PNV erradicou surtos, esvaziou enfermarias e mudou a saúde infantil
A ex-diretora-geral da Saúde Graça Freitas defendeu o combate à desinformação sobre a vacinação, lembrando que se espalha de forma viral e esconde a importância das vacinas, que se “tornaram vítimas do próprio sucesso” ao erradicarem doenças letais.
Em entrevista à Lusa por ocasião dos 60 anos do Programa Nacional de Vacinação (PNV), que se comemora no sábado, Graça Freitas disse encarar com “bastante preocupação” o crescente discurso antivacinas, inclusive por responsáveis políticos, como o presidente norte-americano, Donald Trump.
Fazendo uma analogia com os vírus, a especialista em Saúde Pública afirmou que “há uma espécie de um contágio relacionado com a má informação, com a desinformação, com a criação de medos e de mitos que não são de facto verdadeiros, não são sustentados na ciência”.
No seu entender, a “única forma” de contrariar estes movimentos “é provar com transparência, com clareza, em diálogo constante com a sociedade, a vantagem das vacinas (…) que são vítimas do seu próprio sucesso”.
“No momento em que deixamos de ter as doenças, também não há perceção do risco que elas constituem”, disse, lembrando doenças mortais como a difteria, cujo último caso ocorreu há mais de 30 anos em Portugal e no qual Graça Freitas trabalhou.
A médica, responsável pelo PNV desde que ingressou na Direção-Geral da Saúde em 1996, reconheceu ser difícil as pessoas perspetivarem que estão a vacinar-se contra doenças erradicadas no país, mas salientou que é fundamental estarem cientes de que essas patologias que podem voltar a surgir.
“A vacinação é como alguém que tem miopia e usa óculos. Quando pomos os óculos, estamos bem. Se os tirarmos, estamos desprotegidos, não vemos. Com as vacinas é a mesma coisa”, ilustrou.
Reforçou que as vacinas devem ser mantidas e atualizadas, e as gerações seguintes devem vacinar-se para garantir proteção de grupo: “Esta é uma das belezas da vacinação”, comentou.
"É um orgulho estar num país que aceita, adere e tem confiança na sua vacinação e faz parte deste projeto que ultrapassa os serviços de saúde. É um projeto da sociedade para o bem da sociedade", admitiu.
Mas, insistiu: “Para discutirmos este assunto temos de ter capacidade de comunicar, de informar e de ser completamente transparentes em relação aos resultados da vacinação, comparando o que foi a era antes da vacinação com a era da vacinação”.
Para Graça Freitas, combater a desinformação passa também por reconhecer que “as pessoas têm medos e receios” e que “há mitos” e questões religiosas e filosóficas que exigem “um esforço bem feito por parte das autoridades de saúde e da sociedade” para garantir a continuação da vacinação.
Graças Freitas comparou a vacinação ao acesso à água potável: “Não creio que ninguém estivesse disponível para abrir uma torneira e não ter água potável e adoecer por isso”.
Enfatizou ainda que a vacinação representa “uma vantagem enorme” para a saúde individual, para a saúde pública, e para o progresso de um país” e, avisou, não se pode “andar para trás”.
Programa Nacional de Vacinação protegeu logo no primeiro ano milhares de crianças
Portugal passou de um cenário dramático de doenças infecciosas a um dos países com menor mortalidade infantil no mundo, graças ao Programa Nacional de Vacinação, que só no primeiro ano permitiu proteger milhares de crianças da paralisia infantil.
A história do Programa Nacional de Vacinação, que celebra 60 anos no sábado, foi recordada em entrevista à Lusa pela antiga diretora-geral da Saúde Graça Freitas, que assumiu a responsabilidade do PNV quando entrou para a Direção-Geral da Saúde, em 1996, como chefe da Divisão de Doenças Transmissíveis.
“As vacinas foram de facto uma descoberta extraordinária para a humanidade”, disse a especialista de Saúde Pública, sublinhando que, depois do fornecimento de água potável, terão sido as vacinas que mais contribuíram para criar “saúde para todos e prevenir muitas doenças”.
