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PJ desconfiava que estava a ser espiada pelo SIS nos vistos Gold. Carlos Alexandre ironizava sobre quem seria o "Garganta Funda" no Prolongamento

25 jun, 10:00
Ataque informático (Getty Image)
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OPINIÃO || As fugas de informação na Justiça || Capítulo 4 de 5 || Por causa da quebra do sigilo de uma busca, o juiz chateou-se em público: aconteceu no escritório do agente de jogadores Bruno Macedo, com o procurador Rosário Teixeira e o inspetor Paulo Silva. O Ministério Público apanhou uma conversa indiscreta numa escuta do caso Influencer: ao comentar uma busca ao FC Porto e a Pinto da Costa, o juiz e pai do antigo ministro Matos Fernandes disse-lhe que a ação tinha sido acertada há muito pela PSP com responsáveis do clube portista. E no polémico processo dos Vistos Gold, a PJ andou desconfiada de que estava a ser espiada pelo SIS. O próprio diretor da Judiciária achou que o diretor dos Registos e Notariado descobriu que era um dos alvos da investigação

Quando acabaram em novembro de 2014 os interrogatórios judiciais no Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC), António Figueiredo, o presidente do Instituto dos Registos e do Notariado (IRN), e dois outros altos quadros da Administração Publica souberam que o juiz de instrução, Carlos Alexandre os proibia de contactarem com espiões das secretas portuguesas, uma medida justificada pelas fugas de informação e as intervenções suspeitas de espiões detetadas pelo Ministério Público (MP) e pela Polícia Judiciária (PJ) durante a investigação do mediático processos dos Vistos Gold.

O receio das autoridades policiais e judiciais chegou a ser tanto que a ação de buscas e detenção no terreno foi montada num curto espaço de tempo. Os mandados de busca e de detenção foram assinados pelo juiz a 11 de novembro e entraram no Departamento de Investigação e Ação Penal (DCIAP) no dia seguinte. A megaoperação, que envolveu cerca de 200 inspetores, ficou marcada para dois dias depois, numa quinta-feira, dia 13, quando estava prevista uma viagem de trabalho a Bruxelas (Bélgica) de outro suspeito, o diretor do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) Manuel Jarmela Paulo. Mas nem esses cuidados evitaram mais uma alegada quebra de sigilo.

Na véspera da operação, Jarmela Palos, que estava numa cerimónia oficial nos Açores terá recebido um telefonema e vários SMS a avisá-lo de que as buscas estavam marcadas para o dia seguinte. A investigação judicial suspeitou que o autor dos alegados avisos teria sido o responsável pela Direção Central de Investigação do SEF, Paulo Nicolau. Nas escutas telefónicas, ouvidas em direto por elementos da PJ, o inspetor terá também referido a Jarmela Palos vários números que os investigadores do processo associaram à quantidade de buscas ou de detidos previstos para a operação.

Quando se verificaram as detenções, a investigação judicial aos negócios relacionados com os vistos gold ainda estava longe de ter acabado, mas uma coisa era já certa: o processo tinha decorrido de forma bastante atribulada desde que fora aberto no final de 2013 no DCIAP. E entre as confusões verificadas estava um telefonema em que António Figueiredo tinha questionado Almeida Rodrigues sobre uma eventual investigação em curso, tendo o responsável máximo da Judiciária acreditado que o inquérito corria sérios riscos e comunicado isso mesmo numa reunião de urgência que teve com a diretora da Unidade Nacional de Combate a Corrupção (UNCC), Saudade Nunes, o setor da PJ que estava a investigar o inquérito.

Foi então decidido avançar o mais rapidamente possível com a investigação da denúncia anónima que já visava Figueiredo, a nova imobiliária da sua filha Ana Luísa (Golden Vista Europe) e vários técnicos do IRN suspeitos de ligações ilícitas a negócios imobiliários e de consultadoria com empresários chineses e angolanos que movimentariam muito dinheiro. Outro dos visados (que depois acabou detido e colocado em prisão domiciliária com pulseira eletrónica) foi o empresário Jaime Gomes, o maior sócio da JMF, Projects & Business, que em 2011 tinha comprado a quota de 25% que o então advogado e deputado social-democrata Miguel Macedo detinha na consultora aberta em outubro de 2009. Havia ainda outros sócios da empresa: a filha de António Figueiredo e o ex-líder do PSD, Luís Marques Mendes.

