Durante mais de cem anos, Portugal ocupou um dos pontos mais cobiçados do comércio entre a Ásia, a Arábia e a Pérsia, sem alguma vez controlar por inteiro o mundo que ali se movia. Nesta entrevista ao podcast Fúria Épica, da CNN Portugal, o historiador Roger Lee de Jesus desmonta a ideia de domínio absoluto, atravessa o quotidiano, o negócio e a violência da presença portuguesa no Golfo Pérsico. E explica por que razão nenhum herói do século XVI português responde às guerras de agora
Antes do petróleo, houve as pérolas.
E antes dos gigantescos portos de contentores, cavalos desembarcados para as guerras da Índia, e sedas a atravessar continentes, enxofre arrancado a ilhas vulcânicas para alimentar pólvora. Mas Ormuz esteve lá durante séculos, uma cidade que nasceu, enriqueceu, caiu e se transformou à volta de um mar que nunca foi apenas uma massa de água entre duas margens.
Foi a Ormuz que os portugueses chegaram em 1507. Não a uma ilha vazia, só à espera de ser tomada, mas a um lugar onde muitos já negociavam, cobravam, atravessavam, mandavam. “Quando chegam, chegam já a um sistema completamente montado”, corrige Roger Lee de Jesus. Afonso de Albuquerque tentou conquistá-la e perdeu-a quase logo a seguir, abandonado pelos seus capitães. Regressou em 1515. E desta vez ficou.
E ficou a presença portuguesa, durante mais de um século, até 1622 — quando uma aliança entre persas e ingleses retirou Ormuz das mãos de Portugal. Para não mais voltar.
Lá, em Ormuz, o calor entrava em tudo. As casas eram construídas para tentar capturar o vento. E há uma imagem do século XVI que ficou: uma família portuguesa dentro de uma piscina, a água pela cintura, a mesa pousada à frente, os pratos servidos. Numa ilha sem água potável, era preciso metê-la à volta do corpo para aguentar a vida.
Mas a cidade não vivia de imagens como essa.
Vivia do que passava por ela. “Ormuz era mais uma máquina fiscal”, explica Roger Lee de Jesus. A fortaleza portuguesa marcava a paisagem, a alfândega pagava a presença. Os navios atravessavam o estreito, as taxas ficavam, os produtos seguiam viagem.
Só que nem a conquista tornou Ormuz apenas portuguesa. Continuou a ser persa, árabe, indiana, muçulmana, cristã, atravessada por mercadores e por línguas que iam da costa oriental de África aos mares da China. Era, descreve Roger Lee de Jesus, “uma verdadeira Babel linguística”. Uma cidade presa a uma ilha, mas aberta a quase tudo o que o mundo transportava.
É também por isso que Ormuz não cabe na lembrança confortável de um Portugal que chegava, vencia e mandava. Os portugueses tiveram a fortaleza, a alfândega, a cobrança, e as armas também. Só que nunca tiveram o mar inteiro. Nem as rotas inteiras. Nem sequer o dinheiro suficiente para manter, sem dificuldade, a máquina que tinham construído. “Não é propriamente um jogo simples feito de grandes vitórias épicas”, sublinha o historiador.
Quatro séculos depois, o nome de Ormuz voltou ao presente com a guerra, os navios, o petróleo e o medo imenso de um estreito fechado. E voltou também Afonso de Albuquerque, governador português do século XVI, convertido nas redes sociais numa espécie de resposta antiga para problemas modernos. Roger Lee de Jesus não deixa espaço para essa fantasia: “Afonso de Albuquerque dificilmente faria alguma coisa contra a situação atual”.
É sobre essa sobrevivência de Ormuz — muito antes dos portugueses, para lá dos portugueses e ainda agora, quando o Golfo regressa ao centro do mundo — que se faz esta entrevista do podcast “Fúria Épica”. Roger Lee de Jesus é historiador, investigador da presença portuguesa na Ásia e no Golfo Pérsico e, com Paulo M. Dias, autor do podcast “Falando de História”.
Num episódio do podcast que tens com o Paulo M. Dias, o “Falando de História”, dizem uma coisa que parece simples, mas muda desde logo a escala da conversa: o Golfo não é apenas o Estreito de Ormuz, nem apenas petróleo, nem apenas crise, esta crise em que estamos agora. É uma região inteira. Como é que explicas, a quem está a ouvir esta entrevista e não tem um mapa à frente, o que foi historicamente o Golfo Pérsico?
