Plásticos comuns que todos temos em casa estão ligados a milhares de mortes em todo o mundo por doenças cardíacas

CNN , Sandee LaMotte
22 jun 2025, 16:00
Plásticos

Os produtos químicos sintéticos chamados ftalatos, encontrados em produtos de consumo como embalagens para armazenamento de alimentos, champôs, produtos de maquilhagem, perfumes e brinquedos infantis, podem ter contribuído para mais de 10% de toda a mortalidade global por doenças cardíacas em 2018 entre homens e mulheres de 55 a 64 anos, revela agora um novo estudo.

“Os ftalatos contribuem para a inflamação e inflamação sistémica nas artérias coronárias, o que pode acelerar doenças existentes e levar a eventos agudos, incluindo a morte”, começa por dizer o médico Leonardo Trasande, professor de pediatria e saúde populacional na Escola de Medicina Grossman da Universidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos, e um dos autores séniores desta nova investigação. Trasande também é diretor da Divisão de Pediatria Ambiental e do Centro de Investigação de Perigos Ambientais da Universidade de Nova Iorque Langone.

“Os ftalatos são conhecidos por interferirem na testosterona”, continua Trasande, acrescentando que, nos homens, “a baixa testosterona é um preditor de doenças cardiovasculares na vida adulta”.

Outros estudos anteriormente feitos já tinham relacionado os ftalatos a problemas reprodutivos, como malformações genitais e testículos não descidos em bebés do sexo masculino e contagens de esperma e níveis de testosterona mais baixos em homens adultos. Há ainda estudos que também associam os ftalatos à asma, obesidade infantil e cancro.

“O novo estudo ressalta o enorme potencial de impactos à saúde e à economia decorrentes da exposição ao DEHP [ftalato de di(2- etilhexil)], o que está alinhado com as preocupações existentes sobre os seus riscos”, esclarece numa resposta enviada por escrito David Andrews, diretor científico interino do Environmental Working Group, uma organização de consumidores que monitoriza a exposição a ftalatos e outros produtos químicos em plásticos. Andrews não participou neste estudo.

O Conselho Americano de Química, que representa a indústria, recusou comentar o estudo, mas disse à CNN também por e-mail que o Painel de Ftalatos de Alto Peso Molecular da organização é dedicado a promover os benefícios de ftalatos como o DINP (ftalato de diisononilo) e o DIDP (ftalato de diisodecil).

Exposição aos ftalatos e os verdadeiros riscos

Frequentemente chamados de “produtos químicos onipresentes” por serem tão comuns, os ftalatos são adicionados a produtos de consumo como tubos de PVC (polímero vinílico), pisos vinílicos, produtos resistentes à água e manchas, tubos médicos, mangueiras de jardim e alguns brinquedos infantis para tornar o plástico mais flexível e mais difícil de dobrar.

Outras exposições comuns vêm do uso de ftalatos em embalagens de alimentos, detergentes, roupas, móveis e plásticos para veículos automóveis. Os ftalatos também são adicionados a itens de higiene pessoal como champôs, sabonetes, sprays de cabelo e cosméticos para fazer com que as fragrâncias durem mais tempo.

As pessoas são expostas a ftalatos quando respiram ar contaminado ou comem ou bebem alimentos que entraram em contacto com o plástico, de acordo com os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC).

Um estudo global

O novo estudo, publicado recentemente na revista eBiomedicine, examinou o impacto de um ftalato - o Di(2-etilhexil)ftalato, ou DEHP - nas mortes globais em 200 países e territórios.

Os cientistas analisaram dados de saúde e ambientais de dezenas de pesquisas populacionais, que incluíram amostras de urina que continham produtos de degradação química deixados pelo DEHP, que é conhecido por estar relacionado a doenças cardiovasculares, adianta Trasande.

O Di(2-etilhexil) ftalato também já foi relacionado a defeitos congénitos, casos de cancro e danos no sistema reprodutor em homens, de acordo com a Proposição 65 da Califórnia, uma lei que exige que empresas coloquem avisos nos produtos de modo a informar os consumidores sobre os possíveis efeitos à saúde dos produtos químicos.