Recordou que, em 1965, um grupo de profissionais de saúde, sobretudo médicos, “percebeu que o estado da saúde em Portugal relacionado com doenças infecciosas [como a poliomielite] era desprimoroso em relação aos outros países da Europa”, numa altura que já havia vacinas para algumas dessas doenças.
A mortalidade infantil era muito elevada e havia doenças graves, sobretudo na infância, e o grupo de profissionais decidiu criar um programa nacional de vacinação.
Entre os pioneiros do PNV, destaca-se Maria Luísa Van Zeller, a primeira mulher diretora-geral da Saúde, “uma política e uma defensora da saúde materno-infantil muito importante”, que contou com o apoio de médicos como Arnaldo Sampaio.
“Foram muito inteligentes, esses pioneiros, porque estudaram profundamente como é que podiam fazer um programa acessível para todos, porque já se davam vacinas, sobretudo nos consultórios, mas como eles diziam, não chegava à população toda da cidade e dos campos”, contou.
O programa foi concebido com uma visão de saúde pública, pretendendo dar imunidade individual e coletiva.
Contudo, os problemas socioeconómicos da época e a escassez de médicos representavam um desafio. Como resposta, foi criado um esquema vacinal prescrito pela DGS, que permitia que as pessoas fossem vacinadas por enfermeiras.
“Foi uma coisa muito à frente e muito evoluída e permitiu o acesso à vacinação gratuita e universal”, enalteceu Graça Freitas.
O programa começou com seis vacinas, entre as quais a da poliomielite para a paralisia infantil e a vacina contra a varíola, que eram “doenças terríveis que matavam muita gente”.
Logo em 1965 fizeram “uma campanha brutal de vacinação” e num ano conseguiram administrar mais de três milhões de doses de vacinas contra a poliomielite a crianças até aos nove anos em Portugal, sendo o início do “grande sucesso” do PNV.
“Foi um programa que nasceu muito bem (…) e permitiu que as pessoas vissem no espaço de um ano desaparecer a poliomielite em Portugal”, realçou.
Para a médica, foi “um exercício extraordinário” de juntar a ciência com a comunicação, com a formação, o acesso à aceitação da vacinação, que culminou com a adesão à vacinação que se manteve até aos dias de hoje, com mais de 98% das crianças vacinadas no primeiro ano de vida.
“Hoje, os pais que vão vacinar os filhos foram já todos vacinados. Há uma continuidade e uma participação social na vacinação que é de relevar”, frisou.
A melhoria refletiu-se em todos os indicadores de saúde. “Na década de 60 a esperança média de vida era de 60 anos. Hoje ultrapassa os 80”, o que se deve também à vacinação, que eliminou doenças, reduziu mortalidade e internamentos e evitou sofrimento e sequelas.
Segundo dados do INE, em 1960, Portugal registava uma taxa de mortalidade infantil de mais 76 óbitos por cada mil nados-vivos, um valor que desceu para cerca de três em 2024.
Programa Nacional de Vacinação erradicou surtos, esvaziou enfermarias e mudou a saúde infantil
O Programa Nacional de Vacinação (PNV), criado há 60 anos, erradicou surtos de doenças como o sarampo, esvaziou enfermarias antigamente cheias de crianças com meningite e outras infeções graves e mudou o retrato da saúde infantil em Portugal.
O PNV, que faz 60 anos no sábado, foi determinante para a diminuição da taxa da mortalidade infantil, que foi de 2,98 óbitos por mil nados-vivos em 2024, quando em 1960 era de 76.
“É inegável o sucesso do nosso programa de vacinação”, afirmou em entrevista à Lusa o pediatra Gonçalo Cordeiro Ferreira, antigo diretor de Pediatria no Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, onde trabalhou várias décadas, até se reformar em 2023, e assistiu à evolução do programa e ao seu impacto na saúde infantil.
Quando iniciou o internato no Hospital D. Estefânia, em 1985, o cenário nos hospitais era bem diferente.