Bem, antes de mais, quero agradecer o convite para estar aqui a falar um pouco sobre a história do Golfo, que é realmente uma região bastante interessante ao longo dos séculos, não só por causa daquilo que está a acontecer agora, desta crise, mas porque, mesmo historicamente, tem sido sempre uma região bastante contestada, com interesses variados de muitos potentados, muitos impérios, que ao longo dos séculos olharam sempre para o Golfo, lá está, como uma zona central e de passagem.
O Golfo, na realidade, tem de ser entendido no seu ecossistema próprio, entre a margem norte e a margem sul. Neste caso, nos últimos anos, aliás, nos últimos séculos, faz-se esta diferença entre o norte persa e o sul arábico. De forma que não é uma zona que se compreenda facilmente olhando simplesmente para os últimos 50 anos, se quisermos tentar perceber a posição do Irão desde a sua revolução, em 1979, ou sequer antes disso, com as revoluções nos países árabes já no século XX, na primeira metade do século XX. Temos realmente de olhar um pouco mais para trás para conseguir perceber o que é o Golfo e como é que chegamos à situação atual.
Antes de chegarmos, ainda não à atualidade, mas aos portugueses em Ormuz — porque também é isso que te traz ao Fúria Épica, não apenas isso, mas também isso —, eu gostava de ficar nesse mundo mais antigo. Dilmun, Siraf, Baçorá, Kish, Ormuz: o que é que estas cidades nos dizem sobre o Golfo como lugar de passagem entre rios, desertos, montanhas, Índia, Pérsia, Arábia, África Oriental, Mediterrâneo? O que é que estas cidades nos dizem sobre o Golfo?
Dizem várias coisas, mas eu destacaria sobretudo duas. A primeira é o Golfo como local de passagem, um local de passagem entre vários espaços geográficos, norte, sul, este, oeste, ao longo de vários séculos. E, sobretudo, a capacidade que estas cidades e estas populações à volta do Golfo têm de se reinventar constantemente.
As cidades aqui mencionadas — Dilmun, estamos a falar de uma cidade já com muitos séculos de existência antes ainda da nossa Era Comum, da nossa Era de Cristo; depois Siraf, já no período medieval; depois Baçorá, Kish, Ormuz — são grandes cidades, grandes cidades portuárias, sempre, obviamente, porque há aqui esta questão do comércio, que é central, mas mostram como o Golfo acaba por se ir reinventando ao longo dos séculos.
E uma das suas reinvenções mais recentes é o Dubai. O Dubai, hoje, não é só uma das grandes cidades, uma das grandes metrópoles, não é apenas uma cidade, é efetivamente uma região inteira alavancada através desta cidade portuária, e mostra bem que vem de uma longa tradição.
Portanto, o Dubai não é filha única, uma cidade excecional dentro do que é o Golfo nos últimos 500 anos. É realmente herdeira de todas estas cidades que, nos últimos três mil anos, fazem a história do Golfo.
Há uma imagem muito forte em Ormuz. Ainda há poucos dias, também neste podcast, falei com um português que faz viagens ao Irão — e a Ormuz, concretamente —, o Miguel Judas. E há uma imagem muito forte porque é uma cidade historicamente riquíssima, cosmopolita, indispensável para contar a história do Golfo, mas fica numa ilha sem água potável, exposta ao calor, a temperaturas muito altas, quase aparentemente hostil à vida. Como é que um sítio assim se torna, na verdade, uma das grandes praças comerciais do mundo?
É realmente algo interessante, e não é único de Ormuz. Se olharmos para outros pontos onde os portugueses se fixaram ao longo dos séculos no espaço do Índico-Pacífico, acaba por ser muito frequente.
Além de Ormuz, se olharmos, por exemplo, para Diu, que subsistiu como portuguesa até 1961, até ser libertada, digamos assim, pela União Indiana, hoje a praça-fortaleza, a parte central, é obviamente um monumento histórico. A mesma coisa se olharmos ainda para o norte da Índia, para Baçaim, que foi a capital daquilo a que chamamos a Província do Norte. Hoje é uma cidade completamente fantasma, e Baçaim era o coração pulsante desta Província do Norte do Estado da Índia.
