Trocam móveis por alimentos: “Eu não vou roubar para dar comer aos meus filhos. Prefiro passar por isto a roubar”

28 out, 07:00

A crise ainda se está a instalar e já há pessoas a trocar móveis por alimentos, "por necessidade, mesmo". No dia em que Marcelo Rebelo de Sousa reúne o Conselho de Estado para discutir a situação económica e social do país, conhecemos a história de Filipe e Ana Cristina, que aproveitam o que já não precisam ou que lhes dão, para trocar por arroz, massa, leite, fruta, legumes, pão. Quem está no terreno, reconhece que estivemos pior, ainda num tempo muito recente, mas alerta: "Vamos sofrer muito já a partir do início do próximo ano"

Apesar da vergonha, do constrangimento, do pudor, Filipe abre as portas de casa e o coração para contar a sua história à CNN Portugal: “Eu não vou roubar para dar comer aos meus filhos. Prefiro passar por isto a roubar!”.

“Isto” é trocar artigos de mobiliário e decoração e artigos para bebé por massa, arroz, leite, fruta, legumes, pão... Filipe, 50 anos, encarregado de armazém, pai de Leonor e Eduardo, gémeos de seis anos, assume que há muitas alturas do mês em que não tem comida para dar aos filhos.

“Para mim, vou tendo. Eu como qualquer coisa. Não passo fome. Umas salsichas, uma lata de atum e matei a fome. Mas os meus filhos não! Estão a crescer e têm outras necessidades”, admite.

Perante as dificuldades, Filipe olhou para o lado e viu o que era prescindível. Começou a usar as redes sociais para trocar aquilo que não lhe é essencial por bens alimentares e produtos de higiene para as crianças: “Faço essas trocas, porque o dinheiro não me chega para tudo”.

“Vejo o que faz falta para eles. Se as fraldas deles vão acabar, vou tentar trocar um carrinho de bebé, ou uma alcofa, por dois ou três pacotes de fraldas, por exemplo. Às vezes as pessoas não querem as trocas. Eu não as obrigo. Vêm cá trazer aquilo que eu preciso ou eu vou buscar e não querem levar o que tenho para trocar. E eu agradeço.”

Filipe troca móveis e outros artigos de que não precisa por alimentos.

Ana Cristina, 48 anos, revela maior timidez para mostrar o que vai dentro de portas. “Às vezes, digo-lhe ‘pára. Não faças mais’, porque sinto-me mal de as pessoas pensarem que estamos a dar tudo, que estamos a passar fome. Não estamos a passar fome. Mas queríamos ter uma vida melhor”, relata.

A história

Leonor e Eduardo brincam felizes, alheios às dificuldades. Sabem que não podem ter o que querem, mas a inocência da infância afasta as tristezas. “O rapaz gosta de batatas fritas. Às vezes, pede ‘pai, pata, pata’, que ele não sabe falar bem por causa dos problemas dele. Mas eu não lhe posso dar. E isso custa!”, relata emocionado.

Eduardo tem trissomia 21 e vários problemas respiratórios. É uma criança com necessidades educativas especiais e precisa de terapias. E isso é um peso acrescido para a família. “Só tem terapia da fala uma vez por semana. Já me disseram que não chega, que o ideal seria duas vezes por semana. E eu não tenho dinheiro para pagar no privado”, revela, com a voz embargada.

A situação económica da família agravou-se depois de Ana Cristina ter deixado de trabalhar por causa dos problemas de saúde que a atormentam. Ficou o salário de Filipe para pagar a prestação da casa, as despesas domésticas básicas, a medicação e a alimentação. O abono das crianças e o complemento de deficiência de Eduardo vão ajudando a tapar buracos.

“Não chega. Já me faltou o gás. O outro dia, não tinha dinheiro para meter gasóleo e o meu patrão desenrascou-me. Mas lá está: quando recebi o salário, acertou, claro! E depois a roda começou a andar outra vez e o mês já começou coxo”, conta.

“O outro dia, estava ali só um pacote de leite. Olhei para ele e apetecia-me, mas não bebi. Fui beber duas canecas de café e deixei o leite para eles”, acrescenta.

Filipe ganhou coragem e contou a sua história no programa da TVI "Dois às 10". Não se arrepende, porque conseguiu "muitas ajudas", incluindo financeiras, que está "a pôr numa conta de lado, para fazer obras que preciso aqui em casa e arranjar um quartinho para o Eduardo" 

Outros Filipes e Anas Cristinas

A história de Filipe e Ana repete-se nas redes sociais. Não é preciso procurar muito para encontrar publicações em grupos do Facebook com o objetivo de trocar outros bens por alimentos. A Liliana troca roupa e brinquedos por alimentos, a Sónia dá sapatos usados a quem lhe der bens alimentares “a combinar”. A Sofia troca um uma arca de madeira por “2kg de esparguete, 5 latas de atum, 3 grão, 2 feijão preto, marca branca”. A Isabel troca um cadeirão por três pacotes de massa espiral e três quilos de esparguete.