“Lembro-me de ir às enfermarias de doenças infetocontagiosas e estavam cheias de crianças com meningites”, algumas com desfechos fatais e outras que ficavam com sequelas para toda a vida.
Na altura, o PNV não era “um programa vasto”, mas incluía a maioria das vacinas fundamentais para prevenir “doenças gravíssimas” como o tétano, a difteria, a poliomielite.
O médico relatou que a vacina do sarampo era dada na altura após o primeiro ano de vida, por vezes aos 15 meses ou mais tarde, o que poderá ter contribuído para uma menor adesão à vacinação.
Recordou que, no início do seu internato, ocorreu “uma enorme epidemia de sarampo, com imensos internamentos e alguma mortalidade”, o que levou ao lançamento de uma campanha de vacinação.
A campanha foi eficaz, mas cinco anos depois surgiu uma nova epidemia, embora menos grave do que a primeira. Só depois dessas duas “grandes epidemias” é que as pessoas começaram a vacinar-se sistematicamente e o sarampo foi praticamente erradicado em Portugal.
Apesar da elevada cobertura vacinal, Portugal tem registado casos importados de sarampo, pelo que a vigilância não pode abrandar: “O sarampo é muito perigoso, porque basta um pequeno descuido” para o vírus se espalhar rapidamente, alertou.
Para Gonçalo Cordeiro Ferreira, a introdução da vacina combinada do sarampo, papeira e rubéola foi “um passo em frente” na vacinação, seguida por outros marcos importantes que salvaram milhares de vidas.
Entre eles, destacou a progressiva inclusão de vacinas contra as várias formas de meningite bacteriana, que começou pela Haemophilus influenzae tipo b, depois o pneumococo e mais tarde os meningococos C e B.
Apontou também como “uma grande evolução” a vacina contra a hepatite B, lembrando que, quando começou a trabalhar em gastroenterologia pediátrica, havia muitos casos desta doença, sobretudo por transmissão da mãe para o bebé ao nascer.
“A vacina atual, que já é uma vacina de engenharia molecular, é fantástica, segura e eliminou praticamente a hepatite B em Portugal, na Europa, nos Estados Unidos e muito também na Ásia e em África”, sublinhou.
Destacou ainda a importância da vacinação gratuita contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), que desde o ano passado “modificou totalmente” o número e a gravidade dos internamentos, mas defendeu que deveria ser alargada a todas as crianças com menos de um ano.
Sobre vacinas que deviam ser incluídas no programa, Gonçalo Cordeiro Ferreira apontou a da hepatite A, sublinhando que já é comparticipada, pelo que bastava “um pequeno esforço” para ser incluída.
Também a vacina da varicela poderia ser incluída porque, apesar de ser “uma doença relativamente benigna”, pode ter complicações sérias e obriga a criança a ficar em casa uma semana, o que tem impacto na vida das famílias.
O pediatra reconheceu, contudo, que Portugal é “um país limitado em termos financeiros”: “Temos de escolher o que é melhor na relação entre gastos e vantagens e, portanto, também se compreende que não podemos ter tudo ao mesmo tempo, mas para lá caminhamos”.
Apesar de todo o progresso alcançado, o pediatra afirmou que ainda há muito para fazer, pois muitas destas bactérias continuam a evoluir e escapam às vacinas.
“É uma luta constante (…), mas é uma luta que vale a pena”, frisou.
Salientou que há doenças para as quais são urgentes vacinas, como o VIH - “talvez a mais importante” -, a malária, que seria “um bem para toda a humanidade”, e a hepatite C, que continua a ser “um foco de infeção crónica hepática, apesar de haver tratamentos”.
Para Gonçalo Cordeiro Ferreira, “o grande progresso” na saúde infantil resultou de dois fatores essenciais: “A melhoria das condições de higiene - águas canalizadas, saneamento, melhores estradas e melhores condições de habitação - e as vacinas que, mais até do que os antibióticos, revolucionaram de facto as doenças infecciosas”.