E acontece noutros lados. Mesmo Goa: se formos olhar para a cidade que foi a capital do tempo dos vice-reis, esta imagem mítica que temos deste período áureo português, hoje é aquilo a que se chama Velha Goa, que é simplesmente meia dúzia de edificados, os monumentos religiosos que subsistiram.
Haveria outros exemplos a dar, mas é algo que acontece frequentemente: estas grandes cidades acabam hoje por ser apenas uma sombra do que foram. E o caso de Ormuz é muito peculiar precisamente por isso que apontaste: é um lugar completamente estéril. Mas não é só a geografia do espaço, não é só o seu habitat natural, que acaba por delinear o seu futuro. São realmente o povoamento urbano e, sobretudo, as relações que se estabelecem do ponto de vista comercial e social que acabam por transformar esses locais.
E Ormuz é realmente um exemplo perfeito disso. Uma ilha completamente deserta — porque aquilo a que chamamos Ormuz, na realidade, é uma pequena cidade na ponta de uma pequeníssima ilha à entrada do Golfo — e é impressionante como foi uma cidade que dominou todo aquele estreito, apesar de ter condições de vida muito difíceis.
Desde os inícios do século XVI temos descrições — aliás, antes dos portugueses, mas, se olharmos só para o período português, temos descrições — sobre as condições muito difíceis de vida em Ormuz por causa do calor. Tanto que há descrições de Tomé Pires, na sua “Suma Oriental”, uma das primeiras grandes descrições do espaço asiático, por volta de 1515, que explica como se construíam as casas com uma espécie de elementos, umas chaminés para fora, que tentavam capturar o vento para o fazer entrar dentro de casa.
E também temos descrições de como os portugueses acabavam por quase fazer refeições dentro das piscinas. Há uma imagem muito famosa, muito célebre, do chamado Códice Casanatense, que hoje está em Roma, que data de meados do século XVI — e basta procurar na internet, porque é capa de muitos livros sobre este período —, que mostra precisamente uma família portuguesa a jantar dentro de água, numa piscina, porque o calor era tanto que tinha de haver alguma forma de sobreviver. Mas isso não é, obviamente, único de Ormuz. Toda aquela zona é afetada por altíssimas temperaturas. Portanto, há esse fio condutor que liga um pouco as formas como as populações acabam por se adaptar.
Tu falavas, nesta resposta, do período áureo português. E, quando se fala de alguns períodos áureos da história dos Descobrimentos portugueses, às vezes fala-se de uma forma mais empolada, às vezes de uma forma mais séria e aprofundada, como aquela que tu fazes e que o Paulo M. Dias também faz contigo no vosso podcast. Mas quando os portugueses chegam ao Golfo, em 1507, chegam a um vazio ou, na verdade, chegam tarde a um sistema que já era sofisticado, já tinha regras, já tinha impostos e equilíbrios próprios?
Chegam já a um sistema completamente montado. Durante muitas décadas pensou-se, e até se criou esta ideia, através de um historiador indiano, da “era gâmica”, ou seja, da chegada de Vasco da Gama como um terramoto que altera tudo. E, na realidade, sabemos que também não foi assim.
Estudos das últimas décadas têm mostrado que não é assim. Tentou-se fazer um certo paralelo com o impacto da chegada dos castelhanos, dos espanhóis, às Américas. E há, claro, muitas mudanças, mas, do ponto de vista fiscal ou económico, há muito pouco, porque o que os portugueses encontram é um sistema já muito desenvolvido e já muito autossuficiente.
Na realidade, rapidamente se percebe algo que já se sabia desde o período romano: a Índia e o espaço asiático têm muito pouco interesse no mercado europeu. Isto é, aquilo que a Ásia tem para oferecer à Europa é muito mais do que a Europa tem para oferecer à Ásia, em termos mercantis, em termos comerciais.
O que acontece é que os portugueses vão entrar nesse jogo das trocas, vão entrar nesse complexo xadrez político e económico, mas vão entrar como outro jogador. E, para entrarem como outro jogador, vão recorrer à violência, vão recorrer à guerra, obviamente, porque têm de se afirmar como um jogador capaz de defender os seus próprios interesses.