Enquanto desempenhava as funções de ministro da Administração Interna, Miguel Macedo foi apanhado em várias escutas telefónicas feitas a António Figueiredo, tendo-se demitido do Governo no final da tarde de domingo, 16 de novembro de 2014. A PJ registou na investigação pequenas ofertas alegadamente dadas ao ministro por um empresário chinês também detido, Zhu Xiaodong, e na comunicação social passou a falar-se que o ministro poderia ser constituído arguido a qualquer instante, o que acabou por suceder no verão de 2015. O responsável acabaria acusado de tráfico de influência e prevaricação pelo MP, mas foi ilibado em julgamento já em 2019 (Relação confirmou em toda a linha essa decisão).

Miguel Macedo foi acusado de tráfico de influência e prevaricação pelo Ministério Público, mas foi ilibado em julgamento em 2019, uma decisão que viria a ser confirmada em toda a linha pela Relação. (Foto: Lusa)

Muito antes disso e ainda durante a complexa investigação, o MP e a PJ andaram envoltos numa autêntica nuvem conspirativa. Ao ponto de os procuradores Susana Figueiredo e Manuel das Dores e de o juiz Carlos Alexandre terem notado um facto que consideraram muito preocupante: logo nos primeiros meses de 2014, António Figueiredo pareceu ter deixado de falar de forma tão aberta ao telefone. Poucas semanas depois, os investigadores perceberam que o gabinete do presidente do IRN, instalado num dos edifícios do Campus de Justiça, em Lisboa, estava prestes a ser sujeito a uma ação de deteção de escutas ambientais (varrimento eletrónico) realizada pelo SIS e a pedido do próprio António Figueiredo.

A operação começou a 27 de fevereiro de 2014, depois de uma pouco usual equipa do SIS se ter deslocado à sede do IRN, fora do horário de expediente. O grupo de espiões era composto pelo próprio diretor da secreta interna, o juiz-desembargador Horácio Pinto, pela diretora do setor do contraterrorismo, M.J.C., e pelo número dois do departamento que tratava dos seguimentos e das operações no terreno, J.F. Na época, o chefe deste setor era Gil Vicente, que no ano seguinte seria escolhido para diretor-adjunto do SIS, cargo que ainda hoje mantém.

Os espiões chegaram ao Campus da Justiça no carro oficial do dirigente máximo do SIS, conduzidos por um motorista do serviço de informações. Nesse momento, uma equipa da PJ estava já posicionada para os vigiar de forma discreta e fotografar à entrada e à saída do edifício do IRN. Passados alguns meses, em maio de 2014, um novo episódio surgiu. Uma das principais suspeitas no processo, Maria Antónia Anes, a secretária-geral do Ministério da Justiça, tinha convidado para um jantar caseiro cerca de 10 homens, quase todos amigos comuns. E entre eles estavam precisamente o presidente do IRN e o secretário-geral do SIRP, Júlio Pereira.

Mas também Casimiro Morgado, ex-chefe de gabinete de Júlio Pereira e desde 2010 diretor do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), e o juiz-desembargador Antero Luís, ex-diretor do SIS e então secretário do Gabinete Coordenador de Segurança (entidade que juntava representantes de todas as forças policiais e dos serviços secretos). Outro dos convidados que comeu as favas guisadas cozinhadas por Maria Antónia foi um alto quadro da Judiciária, mas que apenas conhecia uma parte do grupo que se sentou a mesa: Paulo Rebelo, o então diretor da PJ de Lisboa.

A operação do SIS que deixou muitas suspeitas à PJ

Nessa altura, nas escutas telefónicas feitas a António Figueiredo já constava uma conversa gravada com Antero Luís em que era referida a venda de um imóvel em Leiria alegadamente intermediada pelo ex-diretor do SIS. O negócio, que acabaria por não se concretizar, terá sido avaliado em três milhões de euros. “Nunca fiz nada ilegal. Pediram-me um favor e eu fiz. E acha que eu sabia de alguma investigação ao António Figueiredo? Acha que se soubesse ia-lhe telefonar a perguntar-lhe se sabia de alguém que quisesse comprar a casa de um amigo do meu irmão? Pois, eu devo mesmo ser totó, não?!”, argumentou depois o juiz-desembargador, confirmando que se tinha deslocado com Figueiredo a Leiria, juntamente com três chineses, para verem a casa. “Isso nunca foi um segredo para ninguém. Até fui lá com o meu chefe de gabinete na altura.” E concluiu: “Se quiserem até lhes dou acesso a todas as contas bancárias e bens que tenho. Não temo nada.”