Inês Assunção é administradora de um grupo de trocas no Facebook. Criou-o por uma questão se sustentabilidade. Para incentivar a que cada membro do grupo passe adiante o que já não lhe faz falta em troca daquilo que precisa. Mas assegura que, nos últimos meses, o grupo tomou outro rumo.

“No início, a ideia era mais a sustentabilidade. Fazermos trocas por haver excesso de produtos de que não tínhamos necessidade. Hoje em dia, tem a ver com a falta de dinheiro, de alimentos. As pessoas precisam de trocar por necessidade mesmo”, relata.

Exemplo de uma publicação no Facebook em que se propõe a troca de um móvel por alimentos. Clique na imagem para ver mais exemplos.

A voluntária admite que há exageros, mas reforça os exemplos que provam que o paradigma já está a mudar: “Ultimamente, vemos até artigos a serem trocados novos ou de maior valor, por coisas simples como latas de salsichas ou atum. Por isso acredito mesmo que estamos a ficar com estado de pobreza sério.”

Os números

Inês assegura que o cenário se tem vindo a agravar nos últimos meses, sobretudo depois de os preços começarem a aumentar por causa da guerra na Ucrânia. Mas, se olhamos para os números do Observatório Nacional da Luta Contra a Pobreza, ainda relativos a 2021, constatamos que já antes da guerra havia um agravamento dos indicadores de pobreza em Portugal:

“O aumento da vulnerabilidade regista-se em todos os indicadores analisados (pobreza monetária, intensidade laboral e privação material e social severa), ainda que com uma intensidade distinta entre diferentes grupos.”

De acordo com o relatório, as mulheres continuam a ser mais afetadas do que os homens. Os idosos mais vulneráveis do que os mais jovens. A população estrangeira também registou um aumento de vulnerabilidade social e económica.

Os dados do Observatório são corroborados pelos da Pordata, que apontam para  que quase metade da população portuguesa é pobre. O último valor calculado pela Pordata é referente a 2020 e situa-se nos 6653 euros por ano e veio mostrar que a vulnerabilidade social e económica atinge também cada vez mais jovens.

"Eu diria que neste momento, tirando as pessoas idosas que deram carreiras contributivas e relativamente curtas, e cujas pensões são muito baixas, temos aqui um pequeno grupo de pessoas mais jovens com filhos cujo rendimento chega a casa e dividem por todos", dizia à CNN Portugal Luísa Loura, diretora da Pordata, a 17 de outubro, a propósito do relatório sobre a pobreza em Portugal.

E o que aí vem?

Mas, se olharmos para os indicadores económicos, vemos, por exemplo, que a inflação disparou e as taxas de juro ameaçam sufocar quem está a pagar casa ao banco. Contudo, há indicadores importantes, como o desemprego, que se mostram ainda numa situação muito mais favorável do que aquilo que se viveu em outras crises recentes, como a que obrigou à intervenção da Troika, em 2011, ou a crise de 2008.

Isso leva a quem está no terreno, na ajuda aos mais necessitados, a temer o pior. “Custa-me um bocado que se comece já a alarmar tanto as pessoas. Vamos sofrer muito já a partir do início do próximo ano, com o aumento das taxas de juro, por exemplo. A inflação dos produtos mais básicos aumentou. Mas eu creio que haverá aqui também alguma ansiedade. O consumidor é muito influenciável e poderá haver aqui algum fenómeno de contaminação de ansiedade”, diz Isabel Jonet, coordenadora do Banco Alimentar Contra a Fome.

Isabel Jonet reconhece que os pedidos têm aumentado, mas que ainda se está longe dos números de 2020, em pleno início da pandemia, por exemplo.

“Não tem sequer comparação. Na pandemia, as pessoas ficaram sem dinheiro, porque ficaram sem trabalho ou em lay off. A inflação tem sido gradual e as pessoas vão-se adaptando. Bens que habitualmente consumiam, agora não consomem. Quase não consomem vaca, consomem pouco porco e peixe fresco é cada vez menos. Mas este cenário de troca de produtos por alimentos que me descreve, salvaguardando os casos de necessidade extrema (que os há, evidentemente), serão muito fruto dessa contaminação por ansiedade e por medo”, compara.

Filipe tem consciência que a situação pode piorar, mas nem quer pensar nisso. Sabe que a prestação da casa que paga religiosamente ao banco no dia em que recebe pode aumentar e teme que o salário que já agora não chega possa ser ainda mais curto.

“Até agora, o banco não me disse nada. A prestação é de 270 qualquer coisa. Quando recebo, a primeira coisa que faço é pagar 300 euros ao banco, para eles não me chatearem. Depois, giro o que sobra. Mas dificilmente sobra.”

Mas, quando o banco lhe aumentar a prestação da casa, uma certeza ele tem: “Roubar não vou. Tenho de me desenrascar.”

 

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