O que vai acontecer nos séculos XVI e XVII, sobretudo, é que os portugueses vão ser mais uma peça desse jogo, desse xadrez político e económico, se quisermos. Isto quer dizer que houve, claro, algum predomínio de alguns produtos, de algumas rotas, mas os portugueses nunca dominaram totalmente estas rotas comerciais no espaço asiático.
Era muito difícil, até por uma questão muito simples: não havia meios. Os portugueses não tinham meios para isso. Nos inícios do século XVI, estima-se que a população portuguesa rondasse um milhão e duzentos mil habitantes. Estamos a falar de muito pouca gente para se estender a todas as partes do mundo, que foi o que os portugueses fizeram — não querendo passar uma imagem gloriosa, mas foi efetivamente o que aconteceu. Desde as costas do Brasil até à costa ocidental e oriental de África, até um pouco por toda a parte no espaço asiático, os portugueses acabam por se afirmar com pequenos entrepostos, com feitorias-fortalezas iniciais, que depois realmente desenvolvem, em alguns locais, com uma territorialização, ou seja, com uma entrada pela terra adentro muito forte.
Mas estamos a falar sempre de uma população muito diminuta. Portanto, há aqui uma necessidade de adaptação, de adaptar as suas instituições administrativas de uma forma que fosse possível sobreviver num ambiente obviamente hostil. Não é propriamente uma forma fácil de o fazer e, obviamente, como disse, a violência e a guerra vão ser algo central na forma como os portugueses acabam por se integrar nesses mercados.
Para falar dessa integração, temos necessariamente de falar de Afonso de Albuquerque, que é muitas vezes lembrado precisamente como uma figura de força, mas também quase como uma lenda imperial portuguesa. Mas em Ormuz, e na presença dos portugueses e na conquista de Ormuz pelos portugueses, há também falhanços, nomeadamente a famosa revolta dos capitães, e outro tipo de fragilidades. O que é que isso nos conta, na verdade, sobre o Império Português, que muitas vezes a memória épica dos Descobrimentos costuma esconder ou não revelar totalmente?
Há aqui realmente uma questão da forma como se olha para o passado. Afonso de Albuquerque é uma figura fascinante, muito interessante do ponto de vista político e militar. É realmente impossível entendermos o século XVI português e o Império Português na Ásia sem olharmos, obviamente, para a figura de Afonso de Albuquerque, governador do Império Português na Ásia, daquilo que depois se denominou Estado da Índia, entre 1509 e 1515.
É uma figura muito própria, que tem ideias próprias e que acaba por criar os alicerces do que é a presença portuguesa na Ásia, através da conquista de Goa, em 1510; depois de Malaca, em 1511; e depois de Ormuz, numa primeira tentativa em 1507 e, depois, definitivamente, em 1515. Ou seja, é ele que acaba por criar estes três nódulos centrais do que vai ser o Estado da Índia: Goa, Malaca e Ormuz.
Mas esse exemplo de Ormuz é realmente muito paradigmático. Ele conquista a cidade uma primeira vez, em 1507, e acaba por haver uma revolta dos capitães, porque aquilo não estava destinado inicialmente — poderá muito certamente ter sido um plano próprio, porque ele já percebia naquele momento a utilidade de Ormuz.
É preciso dizer aqui que, quando conquista Ormuz em 1507, ainda não é governador. Estamos a falar ainda apenas como capitão da armada que estava a comandar. Há uma revolta dos capitães, que o abandonam, e ele acaba por abandonar Ormuz porque está sem homens. Depois, em 1515, volta a atacar e aí volta a conquistar.
Isto mostra, na realidade, um pouco daquilo que são as dinâmicas da construção do Império Português, porque não é propriamente um jogo simples feito de grandes vitórias épicas. Há grandes avanços, há grandes recuos e há uma constante tensão social entre aquilo que a Coroa quer, aquilo que o rei manda a partir de Lisboa e aquilo que os próprios oficiais querem — quer estejamos a falar dos oficiais maiores, mais altos, como governadores, vice-reis, vedores da Fazenda, enfim, todo esse oficialato de grande destaque, quer depois daquilo que a soldadesca pretende.
