O plano ainda está em fase de elaboração e muitos pontos ainda não estão finalizados, mas os termos já conhecidos não agradam a Ucrânia
O novo plano de paz para a Ucrânia, elaborado pela administração Trump, prevê que Kiev ceda a região leste do Donbass e limite a dimensão das suas forças armadas em troca de garantias de segurança dos Estados Unidos, segundo uma fonte ocidental ligada ao processo.
As autoridades norte-americanas indicam que o plano ainda está a ser elaborado e que qualquer acordo final exigirá concessões de ambos os lados, não apenas da Ucrânia. Alguns dos pontos que estão a ser divulgados agora - incluindo alguns que parecem favorecer as exigências de Moscovo - não são definitivos, ressalvam as autoridades, que acreditam que o plano certamente irá sofrer alterações.
O plano de 28 pontos, que o presidente Donald Trump analisou e apoia, é a mais recente tentativa da Casa Branca de pôr fim à invasão russa da Ucrânia. Algumas das disposições do novo plano - incluindo as concessões territoriais em áreas que não são atualmente controladas pela Rússia — foram anteriormente rejeitadas pelos ucranianos. Mas as autoridades norte-americanas veem uma nova oportunidade para retomar as negociações de paz.
O plano ainda está em fase de elaboração e muitos pontos ainda não estão finalizados. A CNN não analisou a proposta.
“O presidente Trump deixou claro, desde o primeiro dia, que deseja o fim da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, e está cada vez mais frustrado com a recusa de ambos os lados em comprometerem-se com um acordo de paz”, sublinhou a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt. “No entanto, o presidente e a sua equipa nunca desistem, e os Estados Unidos têm trabalhado num plano detalhado e aceitável para que ambos os lados parem com a violência e criem uma paz duradoura”.
Na quarta-feira, o secretário de Estado norte-americano Marco Rubio descreveu o plano como uma “lista de ideias potenciais” e não uma proposta finalizada.
“Pôr fim a uma guerra complexa e mortal como a da Ucrânia exige uma ampla troca de ideias sérias e realistas”, escreveu Rubio, numa publicação na rede social X. “E alcançar uma paz duradoura exigirá que ambos os lados concordem com concessões difíceis, mas necessárias. É por isso que vamos continuar a desenvolver uma lista de ideias potenciais para pôr fim a esta guerra, com base nas contribuições de ambos os lados do conflito.”
Ainda assim, algumas das disposições em discussão provavelmente vão atrair críticas por parte da Ucrânia e dos seus apoiantes, uma vez que exigem concessões territoriais significativas. As duas regiões que formam o Donbass, Lugansk e Donetsk, são ainda parcialmente controladas pela Ucrânia.
Nos outros territórios disputados de Kherson e Zaporizhzhia, sugere-se que as atuais linhas de batalha sejam congeladas, de acordo com a mesma fonte ocidental. Moscovo já sugeriu que Kiev cedesse ambas as regiões na totalidade.
Num dos cenários, a Ucrânia seria também obrigada a reduzir a dimensão das suas forças armadas e a diminuir algumas das suas capacidades militares, incluindo certos armamentos poderosos que recebeu nos últimos anos, acrescentou a mesma fonte.
Outros pontos em discussão incluem o estatuto da língua russa e da Igreja Ortodoxa Russa na Ucrânia após o fim da guerra.
O plano inclui também garantias de segurança apoiadas pelos EUA, destinadas a assegurar que a Rússia não pode invadir ou expandir a sua guerra para a Europa. Os detalhes foram descritos à CNN por um funcionário ocidental ligado ao processo.
O plano assemelha-se a uma proposta de paz saída das negociações em Istambul nas primeiras semanas da guerra, em 2022, reiterando algumas das exigências geopolíticas mais amplas de Moscovo sobre as forças armadas e as alianças da Ucrânia.
“Feitiço do Tempo”
Um diplomata europeu corrobora a descrição feita pela fonte ocidental sobre alguns pormenores da proposta. Segundo esta fonte, a nova iniciativa, que repete muitas das exigências maximalistas de Moscovo que remontam a 2022, faz lembrar o filme "Feitiço do Tempo" (Groundhog Day), em que os acontecimentos se repetem vezes sem conta.
Segundo um enviado europeu sediado na Ucrânia, o plano apanhou a comunidade diplomática completamente de surpresa.
"Tudo isto já foi discutido antes e rejeitado, e agora estamos de volta à estaca zero", afirma o diplomata. "Para os ucranianos, é simplesmente inaceitável, e com razão. Seria o mesmo que convidar os russos a regressar no futuro. [Aceitar este plano] Seria suicídio político para qualquer líder ucraniano, e seria suicídio militar entregar aquela área fortificada."
Segundo o diplomata, ministérios dos Negócios Estrangeiros na Europa e noutros locais contactaram as suas fontes em Washington à procura de orientação sobre o plano, apenas para serem informados de que também desconheciam a proposta.
“Ouvimos diretamente de pessoas no Departamento de Estado e no Capitólio que ninguém sabia nada sobre este plano até ter sido divulgado ontem [quarta-feira]”, adiantou o diplomata. “As pessoas que deviam saber disto, não sabiam de nada. Há muita irritação e confusão.”
Nos seus primeiros comentários públicos desde que surgiram as notícias sobre o plano, a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, disse aos jornalistas, esta quinta-feira, que, "para que qualquer plano funcione, é necessário que os ucranianos e os europeus estejam a favor". O ministro polaco dos Negócios Estrangeiros, Radosław Sikorski, por sua vez, adiantou à CNN que, seja quais forem os planos, eles devem envolver a Europa e deixar Kiev com capacidade para se defender.
"Temos muito mais a perder com isto do que os EUA e, por isso, a Ucrânia, mas também a Europa, precisa de estar envolvida", sublinhou.
O enviado especial de Trump Steve Witkoff tem liderado os esforços deste plano de paz, conforme noticiou a CNN na quarta-feira, citando uma fonte que refere que as negociações intensificaram-se esta semana, uma vez que a administração sente que o Kremlin sinalizou uma abertura renovada para um acordo. Um responsável norte-americano adiantou que Steve Witkoff estava a trabalhar discretamente no plano há um mês, com contributos tanto dos ucranianos como dos russos sobre os termos que poderiam aceitar.
Entretanto, uma delegação do Pentágono liderada pelo Secretário do Exército, Dan Driscoll, esteve esta semana em Kiev para discussões com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e outras autoridades de alto nível, incluindo sobre o novo plano.
As autoridades norte-americanas consideraram a viagem uma forma de retomar as negociações de paz, que estavam paradas há vários meses.
Andrew Carey, Nick Paton Walsh, Brian Abel e Catherine Nicholls, da CNN, contribuíram para esta reportagem.