Três jornalistas da CNN usaram pulseiras químicas em três continentes diferentes. Os resultados são alarmantes

CNN , Laura Paddison, Jessie Yeung e Bill Weir
8 nov, 17:00
(CNN)

Estas pulseiras medem a quantidade de poluição no ar, rastreando substâncias químicas e transformando o invisível e visível

As pulseiras chegam de um laboratório na República Checa envoltas numa pequena lata de prata. Chegam à porta de três repórteres da CNN: um em Nova Iorque, um em Londres e um em Hong Kong.

Quando são retiradas da caixa, estas pulseiras de silicone preto parecem despretensiosas, mas a sua simplicidade é enganadora. Podem imitar a pele humana e absorver substâncias químicas a que estamos expostos diariamente, muitas das quais provêm de produtos de plástico.

O plástico está presente nas nossas vidas. Está em todo o lado, mesmo em locais que podemos não considerar, como a roupa, o mobiliário e o revestimento das caixas de cereais. Os produtos químicos que contém infiltram-se lentamente no ar que respiramos, no pó que inalamos e nos alimentos que comemos.

A maior parte dos produtos de plástico não vem acompanhada de qualquer informação sobre os produtos químicos que contêm, deixando as pessoas sem saber a que estão expostas.

Trata-se de um problema invisível com consequências potencialmente catastróficas para a saúde, afirma Leonardo Trasande, professor de pediatria e saúde populacional na Grossman School of Medicine da Universidade de Nova Iorque, que estuda o impacto dos produtos químicos nos seres humanos.

“Os produtos químicos utilizados no plástico são atualmente conhecidos por contribuírem para doenças e incapacidades que atravessam toda a vida, do berço à sepultura, do útero ao túmulo”, afirma à CNN.

As pulseiras de rastreio de substâncias químicas transformam o invisível em visível, diz Bjorn Beeler, diretor executivo da Rede Internacional para a Eliminação de Poluentes, ou IPEN, que forneceu as pulseiras. A organização utiliza-as apenas para experiências de investigação e não estão disponíveis comercialmente.

Cada pulseira pode detetar 73 produtos químicos associados aos plásticos, abrangendo seis grupos químicos, embora não detetem os PFAS, os chamados produtos químicos eternos, que permanecem durante anos no corpo.

As pulseiras são “não-invasivas, não é preciso analisar o sangue ou a urina”, garante Beeler à CNN. Embora não possam medir as concentrações de substâncias químicas no interior do nosso corpo, estudos demonstraram que as exposições que detetam estão correlacionadas com a presença das mesmas substâncias químicas no corpo das pessoas.

Usámo-las durante cinco dias, enquanto caminhamos por cidades poluídas e movimentadas, vamos para o trabalho em escritórios cheios de tecnologia, levamos as crianças à escola, cozinhamos, limpamos e aplicamos loções e perfumes.

No final da experiência, colocámos cuidadosamente as pulseiras de volta nas caixas de prata e enviámo-las para o laboratório para análise. Os resultados chegam várias semanas depois. A história que contam sobre a paisagem tóxica que cada um de nós atravessa todos os dias é arrepiante.

Um cocktail de produtos químicos

O plástico foi um milagre que revolucionou a vida, conferindo a capacidade de fabricar produtos que nunca antes tínhamos conseguido. Transportam água potável para aqueles que dela necessitam desesperadamente; prolongam o prazo de validade dos alimentos frescos; tornam possível a medicina moderna que salva vidas - a lista é interminável.

Mas com a proliferação do plástico, especialmente nas suas versões de utilização única, criou-se uma crise. Os resíduos de plástico estão por todo o lado, desde a montanha mais alta da Terra até à parte mais profunda do oceano. Trata-se de uma catástrofe ambiental e climática - a maior parte do plástico é produzida a partir de combustíveis fósseis que aquecem o planeta.

No entanto, um aspeto muito menos conhecido da crise é o impacto na saúde do complexo cocktail de químicos que o plástico contém.

De acordo com um estudo publicado no ano passado na revista Nature, existem mais de 16 mil substâncias químicas nos plásticos (embora o Conselho Internacional das Associações Químicas, um organismo da indústria, tenha verificado um número muito inferior de produtos na sua base de dados de aditivos plásticos disponível ao público).

São adicionados para tornar os plásticos mais fortes, mais flexíveis, mais duradouros, coloridos ou resistentes ao fogo. “Ajudam a otimizar os materiais para utilizações específicas e a reduzir os resíduos, prolongando a vida útil e a funcionalidade dos produtos”, afirma Kimberly Wise White, vice-presidente de assuntos regulamentares e científicos do Conselho Americano de Química, uma associação industrial.

Mas pelo menos 4.200 representam riscos para a saúde humana e para o ambiente, segundo o estudo. Cerca de 10 mil outros ainda não foram testados quanto a potenciais impactos perigosos.