E há também muitos episódios de revoltas locais de soldados, soldados portugueses que se revoltam contra os próprios capitães porque, por exemplo, não são pagos. Há muitos exemplos de pequenas revoltas que mostram também esta dualidade entre aquilo que é a construção do império e aquilo que foi a ideia construída ao longo dos séculos. Diga-se que logo a partir do século XVI há esta construção da imagem de como o império foi construído.
Portanto, isto não é uma coisa dos últimos 50 anos, uma coisa simplesmente do Estado Novo. Na realidade, o Estado Novo amplia esta imagem que já tínhamos do império, porque essa visão já tinha sido construída ao longo dos séculos. E a historiografia, sobretudo a historiografia social do império, tem mostrado que, na realidade, as coisas obviamente não são monolíticas, não são a preto e branco. Há muitos cinzentos.
Eu gosto sempre de lembrar uma música do cantautor Fausto, naquele seu álbum magnífico “Por Este Rio Acima”, em que uma das últimas faixas se chama precisamente “Olha o Fado”. Uma das frases é: “E a verdade que vos dói é que não queremos ser heróis”. Acho que mostra bem como nós projetamos atualmente — quem diz agora diz há 50 anos, há 40 anos, quando o álbum foi publicado — aquilo que aqueles homens queriam e a forma como o império foi construído. E, na realidade, às vezes a história real, aquilo que os documentos nos mostram, não é bem assim.
Depois de 1507, como disseste, Afonso de Albuquerque regressa a Ormuz em 1515 e Ormuz entra definitivamente na órbita portuguesa. Portugal conquista a cidade, conquista ou controla o comércio do estreito. A fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz é, obviamente, um sinal desse poderio português na região, mas talvez o verdadeiro poder estivesse menos na fortaleza, menos na pedra, digamos assim, e mais na alfândega, nos tributos, nos papéis. Ormuz era mais uma fortaleza militar ou mais uma máquina fiscal?
Era mais uma máquina fiscal, para sermos mais corretos, porque o que Ormuz vai fazer é efetivamente permitir o controlo, mais eficiente ou menos eficiente, do estreito.
O que passa a haver é uma alfândega, que já existia. Portanto, este sistema de pagamento de tributo pelos navios que passavam pelo estreito já tinha sido implementado antes pelo reino de Ormuz, aquele que Afonso de Albuquerque vai conquistar. Os portugueses herdam esse sistema e vão mantê-lo.
O que acontece é que passa a haver essa cobrança de impostos, basicamente, e é daí que vem o grande rendimento da cidade. Isso permite o quê? Permite, para já, retirar uma parte dos produtos que vêm do Golfo para o comércio da Coroa, exportar esses produtos para Goa e, depois de Goa, seguem naturalmente para o reino, pela Carreira da Índia, pela ligação marítima que ligava Portugal à Índia.
O que acontece é que há uma grande parte deste negócio, destes tributos e tudo mais, que não diz respeito propriamente à Carreira da Índia, ou seja, não diz respeito a esta ligação comercial e ao comércio controlado pela Coroa e pelos oficiais da Coroa, porque grande parte do que existe, grande parte do que é feito, corre paralelamente.
Isto quer dizer que, como a historiografia já mostrou há muitas décadas, o que continua a existir dentro do Império Português é este comércio “de Índia em Índia”, como se dizia na expressão da época. Aquilo a que hoje chamamos comércio intra-asiático. Ou seja, era mais rentável para alguém comprar um determinado produto, por exemplo, na costa ocidental da Índia, e vendê-lo no Golfo Pérsico, no golfo de Bengala, ou ir para o Sudeste Asiático, do que investir propriamente na Carreira da Índia e mandar produtos da Ásia para a Europa.
É assim que, na realidade, grande parte das comunidades espontâneas de portugueses vão aparecer. Aquilo a que um historiador americano chamou o “império-sombra”. O que vai acontecer é que muitos portugueses vão sair fora da órbita do Império Português, ou seja, da alçada da Coroa, e vão criar as suas próprias comunidades, vão tornar-se mercadores locais e vão acabar por negociar um pouco por toda a Ásia autonomamente. Portanto, de forma completamente liberalizada, digamos assim, sem qualquer interferência por parte dos oficiais régios.
Isto que estou a dizer não é nada de novo. Já tem sido debatido há muitas décadas e estudado por vários historiadores, mas mostra que, na realidade, há todo um comércio paralelo. Portanto, há, por um lado, o comércio oficial da Coroa, tutelado pelos oficiais do rei, em última instância pelo rei em Lisboa, e, ao mesmo tempo, há comércio que é feito também por portugueses, mas fora desta esfera.
