamente, ganham-se com quem tem acesso, por exemplo, aos pontos de estrangulamento marítimo, mas também se ganham pelas regras.

Ou seja, está tudo interligado. Quando foram criadas a geopolítica e a geoeconomia como ciências separadas, isso fazia sentido no mundo da Guerra Fria, mas hoje já não faz sentido. E, se me permites, o conflito do Irão, nestes dois meses, é perfeito para percebermos que, se ainda havia dúvidas, os conflitos não se ganham necessariamente com quem tem mais porta-aviões. Ganham-se economicamente, ganham-se com quem tem acesso, por exemplo, aos pontos de estrangulamento marítimo, mas também se ganham pelas regras.

Por exemplo, o facto de a OPEP, que era uma aliança unificada, ter tido o Qatar a sair há uns anos e os Emirados Árabes Unidos a sair mais recentemente, é uma mudança profunda no sistema petrolífero internacional. E vamos ver uma diversificação cada vez maior da compra de petróleo a nível mundial.

Isso vai influenciar tudo. Se eu compro e quero não estar dependente de falhas energéticas — e tanto os Estados Unidos como a China estão obcecados em garantir sustentabilidade energética a longo prazo, o que se percebe, naturalmente, porque a energia é precisa para tudo —, não estamos apenas a falar de relações comerciais. Estamos a falar de relações em que, se eu tiver, por exemplo, um acordo com o Brasil para o fornecimento do petróleo que será extraído daqui a 20 ou 30 anos, se calhar também vou ter um acordo de venda de equipamento militar e, se calhar, também vou querer que, quando o Brasil passar do 5G para o 6G, seja o sistema chinês ou o sistema americano a ser usado pelo Brasil.

Ou seja, está tudo interligado. E é neste conflito, em que está tudo interligado, que há muitos atores a jogar. Mas os Estados Unidos e a China jogam a outro nível, porque têm outra capacidade.

Ou seja, as potências impõe as suas forças.

Aqui é importante dizer uma coisa que talvez já se esteja a perceber através da minha conversa: eu rejeito a interpretação de que, a partir dos anos 90, com a globalização, o Estado deixou de ser importante. Não. Acho que o Estado é cada vez mais importante.

Quando falamos, por exemplo, em negócios privados nos domínios mais avançados, como a inteligência artificial na China, eles não são negócios privados. Toda a gente sabe isso. Mas mesmo nos Estados Unidos, o que são a Palantir ou a OpenAI? Há enormes acordos com o Pentágono, que significam que estas não são empresas privadas no sentido em que não querem saber de qual é o Governo. Não. O Estado está a voltar.

É instrutivo que Elon Musk seja uma das pessoas que vai a Pequim com Donald Trump, porque Elon Musk não pertence ao Governo americano, sem ser aquele episódio meio tragicómico no início da administração. Mas as empresas de Elon Musk, a SpaceX, o X, habitam dentro do ecossistema americano. É neste ponto que estamos.

Numa análise séria de 2026, que não é a mesma forma de ver de 1966, a Rússia não é uma superpotência. Porquê? Porque a Rússia não está a jogar para definir as regras do jogo.

Claro que, se a pergunta é se há outros polos que poderão competir, e mantendo a analogia do jogo, podemos dizer que, neste momento, as regras do jogo económico, financeiro e securitário são talvez 60% a 70% escritas pelos Estados Unidos, 20% escritas pela China e 10% escritas pela União Europeia. Ninguém vai escrever o jogo todo sozinho, mas todos querem aumentar a sua percentagem.

Na minha opinião, se a União Europeia se definir — eu não gosto muito da palavra federação —, mas se houver uma forma de agregar o poder estrutural, para usar o conceito da Susan Strange, seja económico, financeiro ou securitário, do Reino Unido, da Alemanha, da França, da Itália e daqueles que se juntarem, se calhar a percentagem da União Europeia, que neste momento está mais concentrada em regras de comércio ou na forma como as garrafas de água são produzidas, pode aumentar.

Neste momento, as maiores percentagens pertencem aos Estados Unidos e à China. E isso regressa-nos, por exemplo, à Rússia. Ao contrário da maior parte das pessoas, acho que, do ponto de vista de uma análise séria de 2026, que não é a mesma forma de ver do que aconteceu em 1966, a Rússia não é uma superpotência. Porquê? Porque a Rússia não está a jogar para definir as regras do jogo.

Qual o alcance das ações da Rússia?

A Rússia está a lutar para garantir uma esfera de poder regional que, se me permites dizer, é cada vez mais pequena, e está a usar apenas um tipo de meios. Não é o facto de a Rússia usar meios coercivos que a torna extraordinária. É o facto de só usar meios coercivos.

