Escravatura moderna: há 50 milhões de pessoas em trabalho e casamentos forçados

CNN , Rhea Mogul
12 set, 13:19
Trabalho forçado escravatura moderna Getty Images

Pandemia, guerra e crise climática agravam números da escravatura moderna.

Da pandemia até à crise climática, as catástrofes dos últimos cinco anos alteraram a vida quotidiana, e um novo relatório mostra que em muitos países a consequente incerteza económica empurrou milhões para a escravatura moderna.

Segundo um novo relatório publicado segunda-feira pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), Walk Free e Organização Internacional para as Migrações, estima-se que 50 milhões de pessoas em todo o mundo sejam vítimas de casamento forçado e trabalho forçado - mais 25% do que na última estimativa, de 2016.

A escravatura moderna refere-se ao trabalho forçado e ao casamento forçado, quando alguém não pode recusar-se a cumprir ou a fugir devido a ameaças, violência e engano. Para obterem os resultados, os investigadores conduziram uma série de inquéritos em mais de 180 países.

Segundo o relatório, a Covid-19, os conflitos armados, e a crise climática causaram “perturbações sem precedentes” no emprego e na educação, levando a um aumento da pobreza, migração insegura e violência baseada no género - todos riscos que conduzem à escravatura moderna.

Segundo o director-geral da OIT, Guy Ryder, “nada pode justificar a persistência deste abuso fundamental dos direitos humanos”.

“Sabemos o que precisa de ser feito e sabemos que pode ser feito. Políticas e regulamentações nacionais eficazes são fundamentais. Mas os governos não podem fazer isto sozinhos”, disse.

O relatório diz que melhores leis, proteções legais mais fortes e maior apoio às mulheres, raparigas e pessoas vulneráveis poderão reduzir significativamente a escravatura moderna ou um dia acabar com ela.

Trabalhadoras indianas caminham enquanto retiram folhas de chá numa plantação em Ghandigram, a 30 de Abril de 2019. STR/AFP/Getty Images

Mulheres e raparigas vulneráveis

Estima-se que 22 milhões de pessoas vivam num casamento em que tinham sido forçadas a estar, segundo o relatório - um aumento de 43% em relação aos números de 2016.

Mais de dois terços das pessoas forçadas a casar são mulheres e raparigas, segundo o relatório, o que as coloca em maior risco de exploração sexual e violência.

Mais pessoas na Ásia e no Pacífico estavam em casamentos forçados, mas quando se teve em conta a dimensão da população, os investigadores apuraram que o casamento forçado era mais prevalecente nos estados árabes.

A Covid-19 tem “exacerbado os fatores subjacentes a todas as formas de escravatura dos tempos modernos, incluindo o casamento forçado”, afirma o relatório.

Em alguns países, os confinamentos impediram os trabalhadores que trabalham ao dia de ganhar dinheiro, e com as escolas fechadas algumas famílias mandaram os seus filhos para o trabalho para ajudar a pôr comida na mesa.

A capital da Índia, Deli, viveu um dos mais longos encerramentos escolares do mundo devido à pandemia, forçando mais de quatro milhões de crianças a sair das salas de aula durante mais de 600 dias.

Segundo Shaheen Mistri, fundador da organização sem fins lucrativos Teach For India, cerca de 10% das crianças nas escolas governamentais da cidade abandonaram a educação devido à pandemia e ao seu impacto económico nas famílias mais pobres.

"O casamento infantil aumentou, a violência contra crianças aumentou e a nutrição é um problema enorme, uma vez que muitas das nossas crianças dependem das refeições escolares", disse Mistri à CNN em janeiro.

Mas os dados publicados no relatório de segunda-feira provavelmente não mostram o quadro completo.

“Como os dados refletem apenas parcialmente os efeitos da pandemia da Covid-19, as estimativas apresentadas neste relatório são suscetíveis de subestimar a magnitude total do impacto da pandemia”, afirmou.

As crianças e o trabalho forçado

O trabalho forçado aumentou 11%, para 28 milhões de pessoas desde 2016, de acordo com o relatório - e quase uma em cada oito são crianças, dando “especial urgência” à questão, afirma o relatório.

Mais de metade das crianças encontra-se em exploração sexual comercial, o que envolve crimes de tráfico onde a principal forma de trabalho forçado é nos serviços sexuais, acrescenta o relatório.

“Relatórios qualitativos indicam que as crianças podem ser sujeitas a formas graves de coerção e abuso, incluindo serem raptadas, drogadas, serem mantidas em cativeiro, enganadas e usadas em manipulação de dívidas”, afirma o relatório. “Alguns dos piores abusos ocorrem em situações de conflito armado”.

Cerca de 86% dos casos de trabalho forçado são encontrados em indústrias do sector privado, incluindo manufaturas, construção e agricultura, sendo a Ásia e o Pacífico o lar de mais de metade do total global, de acordo com o relatório.

A investigação revelou diferenças entre géneros no que diz respeito ao trabalho forçado, incluindo as indústrias que os empregam e a natureza da coerção.

As mulheres subjugadas a trabalho forçado são muito mais propensas do que os homens a realizar trabalho doméstico, enquanto os homens são propensos a estar no sector da construção, diz o relatório.

Enquanto que as mulheres são mais suscetíveis de serem coagidas ao trabalho forçado através de abuso e não pagamento, os homens são mais suscetíveis de receber ameaças violentas e sanções financeiras, acrescentou o relatório.

 

Foto no topo: Crianças trabalham nas zonas perigosas poluídas do depósito de lixo de Chittagong no Bangladesh, a 30 de maio de 2022. Mohammad Shajahan/Anadolu Agency/Getty Images

 

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