Depois há mercadores locais e há redes locais que os portugueses mantêm, desde que os tributos sejam pagos, desde que o dinheiro continue a fluir, digamos assim. Sobretudo para manter a máquina tributária viva, porque é preciso também dinheiro para manter o aparelho militar. Os soldados custam muito dinheiro, as fortalezas custam muito dinheiro, e é preciso realmente haver uma viabilidade económica disto tudo.
O que sabemos é que isso é muito difícil para o Império Português na Ásia. A documentação que subsiste hoje, por exemplo, dos orçamentos do Estado da Índia, que temos mais frequentemente a partir da segunda metade do século XVI, mostra que o Estado da Índia está cronicamente com falta de dinheiro — o que, enfim, poderá até soar algo parecido com os nossos tempos, se quisermos pensar nisso. Mas, na realidade, era muito difícil manter esta máquina à tona de água.
E Ormuz é uma das poucas fortalezas que rende. A sua alfândega rende bastante durante várias décadas, até que, a partir de determinado momento, começa a tornar-se muito complicado. Nos inícios do século XVII, a partir da década de 1610-1620, sabemos que Lisboa envia dinheiro diretamente pela Carreira da Índia para a Ásia, para Goa, para que a máquina administrativa e militar seja paga, porque aquilo que rende localmente já não é suficiente para pagar a manutenção do Estado da Índia.
Vamos precisamente falar do Estado da Índia, porque, de uma forma talvez simplista — e é normal —, quando o público pensa no Estado da Índia, pensa em especiarias. Mas no Golfo aparecem cavalos, pérolas, sedas, enxofre. E, num episódio do teu podcast com o Paulo M. Dias, o “Falando de História”, que dedicam precisamente ao Golfo Pérsico, citas uma frase extraordinária de uma carta da época que diz: “A pimenta nunca matou ninguém”. A pimenta dava dinheiro, certamente, mas o enxofre era usado para fazer pólvora e podia alimentar guerras. Ormuz e o Golfo eram, além de uma rota comercial, também uma peça essencial na guerra portuguesa na Índia?
Era, precisamente por causa do enxofre e dos cavalos. Há aqui uma questão essencial. Os portugueses estabelecem-se em várias feitorias-fortalezas, algumas delas transformadas em cidades abaluartadas, em fortalezas de pleno nome, outras em cidades, e, claro, a guerra é feita de várias maneiras nesta época, mas a pólvora é o seu elemento central.
Quando os portugueses chegam à Ásia, nos finais do século XV, e se estabelecem nos inícios do XVI, a pólvora já era conhecida. A pólvora é uma invenção chinesa, na realidade, que chega à Europa muito rapidamente, e na Europa desenvolvem-se as armas de fogo de uma forma que ainda não estava desenvolvida na Ásia.
Há até um artigo muito interessante de dois historiadores da área, Geoffrey Parker e Sanjay Subrahmanyam, que mostra como, na realidade, aquilo que os portugueses trazem são armas, um tipo de arma já conhecido, mas de outra forma.
E é interessante pensar o que é que, deste armamento, o Golfo traz. Traz precisamente enxofre. A pólvora — nesta época estamos a falar de pólvora negra; depois há outro tipo de pólvora, chamada pólvora granulada — é composta por três elementos: enxofre, carvão e salitre.
O carvão é facilmente disponível, até se faz carvão a partir da queima de árvores. O salitre encontra-se na Índia, na península indiana, é natural, por causa do tipo de clima, quase que brota naturalmente. Portanto, é muito fácil, ao contrário da Europa, onde tem de passar por um processo de refinamento muito complexo.
E o enxofre, neste caso, no espaço asiático, vem sobretudo do Golfo Pérsico, por causa das ilhas vulcânicas. No espaço europeu vinha sobretudo da Sicília e de outras ilhas vulcânicas do Mediterrâneo, mas no caso do Golfo vinha de pequenas ilhas ao largo ou perto de Ormuz.
Os portugueses vão passar a importar esse enxofre para as suas fortalezas, para produzir pólvora e também para vender, claro, e para ter algum controlo sobre isso. Vai haver realmente esse tráfico ilegal de enxofre, o que mostra que os portugueses não conseguiam controlar completamente o estreito.