O juiz Antero Luís e o diretor do SIS Horácio Pinto não chegaram a ser colocados sob escuta telefónica no processo. No entanto, em fevereiro de 2015, os procuradores do inquérito, Susana Figueiredo e Manuel das Dores, retiraram uma certidão do processo que enviaram para o Supremo Tribunal de justiça (STJ), a entidade competente para avaliar os eventuais indícios que constariam no inquérito sobre os dois juízes-desembargadores. Meses depois, em junho desse ano, o caso foi arquivado.

Um terceiro magistrado judicial, Vaz das Neves, presidente do Tribunal da Relação de Lisboa (TRL) e que depois viria também a era envolvido no caso do juiz Rui Rangel e nos sorteios alegadamente martelados de juízes para certos processos, também chegou a estar sob suspeita depois ter sido gravado em outras conversas telefónicas com António Figueiredo. Em abril de 2015, o Ministério Público anunciou que tinha sido arquivado este caso que assentava sobretudo numa escuta telefónica gravada a 2 de setembro de 2014. Na conversa, quando António Figueiredo disse ao juiz que estava a ser investigado pelas autoridades, o amigo e presidente do TRL prometeu-lhe que lhe daria “todo o seu apoio em tudo o que for necessário, pessoal e institucional”.

Com o passar do tempo, as autoridades judiciais e a PJ perceberam que estavam perante um autêntico labirinto (o nome que a Judiciária acabou por batizar a operação) de relações suspeitas entre empresários portugueses e estrangeiros, altos quadros do Estado, o então ministro da Administração Interna, polícias e espiões. O pano de fundo era sempre o mesmo: os negócios imobiliários e de consultadoria (simulados ou não) e as comissões eventualmente pagas para agilizar ou simplesmente não fiscalizar todos os passos da concessão de vistos gold. Por exemplo, durante a investigação, a PJ suspeitou (não se confirmou) que pudessem estar até em causa negócios simulados em que os próprios investidores pagariam na realidade bem menos pelos imóveis do que o mínimo – 500 mil euros – exigido pela legislação que dava acesso aos vistos gold.

Com dezenas de possíveis alvos poderosos e envolta em teorias conspirativas, a investigação judicial do processo chegou a estar praticamente num beco sem saída, mas a direção da PJ reforçou a equipa de investigadores (a inspetora encarregada inicialmente do inquérito optara por sair invocando “motivos pessoais”), que passou largos meses a estabelecer as conexões entre as várias empresas suspeitas e a seguir vários alvos e o rasto de inúmeros negócios e até concursos públicos para seleção de pessoal (Maria Antónia Anes fizera parte de vários júris de recrutamento para cargos públicos). Enquanto faziam este trabalho, vários elementos da equipa da PJ chegaram a pensar que poderiam estar sob vigilância dos espiões do SIS. Como prevenção, os inspetores trocaram de telemóveis e passaram a evitar falar ao telefone, ou a trocarem mensagens eletrónicas, sobre o processo. Tiveram ainda cuidados acrescidos para não serem seguidos durante as deslocações de carro ou a pé.

Em junho de 2014, a investigação policial foi surpreendida por outro facto anómalo que considerou igualmente preocupante. Após lerem várias mensagens enviadas por António Figueiredo ao diretor do SIS, Horácio Pinto (uma, de 18 de junho, pedia especificamente para os espiões verificarem “algumas situações/locais de que haviam falado na semana anterior”), os inspetores da PJ apuraram que um outro espião do SIS, J.C., diretor da área informática operacional, tinha ido às instalações do IRN em Lisboa, provavelmente durante a noite. A missão teria passado por assegurar a limpeza e a segurança do sistema informático usado pelo presidente do IRN.

