Milhares de portugueses passam frio e calor dentro das próprias casas. É um risco para "as pessoas idosas, as pessoas com doenças crónicas e as crianças"
Vem aí o inverno e mais de um milhão de pessoas vai passar frio em casa. Quando chega o verão, a mesma realidade afeta mais de dois milhões de pessoas, que vivem em habitações desadequadas para aquela altura. Os dados são da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), que prevê uma situação de desconforto térmico para grande parte dos portugueses ainda em 2030.
Por essa altura cerca de 10% dos agregados ainda vão viver "sem capacidade para manter a casa adequadamente aquecida", enquanto 20% dos agregados vão estar a viver em "habitações não confortavelmente frescas durante o verão". Uma realidade que deve diminuir para 5% e 10% em 2040 e para menos de 1% e menos de 5% em 2050.
O presidente do Colégio da Especialidade de Saúde Pública da Ordem dos Médicos diz à CNN Portugal que ter uma casa mal preparada para responder às variações de temperatura, cada vez mais intensas devido às alterações climáticas, é um risco, principalmente para “as pessoas idosas, as pessoas com doenças crónicas e as crianças”.
A exposição a estas condições obriga o corpo a fazer um esforço adicional para manter o equilíbrio interno, o que agrava doenças respiratórias e cardíacas. Segundo Luís Cadinha, “tanto o frio como o calor provocam um desajuste e depois o corpo tem de se esforçar mais para manter a sua homeostase”, que é a capacidade de um organismo manter um ambiente interno estável e constante, apesar das mudanças no ambiente externo.
Se tem uma casa quente, em que as temperaturas atingem os 26/27 graus, os riscos estendem-se ainda à desidratação, especialmente entre os idosos, que “não têm um reflexo de sede tão ativo como as pessoas mais novas” e acabam por desidratar com mais facilidade, o que pode conduzir a episódios de confusão mental e a uma queda geral da capacidade de resposta do organismo.
Além disso, as condições habitacionais influenciam a recuperação de doenças. Se vive num ambiente constantemente frio, em que a temperatura alcança valores abaixo dos 18/20 graus, isso “vai fazer com que seja mais difícil recuperar de uma doença infecciosa”, já que o sistema imunitário fica fragilizado. Se é doente crónico, o impacto é ainda maior, pois a pobreza energética contribui para manter ou agravar a sua condição.
Poupar a saúde e a carteira
A pobreza energética não afeta apenas a saúde física, mas também a saúde financeira. Como refere Luís Cadinha, “não são só as consequências diretas na saúde, é toda a envolvente da situação económica que a pobreza energética acarreta”. Famílias que vivem em casas sem isolamento adequado acabam por gastar mais recursos em equipamentos de aquecimento ou arrefecimento.
Para controlar as temperaturas extremas pode recorrer a equipamentos para amenizar a sua casa, mas o mais adequado “depende de habitação para habitação, do tipo de estrutura de paredes, das caixilharias das janelas”. Se estivermos a falar de frio deve certificar-se que o equipamento não é prejudicial para a saúde: “Tem de ser seguro, não produzir gases ou fumos e conseguir aquecer uniformemente uma divisão”, avisa o médico.
No caso do calor, é preciso ter em conta que os dispositivos de arrefecimento vão trazer uma maior despesa para o agregado familiar. O ar condicionado é capaz de controlar a temperatura de forma mais rigorosa, tanto no verão como no inverno, mas significa um peso maior na fatura da luz. Por outro lado, um ventilador, que apenas faz circular o ar, é uma opção mais económica e ideal para espaços mais pequenos em que o conforto térmico pode ser alcançado com o movimento do ar.
Islene Façanha, da Associação Zero, dá ainda algumas medidas que não custam nada e ajudam muito. No inverno, beber um chá, vestir roupa quente e confortável, utilizar meias grossas e cobrir-se com mantas. A especialista em alterações climáticas alerta que “ter um quarto muito quente também não faz bem à saúde”. Já no verão, pode ajudar deixar as janelas e os estores fechados durante o dia e abri-los apenas ao fim do dia, ter cortinas claras e lençóis mais frescos (como os de algodão) e se possível evitar cozinhar nas horas de mais calor “porque cria um efeito de estufa dentro da própria casa”.
“Se Portugal não fosse um país com uma pobreza energética tão acentuada como é, teríamos menos casos de doença devido a temperaturas extremas”, reconhece Luís Cadinha.
Perante os riscos da pobreza energética para a saúde, o Governo anunciou novos apoios à eficiência energética das habitações, através dos Programas E-Lar e Bairros + Sustentáveis, no valor de 100 milhões de euros.
O Programa E-Lar, com 40 milhões de euros, financia a substituição de equipamentos a gás por aparelhos elétricos de classe A ou superior. Segundo a ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, “o objetivo é efetivamente converter estes 40 milhões de euros em eletrodomésticos muito mais eficientes para todas as famílias”. O apoio pode chegar a 1.683 euros para pessoas vulneráveis e a 1.000 e a 100 euros nos restantes casos, sendo o pagamento feito diretamente pela Agência para o Clima ao fornecedor.
Já o Programa Bairros + Sustentáveis, com 60 milhões de euros, destina-se à reabilitação energética de 3.500 frações residenciais em bairros municipais e zonas de reabilitação urbana de Lisboa e Porto. A ministra explicou que “estimamos que a verba disponível permita a intervenção em, pelo menos, 3.500 frações residenciais”, com apoios até 15 mil euros por habitação para obras como isolamento térmico, janelas eficientes, bombas de calor ou painéis solares.
Estes programas são financiados em 90 milhões de euros pelo PRR e em 10 milhões pelo Fundo Ambiental.