“A complexidade química é impressionante”, diz Martin Wagner, biólogo da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia e um dos autores do estudo da Nature.

Os produtos químicos são libertados em todas as fases do ciclo de vida dos plásticos e podem infiltrar-se no nosso corpo.

Mesmo níveis muito baixos de exposição podem ser prejudiciais, dizem os especialistas. Muitos destes produtos químicos são “desreguladores endócrinos”, o que significa que podem “piratear” as hormonas que controlam tudo, desde o crescimento e a reprodução até ao metabolismo, alterando a forma como funcionam, sublinha Trasande.

A proliferação de milhares de produtos químicos diferentes, com novos produtos produzidos a toda a hora, também expõe as pessoas a um cocktail de substâncias, o que pode aumentar o seu impacto coletivo. “Em vez de um mais um ser igual a dois, é um mais um ser igual a três”, refere Trasande.

Os trabalhadores do setor dos plásticos, que podem ser expostos durante a produção, reciclagem e eliminação, estão entre os que correm maior risco, mas poucos podem escapar. “É um problema de todos e não sabemos com o que estamos a lidar”, diz Tridibesh Dey, um antropólogo que estuda os plásticos.

Químicos em todo o lado, em toda a gente

Estávamos desconfortavelmente conscientes daquilo a que podíamos estar expostos nos dias em que usávamos as pulseiras. O que é que continha a fragrância que usávamos antes do trabalho? O que poderíamos estar a respirar em estradas movimentadas ou nas nossas casas? Qual era o impacto da vasta gama de aparelhos eletrónicos nas nossas redações?

Quando os resultados chegaram, semanas mais tarde, revelaram que cada um de nós tinha sido exposto a um caldo tóxico - uma média de 28 químicos diferentes durante o período de cinco dias.

Havia diferenças individuais entre as três pulseiras - todos nós temos a nossa própria exposição, dependendo do estilo de vida e da geografia, diz Sara Brosché, consultora científica do IPEN - mas as semelhanças eram muito mais notáveis.

De longe, os níveis de exposição mais elevados para nós os três estavam relacionados com um grupo de químicos: os ftalatos.

Estes aditivos tornam o plástico mais flexível, macio ou elástico e estão presentes numa grande variedade de produtos, incluindo recipientes para alimentos, brinquedos para crianças, vestuário e mobiliário. Também são utilizados em perfumes, loções e outros produtos de cuidados pessoais para transportar fragrâncias e melhorar as texturas.

Estes produtos químicos estão “em todo o lado e em toda a gente”, lembra Beeler do IPEN. “Sempre que testámos alguém, essa pessoa tinha-os”.

Nós os três também fomos expostos a uma família de químicos chamada bisfenóis, presente em eletrónica, peças de automóveis, brinquedos, eletrodomésticos, recibos, canos de água e nos revestimentos de latas metálicas de alimentos e bebidas.

Talvez o mais conhecido seja o BPA, que era utilizado nos biberões e nos copos para bebés nos Estados Unidos até os pais começarem a evitá-lo por receio de problemas de saúde.

Os ftalatos e os bisfenóis, ambos suscetíveis de causar danos no sistema hormonal, têm uma série de impactos negativos na saúde, de acordo com um vasto e crescente corpo científico.

Os ftalatos têm sido associados a problemas de fertilidade, parto prematuro, distúrbios comportamentais nas crianças, obesidade, depressão, cancro e doenças cardiovasculares.

O DEHP, um ftalato comum e a substância química a que nós os três estivemos mais expostos, foi responsável por cerca de 13% de todas as mortes cardiovasculares entre pessoas com idades compreendidas entre os 55 e os 64 anos em todo o mundo em 2018, de acordo com um artigo recente de que Trasande é coautor.

Os bisfenóis, por sua vez, têm sido associados a anomalias fetais, baixo peso à nascença, perturbações do desenvolvimento neurológico nas crianças, puberdade precoce nos rapazes e puberdade tardia nas raparigas, aumento do risco de diabetes, doenças cardíacas e cancro.

Um estudo publicado no ano passado, que analisou 38 países, associou mais de 160 mil mortes e mais de cinco milhões de casos de doenças cardíacas a apenas três produtos químicos: BPA, DEHP e um retardador de chama.

Embora se esteja a acumular um grande conjunto de provas sobre estes produtos químicos mais conhecidos, existem milhares de outros sobre os quais ainda sabemos pouco ou nada, sublinha Wagner: “Estamos a lidar com uma grande confusão”.

Talvez o mais preocupante seja o potencial impacto destes químicos nas crianças, que estão agora expostas ainda no ventre das suas mães, acrescenta Wagner. As crianças “absorvem muito mais químicos, têm menos defesas” e os efeitos sobre a saúde manifestar-se-ão ao longo de décadas.