Após o primeiro varrimento eletrónico realizado no IRN, nem a PJ nem o MP receberam qualquer tipo de justificação oficial do SIRP ou do SIS para o que se passou durante a investigação do caso dos Vistos Gold. As únicas explicações foram dadas de forma algo cifrada por Júlio Pereira, logo após as primeiras detenções e quando se tornou público que tinham atuado espiões nos bastidores. Numa sessão à porta fechada com os deputados da Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, o responsável máximo do SIS e do SIED disse “que o varrimento eletrónico é uma operação frequente em muitas outras instituições do Estado”, que a situação em causa se inseria “no âmbito das competências do SIS” e que estava em conformidade com a lei.

Júlio Pereira garantiu também que “o diretor do SIS” era “alheio ao processo de investigação aos chamados Vistos Gold”. Questionado pelos deputados sobre se o varrimento pedido por António Figueiredo estava relacionado com a intervenção de uma secreta estrangeira, Júlio Pereira não respondeu, alegando que era uma “matéria em segredo de Estado”. Todavia, segundo explicou aos deputados, as investigações dessa natureza implicavam atuações como a que ocorrera no IRN.

Meses depois, quando foi ouvido como testemunha no processo aberto no Supremo Tribunal de Justiça à atuação dos juízes Antero Luís e Horácio Pinto no caso dos Vistos Gold, Júlio Pereira voltou a não esclarecer totalmente o assunto, mas confirmou a ação de contraespionagem do SIS. “Estava em curso uma operação de enorme sensibilidade cuja natureza não posso revelar por envolver matéria classificada, a qual tinha como epicentro o IRN e algumas das suas instalações”, referiu o secretário-geral do SIRP aos juízes-conselheiros. Nunca falou de espiões russos, mas seria disso que se tratava, pois havia a suspeita de que os agentes estrangeiros tivessem tentado aceder ao gigantesco reservatório de informação armazenada no IRN.

Além das novas identidades que os agentes encobertos da PJ e os próprios agentes do SIS usavam em operações relacionadas com o combate a criminalidade especialmente complexa, como casos de terrorismo e de tráfico de droga, era no IRN que estava guardada toda a informação relativa ao registo civil de cidadãos nacionais e estrangeiros, como, por exemplo, os pedidos de vistos de entrada e permanência em Portugal, os assentos de batismo e de óbito, os registos de casamentos e de divórcios e até os dados sobre as mudanças de sexo. Com as instalações centrais sediadas num edifício localizado no Campus de Justiça, em Lisboa, o IRN estava também incumbido de guardar os dados inseridos nos cartões do cidadão e nos passaportes, as atribuições e as perdas de nacionalidade, os registos de veículos e de imóveis, os testamentos e as escrituras públicas.

Na sua base de dados constavam ainda a identificação e o histórico de empresas portuguesas, os registos de marcas e de entidades religiosas, fundações e associações, bem como um arquivo autónomo com as certidões de procurações judiciais. Além disso, o IRN já mantinha há anos dezenas de protocolos com instituições como a própria Procuradoria-Geral da República ou o órgão responsável pela atividade e a colaboração de todas as polícias e os serviços secretos portugueses, o Sistema de Segurança Interna (SSI).

Mesmo classificada, tornou-se evidente que a alegada operação do SIS acabou por provocar problemas na investigação dos Vistos Gold. Paulo Mota Pinto, então presidente do Conselho de Fiscalização dos Serviços de Informações, chegou a dizer que a operação de varrimento eletrónico em causa fora “imprudente”, mas legal devido ao “entendimento de que a operação se realizou no âmbito da contraespionagem”. No entanto, frisou que o episódio iria obrigar o SIS a mudar algumas regras, nomeadamente a instituir a prática de deixar “registado por escrito”, numa espécie de ata, todas as operações deste tipo. Os novos procedimentos incluiriam também “um maior escrutínio” sobre os motivos dos pedidos dos varrimentos. Porventura por causa destas e outras situações vividas, até hoje ninguém consegue tirar da cabeça do juiz Carlos Alexandre que tem sido alvo do SIS ou de outras atenções por ter lidado com processos bastante mediáticos e complexos, inclusive do mundo da bola.