Os cientistas compararam a exposição com estatísticas de morte obtidas pelo Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde, um grupo de pesquisa dos EUA que recolhe informações médicas globais.

A análise descobriu que a exposição ao DEHP contribuiu para 356.238 mortes em 2018 entre homens e mulheres de 55 a 64 anos em todo o mundo. Só África representou 30% das mortes por doenças cardíacas ligadas ao DEHP, enquanto o Leste Asiático e o Médio Oriente representaram 25% da mortalidade, segundo aponta o estudo.

Esta investigação é considerada a primeira estimativa global de qualquer resultado de saúde relacionado à exposição ao DEHP, assegura a autora principal do estudo Sara Hyman, cientista associada de pesquisa na Escola de Medicina Grossman da Universidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos.

“Ao destacar a ligação entre os ftalatos e uma das principais causas de morte no mundo, as nossas descobertas somam-se ao vasto corpo de evidências de que estes produtos químicos representam um perigo tremendo para a saúde humana”, alerta Hyman no comunicado de divulgação das conclusões do estudo-

Mas há, no entanto, uma limitação nesta pesquisa, que decorre do uso de razões de risco dos EUA para estimar mortes atribuíveis em outros países, admite Andrews, do Environmental Working Group.

“Embora os autores reconheçam essa limitação, [o estudo] assume que a relação entre a exposição ao DEHP e a doença cardiovascular é consistente em todo o mundo”, diz David Andrews, acrescentando, numa resposta por e-mail, que “isso pode não ser verdade, dadas as diferenças significativas tanto nos níveis de exposição quanto no acesso à deteção e ao tratamento de doenças cardiovasculares entre os países”.

Um outro estudo sobre ftalatos já tinha analisado dados dos EUA

Outros estudos já realizados por Trasande e pela sua equipa mediram a concentração de ftalatos na urina de mais de 5.000 adultos nos Estados Unidos e compararam esses níveis com o risco de morte precoce ao longo de uma média de 10 anos.

Nesse estudo, os cientistas descobriram que os ftalatos podem contribuir para cerca de 91.000 a 107.000 mortes prematuras por ano entre americanos de 55 a 64 anos. As pessoas com os níveis mais altos de ftalatos apresentaram maior risco de morte por qualquer causa, especialmente por doenças cardiovasculares, segundo apuraram os especialistas.

Os resultados mantiveram-se mesmo depois de os cientistas controlarem fatores como doenças cardíacas pré-existentes, diabetes, cancro e outras patologias comuns, maus hábitos alimentares, atividade física, índice de massa corporal (IMC) e níveis de outros desreguladores hormonais conhecidos, como o bisfenol A (BPA).

Os cientistas estimaram, então, que essas mortes poderiam custar aos Estados Unidos cerca de 40 bilhões a 47 bilhões de dólares (algo entre 34 e 40 mil milhões de euros) por ano em perda de produtividade económica.

Como limitar a exposição

É possível minimizar a exposição aos ftalatos e a outros desreguladores endócrinos, garantem os especialistas.

“Evite plásticos tanto quanto puder. Reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados pode diminuir os níveis de exposição química com os quais entra em contacto”, começa por sugerir Trasande, que deixa ainda uma outra dica: “Nunca coloque potes plásticos no micro-ondas ou na lava-louças, onde o calor pode quebrar os revestimentos, facilitando a absorção”.

Aqui estão outras dicas para reduzir a exposição:

· Use loções e detergentes para roupas sem fragrância.

· Use produtos de limpeza sem perfume.

· Use vidro, aço inoxidável, cerâmica ou madeira para armazenar alimentos.

. Compre frutas e vegetais frescos ou congelados em vez de versões enlatadas e processadas.

· Incentive a lavagem frequente das mãos para remover produtos químicos.

· Evite purificadores de ar e todos os plásticos rotulados como nº 3 (PVC), nº 6 (poliestireno, PS) e nº 7 (policarbonato, pelo risco de liberação de bisfenol A -BPA .

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