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Pneumologistas alertam para casos de doença respiratória grave causada por cigarro eletrónico

Agência Lusa , PP
30 mai, 08:30
Cigarros eletrónicos (Associated Press)

Especialista explica que é uma doença caracterizada por dificuldade respiratória aguda com necessidade de hospitalização, inclusivamente nos cuidados intensivos com ventilação mecânica

A Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) alertou hoje que já foram registados em Portugal vários casos de doença respiratória aguda grave causada pelo uso de cigarros eletrónicos, que obriga a internamento e pode levar à morte.

“Já estamos a assistir a casos clínicos muito graves” de Lesão Pulmonar Associada ao Uso de Cigarro Eletrónico, conhecida como EVALI, disse a coordenadora da Comissão de Tabagismo da SPP, Sofia Ravara, que falava à agência Lusa a propósito do Dia Mundial Sem Tabaco, que se assinala na sexta-feira.

Segundo a especialista, é uma doença caracterizada por dificuldade respiratória aguda com necessidade de hospitalização, inclusivamente nos cuidados intensivos com ventilação mecânica.

Em 2019, o Centro de Controle e Prevenção de Doença dos Estados Unidos reportou uma epidemia de EVALI, informando que até fevereiro de 2020 tinham sido hospitalizadas 2.807 pessoas (80% jovens), das quais 68 morreram e algumas tiveram necessidade de transplante pulmonar.

Devido à pandemia de covid-19, a monitorização dos casos de Evali foi interrompida nos EUA, mas continuam a ser relatados casos neste país e na Europa.

“Os pneumologistas europeus têm um grupo de trabalho em que têm reportado diversos casos de doença respiratória aguda muito grave em pessoas muito jovens [utilizadores de cigarros eletrónicos] que não têm outros fatores de riscos para doença respiratória e não eram fumadores”, salientou a especialista.

Pneumologistas portugueses também identificaram vários casos, tendo inclusivamente sido relatado no ano passado, no Congresso da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, um caso “muito grave” de um jovem que foi internado no hospital de Castelo Branco.

“E existem casos dispersos que até poderão não estar diagnosticados e terem sido rotulados como pneumonia, porque não existe um registo de casos sistematizado, como aconteceu nos EUA, e porque alguns profissionais de saúde podem não estar tão alerta” para estas situações, explicou.

Para Sofia Ravara, os especialistas deviam questionar quando um doente é internado por dificuldade respiratória grave, com necessidade de oxigenoterapia ou outra intervenção mecânica, sobre o seu comportamento tabágico e se utilizam os novos produtos do tabaco, nomeadamente cigarros eletrónicos.

A pneumologista adiantou que os especialistas também já estão a tratar pessoas que usam tabaco aquecido e “começam a adoecer na idade entre os 40 e 50 anos com doença cardíaca (enfartes, AVC), e também com um síndrome de queixas respiratórias recorrentes e dificuldade respiratória”.

Diversos estudos indicam que os cigarros eletrónicos podem causar sintomas e doença respiratória em adolescentes e jovens como asma, bronquite, pneumonia, inflamação e irritação do trato respiratório com sintomas recorrentes de tosse, aperto torácico e falta de ar, dificuldade respiratória aguda, bem como elevar a pressão arterial e a frequência cardíaca.

O inquérito nacional escolar de 2019 mostra que o consumo de tabaco nos mais jovens (13-18 anos) diminuiu entre ambos os sexos, comparativamente aos dados de 2015, mas a experimentação e uso dos novos produtos (cigarros eletrónicos, sisha e tabaco aquecido) está a tornar-se mais significativa.

Esta tendência foi reforçada no inquérito nacional escolar de 2022 (SICAD, 2023, dados preliminares), mostrando um aumento no consumo dos produtos de tabaco e nicotina nos jovens à custa da sua experimentação.

Relativamente à iniciação do consumo, em 2019, 38,4% dos alunos do ensino público, disseram já ter experimentado fumar ou vapear. A experimentação foi mais alta nas raparigas (40,7%), do que nos rapazes (36,3%).

É preciso proteger os jovens das “táticas predatórias” da indústria do tabaco

A Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) alertou também para a necessidade de proteger as crianças e jovens das “táticas predatórias” da indústria do tabaco, travando a comercialização dos novos produtos, cujo consumo aumentou exponencialmente em todo o mundo.

Os pneumologistas alertam igualmente numa campanha da SPP para “o ‘marketing’ enganoso e perverso da indústria nas plataformas digitais e redes sociais, sobretudo dirigido para as crianças e adolescentes”, sublinhando que “há uma rede de ‘influencers’ digitais pagos pela indústria para promover expressamente os seus produtos”.

“O próprio ‘design’ e desenvolvimento dos produtos, os sabores, os aromas que são incorporados, como sabor a pastilha elástica, a morango, a baunilha, atraem muito os jovens e as crianças”, disse a coordenadora da Comissão de Tabagismo da SPP, Sofia Ravara.

A pneumologista realçou que o consumo destes produtos “aumentou exponencialmente” em todo o mundo, nos jovens, nas crianças e nos adolescentes, e “fez disparar o consumo de tabaco” em alguns países onde se estava a assistir a uma diminuição continuada.

Apontou como razões para este facto, os novos produtos (tabaco aquecido, ‘shisha’, ‘vapes’) normalizarem o tabagismo, observando que as crianças e os adolescentes ao experimentarem, por exemplo, os cigarros eletrónicos, “têm até três vezes mais probabilidade de experimentarem tabaco e até outras substâncias aditivas como a canábis”.

Perante esta realidade, a Organização Mundial da Saúde (OMS) “pediu muito para a sociedade civil se organizar e os governos darem mais apoio a campanhas de sensibilização e educação sobre as táticas enganosas da indústria, não só para os adultos, mas sobretudo para mobilizar a os jovens”.

Sofia Ravara defendeu ser “muito importante” sensibilizar os jovens para que percebam que são “a vítima ou o isco preferencial da indústria, que precisa de repor novos fumadores - uma vez que os fumadores mais velhos morrem antes do tempo - e para que sintam que é importante prevenir o tabagismo e expor as táticas da indústria”.

Segundo a especialista, não é preciso esperar muito tempo para as pessoas começarem a adoecer com estes produtos, adiantando que se está a assistir a casos clínicos muito graves de doença respiratória aguda pela utilização do cigarro eletrónico e de pneumonias inflamatórias devido ao tabaco aquecido.

“Sabe-se que a nicotina prejudica muito o desenvolvimento cognitivo e o desenvolvimento cerebral na criança e no adolescente, o que é “uma preocupação grande”, afirmou, realçando que são produtos “altamente aditivos” e causam danos desnecessários à saúde.

Contudo, vincou, “há tratamento seguro, eficaz, para tratar” a adição à nicotina, apelando aos utilizadores para falarem com um profissional de saúde para os ajudar a deixar de fumar.

Segundo Sofia Ravara, 96% dos fumadores portugueses, independentemente do sexo, têm uma motivação baixa para deixar de fumar, o que atribuiu a Portugal ser “muito pouco proativo” a implementar as políticas públicas de controlo do tabagismo da Convenção Quadro da OMS.

“Mesmo no papel, as leis aprovadas têm falhas, não seguem as ‘guidelines’ e as recomendações da Convenção Quadro e isto tudo por interferência da indústria, que prejudica a implementação das políticas fazendo lobby junto dos setores políticos e dos governos e alterando as leis”, criticou, lamentando que Portugal esteja na cauda da Europa relativamente à prevenção e controlo do tabagismo.

 

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