A combinação das buscas da bola escutada no caso… Influencer

Pouco passava das 12h30 quando mais uma equipa de investigadores do Ministério Público (MP) e da Autoridade Tributária (AT) entrou nas instalações do escritório de advogados e também de algumas empresas de Bruno Macedo, em Braga. O procurador Rosário Teixeira e o inspetor Paulo Silva lideravam a comitiva de seis elementos que naquele dia, a 24 de novembro de 2021, subiu ao 2.º andar do 301 da rua do Raio. Vinham afogueados por um contratempo: o juiz que os devia acompanhar na operação de buscas, Luís Cardoso Ribeiro, o Juiz 3 do TIC de Lisboa que em tempos presidiu ao coletivo que julgou o caso principal do BPN, tivera de ficar em confinamento porque na véspera a mulher apanhara Covid.

A equipa Teixeira/Silva andava há dias com a operação Prolongamento no terreno, uma espécie de Cartão Vermelho II (o caso original onde no verão desse ano já tinham detido o presidente do Benfica, o filho Tiago Vieira e também o agente de jogadores Bruno Macedo) e considerava, mais uma vez, Macedo como um dos alvos prioritários. Mas a equipa precisava de um juiz para fazer a busca ao escritório de advogados do pai do agente (Macedo também era advogado). A solução foi aproveitar o magistrado judicial que já lá estava desde pouco depois das nove horas da manhã a fazer também uma busca aos mesmos alvos no âmbito de outro caso que investigava suspeitas de fuga fiscal e branqueamento de capitais em dezenas de contratos e transferências de jogadores de futebol, a operação Fora de Jogo.

Parece insólito, mas tudo tem uma explicação. Quando Rosário Teixeira chegou ao local, o juiz Carlos Alexandre já sabia há um dia daquela incursão do procurador. Este perguntara-lhe por SMS se ia fazer a busca ao “BM” (Bruno Macedo) e, depois de obter a confirmação, dissera-lhe que também lá ia. O que o juiz não sabia era que acabaria a fiscalizar duas buscas de processos diferentes devido ao problema inesperado do colega Luís Ribeiro. Por isso, quando viu o procurador e Paulo Silva, Carlos Alexandre interrompeu por momentos o que estava a fazer e centrou-se nos dois investigadores. Ao contrário do que se poderia pensar, o que se seguiu foi tudo menos um (re) encontro amigável, conforme foi presenciado por dois representantes da Ordem dos Advogados e numerosos inspetores do fisco, polícias e militares da GNR que ali se encontravam. Carlos Alexandre começou logo por ironizar que a operação do procurador já andava a ser seguida pelos media há três dias – “Se calhar, o Garganta Funda não é aquele que todos pensam que é”, disse, referindo-se às acusações veladas, até do MP, de que era ele que passava informações a jornalistas.

Carlos Alexandre (Foto: Getty Images)

“Eu não tenho nada a ver com este processo, não é?!”, concluiu o juiz perante a assistência ainda incrédula. “Os outros fazem-nas e eu fico com a culpa”, voltou à carga logo depois de Rosário e Silva terem esboçado uma ligeira reação que deu a entender que os três homens tinham contas antigas a ajustar. O problema principal eram de novo as fugas de informação que Paulo Silva apontara também no expediente das operações sigilosas que visavam inicialmente os agentes de jogadores Bruno Macedo, Pedro Pinho e várias das suas ligações como Luís Filipe Vieira, Pinto da Costa e o empresário Hernâni Vaz Antunes, os alvos privilegiados das operações Cartão Vermelho, Altice/Picoas e Prolongamento. De novo, várias investigações jornalísticas sobre os negócios do futebol e da Altice (inclusive sobre os contratos de transmissão televisiva dos jogos de futebol) tinham levado o inspetor a anotar que isso colocava em risco os processos. Paulo Silva tinha chegado a mandar suspender nesse ano, em 2021, boa parte das escutas telefónicas dos inquéritos durante cerca de seis meses por achar que, na sequência da publicação das minhas notícias, os suspeitos iam “contaminar a recolha da prova”, por exemplo, plantando conversas para justificarem factos em investigação.