A Rússia não tem capacidade de convencer os seus países vizinhos, seja no Cáucaso, seja na Ásia Central, seja a própria Ucrânia, a juntarem-se ao seu sistema. Teve várias formas de tentar fazê-lo, teve o projeto da União Euroasiática. Aliás, a decisão da Ucrânia, em 2013, de não avançar com o acordo de associação com a União Europeia e de se aproximar da União Euroasiática foi o que despoletou os protestos de Maidan. A Rússia não consegue usar outro tipo de meios. Tem de usar meios militares.

A China e os Estados Unidos usam vários meios. Os Estados Unidos, com Trump ou sem Trump, usam meios comerciais, financeiros, militares, todos, para conseguirem definir as regras das diferentes regiões. A Europa também está a usar o poder estrutural que tem, está a assinar acordos comerciais com o Mercosul, com a Índia, com a Austrália.

Porquê? Porque, neste momento, nós não temos, ou não queremos, usar meios militares para definirmos melhor aquilo que são as regras do jogo.

No meio disto tudo, o que é que a administração Trump representa? Por um lado, na minha opinião, no que diz respeito a esta competição para definir as regras do jogo, não há assim tanta diferença da administração Trump em relação a administrações anteriores.

A ideia de que os Estados Unidos estão insatisfeitos com o trade-off na NATO vem, pelo menos, desde Madeleine Albright, na administração Clinton, mas certamente desde Robert Gates, que o disse com todas as letras quando era secretário da Defesa de George W. Bush. Obviamente, disse-o com mais educação, mas disse.

Aquilo que é a estratégia dos Estados Unidos não é uma estratégia isolacionista — isso é mais um erro. Os Estados Unidos não estão a isolar-se e também não estão a ser realistas. Estão a ser ideológicos e a ter parcerias com países que seguem aquilo que são as regras que eles acham certas.

O movimento MAGA tem uma ideologia particular, uma fusão entre religião e tecnologia, de certa forma encapsulada por J.D. Vance. Se J.D. Vance ganhar as eleições em 2028, veremos provavelmente uma administração ainda mais ideológica.

E o que é que os Estados Unidos acham neste momento? Acham que a hegemonia liberal em que ofereciam bens públicos, como liberdade de navegação, segurança e um sistema financeiro, em troca de projeção de poder, já não lhes serve. Precisam de acordos mais transacionais, em que, por exemplo, recebem acesso a recursos naturais, dão ajuda militar mínima e quem toma conta da defesa são os atores locais, comprando equipamento americano. São esses os acordos que os Estados Unidos querem. Se a Europa tivesse esse acordo, a administração Trump não estaria insatisfeita.

A administração Trump significa apenas o corolário de uma evolução. Aquilo que acho que a administração Trump, e mais concretamente o movimento MAGA, tem de diferente não é a decisão de disputar com a China quem escreve as regras do jogo. É a forma como se joga esse jogo.

O movimento MAGA tem uma ideologia particular, que podemos simplificar como uma fusão entre religião e tecnologia, de certa forma encapsulada por J.D. Vance. Se J.D. Vance ganhar as eleições em 2028, veremos provavelmente uma administração ainda mais ideológica nesse sentido. Mas os Estados Unidos vão continuar a disputar a escrita das regras do jogo. A forma como jogam o jogo poderá ser completamente diferente com J.D. Vance ou com outro líder, dependendo das próximas eleições. Mas a decisão de disputar quem escreve as regras do jogo não depende das próximas eleições. Isso é um contínuo dos Estados Unidos, é uma tendência que vai durar.

Há tendências que vêm de trás. Disseste algumas: lembro-me de Obama falar na desglobalização e as tarifas são uma maneira, talvez abrupta e até bruta, de acelerar a desglobalização, porventura com maus resultados, mas vêm da mesma constatação ou necessidade; a recentragem da política externa dos Estados Unidos, do Atlântico para o Pacífico, vem de trás.

E queria pegar numa frase que disseste: o Estado está a voltar. EUA e China são países com histórias completamente diferentes. Os Estados Unidos são um país relativamente jovem, têm 250 anos, mas são uma democracia relativamente madura. A China é o contrário: tem uma história milenar, mas não é uma democracia. E, mais ou menos no mesmo tempo histórico, enquanto a China se estava a abrir ao capitalismo, no chamou capitalismo de Estado, a partir dos anos 80 os Estados Unidos estavam a fazer uma desregulação, uma abertura total, que muitos chamaram de neo ou de ultraliberalismo, um capitalismo mais desregulado, sobretudo na área financeira.