Um problema crescente com poucas salvaguardas

A produção de plástico não mostra sinais de abrandamento. Agora, à medida que o mundo muda para as energias renováveis, os plásticos representam uma nova fronteira para o setor do petróleo e do gás.

Prevê-se que a produção aumente 70% até 2040 se as políticas atuais não mudarem, o que significa uma maior exposição a produtos químicos.

Muitos países regulam os químicos nos plásticos, mas as regras são muitas vezes fragmentadas e limitadas a determinados produtos.

Vários ftalatos não podem ser utilizados em brinquedos para crianças, bem como numa série de outros produtos nos EUA, Reino Unido e Hong Kong.

O BPA foi banido dos biberões na Europa desde 2011 e dos produtos em contacto com os alimentos desde janeiro. A Food and Drug Administration dos EUA deixou de autorizar a utilização de BPA em biberões, copos com canudinho e embalagens de fórmulas infantis há mais de uma década. Mas a FDA não proibiu o BPA noutros produtos em contacto com os alimentos, afirmando que considera seguros os níveis aprovados.

Mesmo quando as proibições estão em vigor, os produtos químicos produzidos em substituição podem ser igualmente nocivos, se não mais, diz Trasande. Chama-lhe “química whack-a-mole” - assim que os cientistas demonstram que uma substância química está ligada a impactos problemáticos na saúde, é substituída por uma nova, não testada, e os cientistas têm de começar tudo de novo.

As respostas para o problema são claras, completa Wagner: As empresas precisam de investir na produção de melhores produtos químicos e os produtores precisam de dizer às pessoas quais os produtos químicos que entram nos seus produtos.

“No entanto, a indústria recusou-se a fazer qualquer tipo de progresso... pior ainda, atrasou a regulamentação”, afirma Wagner. O relator culpa os poderosos grupos de pressão e os interesses instalados pelo bloqueio da ação.

Alguns especialistas esperavam que um potencial tratado global sobre plásticos, objeto de negociações que duraram anos, pudesse impulsionar os esforços para regulamentar os produtos químicos nocivos, mas a última ronda de negociações fracassou em agosto.

Wise White, do Conselho Americano de Química, afirma que a indústria está “empenhada numa gestão sólida dos produtos químicos e na melhoria da transparência”.

Segundo a especialista, a base de dados do Conselho Internacional de Associações Químicas tem “dados toxicológicos facilmente acessíveis” disponíveis para 90% dos produtos químicos que enumera. “Isto desafia a narrativa de que os químicos nos plásticos não estão regulamentados ou são desconhecidos e sublinha que já existem dados sólidos para orientar as decisões e proteger a saúde pública”, acrescenta.

O que se pode fazer

Os impactos dos plásticos na saúde podem ser alarmantes, mas há formas bastante simples de reduzir a exposição a muitos deles, dizem os especialistas.

Trasande aconselha a utilização de objetos de vidro e de aço em vez de plástico para alimentos e bebidas. As pessoas devem também evitar colocar os plásticos no micro-ondas e na máquina de lavar louça, uma vez que estas são “formas simples” de fazer com que os produtos químicos entrem no corpo, afirma.

Outros conselhos incluem dar às crianças brinquedos feitos de madeira ou silicone, evitar alimentos processados que provavelmente tiveram mais contacto com o plástico, verificar se os ingredientes da maquilhagem e dos cuidados da pele contêm ftalatos e assegurar uma boa circulação de ar em casa e no local de trabalho para evitar a acumulação de poeiras carregadas de químicos.

Os ftalatos e os bisfenóis têm uma vida relativamente curta, o que significa que não permanecem muito tempo no corpo. Isto significa que estas medidas podem ter um efeito rápido. “Estamos a falar de dias”, diz Trasande. Se as pessoas conseguirem manter estas medidas a longo prazo, podem reduzir o risco de doenças crónicas, acrescenta.

No entanto, em última análise, é difícil controlar totalmente o ambiente. “Se quiséssemos viver numa bolha no meio da floresta, talvez pudéssemos, mas isso não é vida”, diz Beeler, do IPEN.

Esta parece ser a conclusão final da experiência com a pulseira: todos nós estamos a ser expostos diariamente a quantidades desconhecidas de substâncias químicas, muitas das quais podem representar riscos para a saúde, sem que seja possível saber exatamente quais as que estão no nosso corpo e em que concentrações.

A situação é provavelmente muito pior nos países em desenvolvimento, onde existem menos restrições aos produtos químicos nocivos e níveis de exposição mais elevados.

“Não fazemos ideia do que está à nossa volta e não demos o nosso consentimento”, conclui Beeler. "Nós somos o canário. Toda a gente é um canário".

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