Esta ideia de que os portugueses faziam bloqueios navais completos é impossível, mais uma vez por causa da falta de meios e da extensão geográfica deste espaço. Nós hoje, em 2026, olhamos para esta guerra que está atualmente a ocorrer e temos drones, temos imagens de satélite quase em tempo real, temos tudo e mais alguma coisa. Naquela época, não. Estamos a falar efetivamente de um espaço geográfico muito grande e de uma frota naval substancial, mas, para ser honesto, não assim tão grande. E com meios bastante pequenos.
Isso permite, melhor dizendo, um tráfico ilegal de muitos produtos, de especiarias e tudo mais, e nomeadamente de enxofre. Daí essa frase que foi citada, que é de uma câmara portuguesa, da Câmara de Chaul, que se queixa de que mais valia controlar-se o comércio ilegal do enxofre do que o da pimenta, porque era muito mais importante, em termos militares, o enxofre do que a pimenta.
O lado dos cavalos é muito interessante porque aí é uma questão realmente tributária. Quando os portugueses conquistam Goa, percebem que Goa é uma plataforma muito importante do comércio de cavalos para a península indiana. Isto quer dizer que grande parte das guerras dos sultanatos internos da Índia, que não tinham nada a ver com Portugal, não estavam em conflito direto com Portugal, utilizavam cavalos para as suas guerras, tal como se fazia na Europa.
O que os portugueses vão fazer é continuar a importar cavalos do Golfo — estamos a falar de cavalos persas e de cavalos árabes, que eram tidos como os melhores cavalos — para a Índia, e aí fazem uma revenda, digamos assim. Taxam essa entrada de cavalos pelo porto de Goa, que depois seguem para os mais diversos sultanatos da região.
Isso vai enriquecer a Coroa. A renda dos cavalos, aquilo que aparece na documentação como a renda dos cavalos, ou seja, aquilo que rendem, é algo bastante importante e bastante valioso para a Coroa portuguesa. Isto, realmente, porque os cavalos, por causa também das questões climáticas na Índia, não sobrevivem muito. Por causa da humidade e tudo mais, morrem com muita facilidade e também morrem nos combates, claro, nessas guerras internas.
De forma que os portugueses vão aproveitar-se disso. Do ponto de vista militar, o Golfo vai ser central por causa desses dois pontos, claro.
Portugal era soberano, ou foi durante mais de 100 anos, em Ormuz, mas não tinha o controlo do interior persa, obviamente. Mas falando de Ormuz: Ormuz era portuguesa, necessariamente, mas também era persa, também era árabe, também era indiana, islâmica, cristã, africana, até, se quisermos. Como é que devemos imaginar essa cidade no século XVI? Que línguas, que religiões, o que é que passava por ali, desse ponto de vista da multiculturalidade e dessa riqueza religiosa e social?
Todas estas cidades eram cidades muito diversas. Neste caso, nestas cidades portuárias, como Ormuz, havia uma mescla bastante considerável de nacionalidades e de religiões.
Em Ormuz não houve propriamente uma grande imposição do cristianismo, como houve noutros locais do Império Português da Ásia, como, por exemplo, logo à cabeça, Goa, onde houve um processo de conversão bastante forte. Isso permitiu que houvesse uma certa liberdade religiosa, que dava realmente uma grande diversidade a este porto.
Portanto, esta cidade, Ormuz, há 500 anos, deve ser pensada como uma cidade muito diversa, onde se falava uma verdadeira Babel linguística, porque havia mercadores de todos os lados, de todas as costas, porque Ormuz se ligava, em última análise, até aos portos do Sudeste Asiático e, mais além, até à costa da China.
Portanto, era efetivamente possível alguém, um mercador, estar ligado a esse comércio que, em última análise, chegava à costa da China. Havia uma intensa troca de produtos e, claro, estamos a falar também de questões culturais muito fortes.
Também havia uma comunidade muçulmana muito forte na China, por exemplo. Às vezes isso é esquecido, mas mesmo na cidade de Cantão, uma das maiores comunidades era uma comunidade muçulmana, mesmo ao tempo da chegada dos portugueses. O que mostra que não eram só trocas comerciais, simplesmente, pelas questões dos produtos, mas também trocas culturais muito fortes, que ligavam Ormuz a um pouco por todas as partes do espaço asiático, desde a costa oriental de África até aos mares da China.