Perante este enquadramento, de capitalismo de Estado num país altamente centralizado face aos Estados Unidos a voltar atrás em muitas das suas aberturas do passado, o que é que significa dizeres que o Estado está a voltar?

Em primeiro lugar, temos sempre de ter cuidado com comparações, porque, como disseste e bem, a China e os Estados Unidos são países muito diferentes, com histórias muito próprias.

Mas os Estados Unidos têm uma enorme capacidade — e vou começar pelos Estados Unidos, porque me parece mais interessante, uma vez que a China descreveste-a basicamente e é até uma evolução mais linear —: os Estados Unidos são muito pragmáticos e olham para aquilo que funciona.

O que perceberam foi que aquele período que eu chamaria o período Reagan-Clinton, ou o período Alan Greenspan, que durou bastante tempo — estamos a falar de um período histórico que vai, pelo menos, desde o choque Volcker, em 1981, talvez até mais longe; eu acho que é um período que vai desde 1971, quando Richard Nixon saiu do padrão-ouro, e vai, pelo menos, até à crise de 2008 e à falência do Lehman Brothers —, chegou ao fim.

Só para recordar, Alan Greenspan foi presidente da Fed. Esteve mais de 20 anos nessas funções e atravessou, portanto, várias administrações.

Exatamente. Eu chamaria a isto, talvez, a fase do auge do neoliberalismo, sem precisarmos de estar aqui a insistir no rótulo.

Ao mesmo tempo, a China abriu-se, mas abriu-se de forma diferente, porque nunca abdicou do controlo político e manteve algo que era uma palavra proibida nos Estados Unidos durante estes anos: planeamento.

A abertura capitalista da China e a estratégia de going out — no sentido de a China investir noutros países — foram planeadas. E a China fez algo que hoje os Estados Unidos têm vindo a fazer em todos os seus acordos: quando aceita ou encoraja investimento no seu país, estabelece acordos que lhe permitem ficar com alguma da tecnologia que está lá e que depois pode replicar.

Isso teve um sucesso enorme e causou grandes problemas, por exemplo, em indústrias como a indústria automóvel alemã, que também teve as suas culpas, porque não investiu a tempo nos carros elétricos. Mas isso é outra história.

Do ponto de vista dos Estados Unidos, o que está a acontecer é uma adaptação ao lado bom da China. Estão a aproximar-se mais de um capitalismo de Estado. Esta ideia de que as empresas de Silicon Valley e Wall Street não têm relação com a estratégia da Casa Branca acabou.

Portanto, do ponto de vista dos Estados Unidos, o que está a acontecer é uma adaptação ao lado bom da China. Ou seja, estão a aproximar-se mais de um capitalismo de Estado. Claro que nunca será a mesma coisa, mas o que vemos é que esta ideia de que as empresas de Silicon Valley e Wall Street não têm qualquer relação com a estratégia da Casa Branca acabou. Isso acabou completamente, porque não resulta no mundo atual.

Não é por acaso que, se olharmos para quem estava na segunda ou terceira fila na tomada de posse de Donald Trump, estavam lá os chefes das maiores empresas de Silicon Valley e de Wall Street. Isso não teria acontecido nos anos de Reagan e Clinton. Portanto, passámos a um novo paradigma.

Porquê? Porque os Estados Unidos percebem que, para competir com a China — e é disso que se trata —, têm de mudar. Os Estados Unidos são um país muito competitivo. Querem ganhar, querem ter resultados. São também um país habituado a ganhar.

Na história europeia e na história da China há muitas derrotas e muitas vitórias. A China foi o Império do Meio, mas também foi invadida pelos mongóis. É um país com uma memória histórica muito longa. Também teve o chamado século e meio de humilhação, desde as Guerras do Ópio até à chegada de Mao Zedong ao poder, e eles lembram-se muito bem disso. Portanto, a ascensão da China, para nós, é a ascensão da China; para eles, é voltar ao lugar onde sempre estiveram. É uma perspetiva bastante diferente.

Os Estados Unidos, na verdade, só têm vitórias. Têm derrotas que não são estruturais. Tiveram uma derrota no Vietname, mas isso não afetou o modelo económico. Os Estados Unidos continuavam a ser o principal detentor de poder estrutural no mundo e continuavam a ter uma projeção de poder absolutamente ímpar na Europa e na América Latina, e a dominar o sistema mundial. Ou seja, tinham derrotas que não eram estruturais. Portanto, estão habituados a vitórias.

Na competição com a China, o que é preciso fazer é perceber esta aproximação a uma economia mais planeada, ou a um capitalismo de Estado, se quisermos usar essa expressão. Significa usar o poder enorme do Estado americano para dar incentivos às empresas privadas para cumprirem uma determinada estratégia.

Já agora, é também o que está a acontecer na Europa. O que está a acontecer na Europa, com, por exemplo, o Readiness Plan, com os vários fundos para aplicar na defesa — há um debate sobre se esse dinheiro deve ser gasto só na Europa ou não —, mostra que, de facto, está a começar a formar-se uma indústria de defesa europeia.

Nós vemos, por exemplo, que Margrethe Vestager, que era a comissária da Concorrência, tinha uma visão muito centrada na proteção do mercado. Essa visão deixou de dominar as decisões da União Europeia. Porque, para competir, precisamos de escala. A competição da defesa é muito bonita, mas, para competirmos com a China, com os Estados Unidos e com todos estes gigantes, temos de ter gigantes próprios e também uma direção estratégica.

É por isso que o Estado está a voltar. O Estado está a voltar porque o capitalismo não acabou, mas é um capitalismo cada vez mais planeado. A globalização também não acabou. Na verdade, intensificou-se. O que acabou foi a ideia ingénua de que a globalização ia ser apenas abertura, com o Estado a sair e o mercado a entrar.

Hoje, a globalização significa interdependência. Se eu e tu temos uma relação comercial muito forte, em que, por exemplo, eu te vendo certo tipo de equipamento e tu me vendes energia, eu estou dependente de ti e tu estás dependente de mim. Portanto, se tivermos problemas políticos, isso pode ser usado. Tu estás dependente da minha energia, então, se houver um conflito em que estás do lado que eu considero errado, posso fazer com que a tua energia seja mais cara, e vice-versa.

Qual é então a resposta?

Há três respostas, na verdade.

Primeiro, o Estado volta neste sentido de planeamento.

Segundo, as alianças. É isto que todos os atores estão a fazer. Na minha opinião, a principal falha da administração Trump é não perceber que a força do passado dos Estados Unidos foram as alianças militares e que a força do futuro serão as alianças económicas e comerciais. Esta administração não percebe isso. Para mim, é a principal falha. E vão perder, porque as tarifas podem dar vantagens a curto prazo, mas, a médio e longo prazo, significam que ninguém confia nos Estados Unidos e que os outros vão fazer alianças com outros parceiros.

A terceira resposta é que há uma politização cada vez maior da política externa, porque está tudo envolvido. Há pouco falei da artificialidade da separação entre economia e política, ou entre geopolítica e geoeconomia. Hoje também há cada vez menos divisão entre política externa e política doméstica. Essa separação praticamente não existe.

Os eleitores americanos e europeus veem que o que acontece na Ucrânia e no Médio Oriente afeta as suas compras, a forma como andam de carro, tudo. Portanto, há uma volta ao Estado no sentido em que há maior planeamento; há uma volta ao Estado no sentido em que há mais politização da política externa, porque economia e finanças estão integradas; e há, em terceiro lugar, uma importância cada vez maior das alianças regionais. Porque outro fator do mundo atual é que temos um mundo cada vez mais globalizado, mas também cada vez mais regionalizado.

Nesse lugar, onde é que fica o Ocidente? Dizias no princípio que a China olha para o Ocidente numa esquadria diferente daquela com que nós tradicionalmente olhamos. Isso quer dizer que o Ocidente está dividido, falta relação entre Estados Unidos e Europa? Que a Europa e o Ocidente estão enfraquecidos? Ou pura e simplesmente é uma referenciação que já não faz sentido?

Vou começar pela parte boa, pela parte do otimismo. As relações internacionais são um icebergue: aquilo que vemos da política é a parte que está acima de água, mas por baixo de água estão relações culturais e linguísticas que não vão desaparecer.

Os Estados Unidos e a Europa têm uma relação muito profunda. E, já agora, eu incluiria a América Latina nesse ponto, embora saiba que muitas vezes ela não é incluída. Temos relações de nível cultural, linguístico, musical, alimentar, que não vão desaparecer com qualquer político. Ou seja, é uma relação muito profunda.

Portanto, o Ocidente, a nível etnocultural, não acabou. Agora, a nível político, o Ocidente — ou mais concretamente, porque eu acho que o Ocidente nunca existiu como um bloco político unitário, e eu incluiria a América Latina no Ocidente —, o espaço euroatlântico era um bloco político, geopolítico e militar. Isso acabou.

Acabou no sentido em que vemos, por exemplo, na guerra da Ucrânia, que não é uma questão de tática. Há opiniões diferentes. Vemos isso na Gronelândia: um dos lados deste bloco está a ameaçar o território do outro lado do bloco. O facto de os Estados Unidos não terem invadido a Gronelândia não interessa. A ameaça já foi feita.