A queda de Ormuz dá-se em 1622, mais de 100 anos depois, como falámos. E agora vou pôr uma moedinha na máquina do tempo e saltar para o século XXI. Hoje, quando há crise no Estreito de Ormuz, muitas vezes surgem, se calhar à laia de brincadeira, comparações com Afonso de Albuquerque, frases do género “ele resolvia isto”. As redes sociais também empolam muito os nossos Descobrimentos. Vocês, no “Falando de História”, neste episódio a que recorro várias vezes nesta conversa, desmontam essa tentação. O que é que há de historicamente errado nessa nostalgia imperial da internet e das redes sociais?
Percebo a facilidade com que as pessoas fazem estas comparações, só que são comparações bastante forçadas entre a presença portuguesa no século XVI e aquilo que está a acontecer hoje.
Não são só 500 anos de diferença, ou 400 anos de diferença se contarmos desde a queda de Ormuz. São questões sociais completamente diferentes. De maneira que Afonso de Albuquerque dificilmente faria alguma coisa contra a situação atual, porque são formas de pensar e de sentir a sociedade completamente diferentes.
Estes casos, hoje, podem servir-nos para fazer comparações de uma forma que nos permita compreender um pouco mais o passado, sobretudo na longa duração, perceber como é que chegámos até aos nossos dias, perceber padrões, sobretudo sociais, padrões religiosos. Mas mais do que isso é muito difícil. Servem para pouco mais do que isso.
Há uma expressão que diz precisamente que o passado é um país estranho. E é realmente um tempo bastante estranho, que eu duvido seriamente que compreendêssemos a sério, ou vice-versa.
Bem, obviamente, se tivéssemos uma máquina do tempo e voltássemos 400 anos atrás, a primeira coisa é que morreríamos imediatamente com qualquer doença a que hoje já não estamos habituados.
Mas, fora isso, a língua é diferente, a cultura é diferente, a forma como equacionamos as questões, mesmo as questões militares ou políticas, é muito diferente daquilo que Afonso de Albuquerque, ou depois quem pensava em 1622, quando Ormuz caiu, pensava.
A situação que está hoje a decorrer no Golfo é muito mais complexa do que simplesmente um bloqueio ao estreito. Temos de olhar para toda a situação do Médio Oriente — daquilo que se estipulou chamar Médio Oriente, porque na realidade isso também é um certo posicionamento político. Continuarmos a olhar para essa região chamando-lhe Médio Oriente: Médio face a quem e Oriente face a quem?
Claro que todas estas questões podem ser equacionadas de muitas formas, mas é preciso às vezes olhar um pouco mais além da espuma dos nossos dias para se conseguir perceber os fenómenos de uma perspetiva histórica.
Então, para terminar, se um ouvinte do “Fúria Épica” e do “Falando de História” sair desta conversa a pensar em Ormuz — e para que Ormuz não seja apenas uma nota de rodapé portuguesa —, que imagem é que gostavas que ficasse? Porque há imagens também bonitas: a ideia de uma ilha sem água, uma ilha de sal, que se torna uma fortaleza e uma alfândega enorme naquela região e no mundo. Que imagem é que importa guardar de Ormuz na história?
Eu diria uma imagem complexa, sempre. Tenho sempre esta ideia de que hoje tentamos simplificar ao máximo para explicar os fenómenos, mas, na realidade, o historiador gosta de complexificar, porque o passado é complexo nele próprio.
E Ormuz é efetivamente essa paisagem idílica, uma ilha sem água, que, como já dissemos antes, acaba por ser mais complexa do que simplesmente não termos água para beber. Mas há também uma fortaleza e há um passado à sua volta, e acaba por dar o nome a toda uma região.
Hoje, 400 anos depois da queda da Ormuz portuguesa, continuamos a falar de Ormuz e do Estreito de Ormuz, porque Ormuz não saiu do vocabulário. Isso mostra sobretudo a sobrevivência da sua história ao longo dos séculos. E, sobretudo, uma história riquíssima, que vai para além dos portugueses, começa muito antes dos portugueses e se estende para lá desta presença.