Em Pequim, como em Moscovo, toda a gente percebe que essa realidade existe. E agora ficam duas questões: por onde vamos e se a direção é irreversível.

E...?

Na verdade, há vários cenários. Eu não sei para onde vamos. Ninguém sabe, na verdade. Depende muito das vontades políticas e das lideranças.

Acho que podemos desenhar três cenários. O cenário que me parece mais improvável é o regresso ao statu quo. Ou seja, fingimos que estes anos não aconteceram, são eleitos presidentes democratas e voltamos à realidade dos anos 90/2000, que nunca foi perfeita, mas que era um sistema que funcionava.

Acho que isso é improvável porque o processo de criação de uma indústria de defesa europeia — e vamos esquecer as instituições, porque nos obcecamos muito com instituições na Europa — já está a acontecer. Está a acontecer através de países, nomeadamente da França e da Alemanha. É um processo que demora muito tempo, mas já é irreversível.

A partir do momento em que a Europa tiver um complexo militar, daqui a 20 ou 30 anos, comparável ao dos Estados Unidos, não terá o mesmo nível de dependência e não terá de aceitar as mesmas coisas que aceitava antes. Ponto final.

O segundo cenário é um divórcio total. Ou seja, a NATO talvez continue porque, como acho, as instituições são quase seres humanos imortais: continuam sempre. A União da Europa Ocidental era uma pequena organização que existia na Europa, que não servia para nada e existiu até 2011. Não servia para nada desde os primeiros anos depois da criação da NATO, mas continuou.

A NATO pode continuar, mas, na prática, organiza-se uma Europa da defesa. Por exemplo, o comissário europeu falou numa União da Defesa Europeia há duas ou três semanas, e falou várias vezes. Obviamente que as propostas da Comissão têm sempre de ser levadas com uma pitada de sal, porque a Comissão é sempre a mais pró-europeísta. Isso não quer dizer que os europeus vão por esse caminho.

Tal estratégia custaria muito dinheiro aos europeus. Eu não tenho a certeza de que os países nórdicos, nomeadamente, queiram pagar. Estamos a ver que, mesmo no contexto destas crises todas, na discussão do Multiannual Financial Framework, ou seja, do Quadro Financeiro Plurianual da União Europeia, os países nórdicos estão com muita relutância em aumentar o orçamento, que seria necessário para fazer isso.

O orçamento federal da União Europeia — porque já é um sistema quase protofederal — é muito pequeno quando comparado com o da maior parte das federações. Portanto, esse divórcio total significaria que a Europa iria construir alguma coisa. E eu penso que isso não vai acontecer.

Mesmo que Jordan Bardella e Marine Le Pen ganhem as eleições, eu diria que se vão melonizar.

Acho que o cenário mais provável é termos interesses divergentes em parte e uma aliança mais seletiva. Ou seja, em certos temas os Estados Unidos e a Europa vão continuar a cooperar e, noutros temas, não vão cooperar. Na prática, acho que é isso que já acontece.

A segunda questão é saber se este cenário vai durar e, sobretudo, se há eleições que o podem mudar. Acho que as duas principais eleições são a eleição francesa no próximo ano e a eleição americana em 2028, mas também acho que, na direção de viagem, são menos importantes do que as pessoas pensam.

Mesmo que Vance tenha uma estratégia mais radical, eu diria, de união entre religião e tecnologia, acho que isso terá mais impacto a nível doméstico do que a nível externo, porque basicamente continuará a estratégia desta administração.

No que diz respeito à eleição francesa, que também pode mudar muito a direção de viagem, nomeadamente da Europa, não sabemos o que vai acontecer. Mas faço aqui uma previsão - e odeio fazer previsões porque normalmente uma pessoa engana-se: mesmo que Jordan Bardella e Marine Le Pen ganhem as eleições, eu diria que se vão melonizar.

É um verbo de que gosto: um líder chega a dizer que vai acabar com a União Europeia, mas depois o programa já evoluiu. Já não querem sair do euro, já não querem sair de nada. No fim, acabam por jogar o jogo da União Europeia e passam de “vamos acabar com isto tudo”, “Frexit” e a conversa que tinham há dez anos para “vamos tentar mudar a União Europeia por dentro”. Foi isso que Meloni fez.

Lembro-me das hecatombes que foram previstas quando Meloni chegou ao poder. Ela jogou o jogo da União Europeia. Às vezes concordamos, às vezes não concordamos, mas está lá.

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