Naquele dia de novembro de 2021, as operações Prolongamento e Fora de Jogo vieram a cruzar-se não só no escritório de advogados e nas empresas de Bruno Macedo em Braga. Os magistrados do MP das duas operações (de um lado, as procuradoras Inês Martins e Celeste Pera, do outro, Rosário Teixeira) pareciam andar numa espécie de disputa para ver quem chegava primeiro a locais como à casa de Bruno Macedo e ao escritório de Lisboa do agente de jogadores, na Avenida da Liberdade. Na realidade, tinha quase tudo sido combinado um mês antes, pois a operação Fora de Jogo havia sido obrigada a fazer um compasso de espera, pois as buscas a Macedo, às SAD do Sporting de Braga e do Vitória de Guimarães chegaram a estar marcadas e depois foram adiadas e remarcadas para novembro.

Uma semana antes de avançar para o terreno, o Ministério Público contactou o juiz Carlos Alexandre e este foi às instalações do DCIAP por volta do meio-dia de 22 de outubro de 2021. Nesse dia, por coincidência, o juiz encontrou-se à porta do DCIAP com o procurador Rosário Teixeira que estava ali a fumar e os dois foram vistos a entrar sorridentes. Já perante a equipa especial do caso Fora de Jogo, o juiz foi informado do cancelamento da operação, com a justificação de que a ideia era não prejudicar outra operação do DCIAP que também estava a ser preparada: precisamente o caso Prolongamento dirigido por Rosário Teixeira. Nos dois inquéritos havia alvos comuns e os meios não eram elásticos. Numa conferência sobre criminalidade fiscal e aduaneira, organizada pela Autoridade Tributária (AT) a 22 de outubro de 2021, e longe dos olhares dos jornalistas, o diretor do DCIAP, Albano Pinto, queixara-se de que o MP tinha poucos recursos para tantos processos complexos. Disse até que as instalações já eram exíguas e que lhe faltavam peritos económicos, financeiros e informáticos. “Sem os meios da AT, não fazíamos uma boa parte do trabalho”, frisou na altura.

A equipa do processo Fora de Jogo liderada por Ana Catalão, e que incluía já as procuradoras Inês Martins e Celeste Pera, voltou depois a contactar o juiz para obter novos mandados. Carlos Alexandre aceitou de imediato e perguntou qual era a data que convinha ao MP para ir para o terreno. Responderam-lhe: 24 de novembro de 2021. Como já tinha sido adiada várias vezes, o juiz decidiu não pedir ajuda à PSP para viajar na véspera e instalar-se nas imediações de Braga, a cidade onde tinha também se deslocar, não só por causa de Macedo, mas porque o CEO que administrava a SAD do Braga era também advogado, apesar de não exercer. Assim, só na véspera avisou os seus dois seguranças que se preparassem para o ir buscar às cinco horas da manhã para arrancarem com destino a Braga e Guimarães. Tudo correu normalmente e o juiz chegou ao escritório de advogados da família de Bruno Macedo quando eram 09h10.

Na semana das buscas, que incluiu como alvos as residências de Pinto da Costa, do filho Alexandre, dos administradores da SAD portista Fernando Gomes e Adelino Caldeira e do agente de jogadores Pedro Pinho (estava ausente na Roménia a caçar e acabou por vir mais cedo para Portugal quando foi avisado do que se estava a passar), as operações Prolongamento e Fora de Jogo ficaram marcadas por mais dois episódios insólitos, sendo que um deles foi apanhado nas escutas telefónicas de outro processo que viria a provocar, dois anos depois, a demissão de António Costa e a queda do governo socialista de maioria absoluta. Como João Pedro Matos Fernandes, ministro do Ambiente, estava sob escuta no caso Influencer, os investigadores do DCIAP ouviram-no, precisamente a 22 de novembro de 2021, numa conversa com o pai, um juiz conselheiro jubilado e ex-presidente da Assembleia Geral do FC Porto, a comentar as notícias das buscas que estavam então a visar a SAD portista e a casa de Pinto da Costa.

Na conversa gravada, o juiz José Matos Fernandes confidenciou ao filho, então ministro, que não estava surpreendido pelas buscas, pois dois dias antes destas ocorrerem, no sábado, a 20 de novembro, durante o jogo da Taça de Portugal entre o Porto e o Feirense (os dragões ganharam cinco a um e passaram aos oitavos de final), tinha comentado o assunto com Pinto da Costa e o administrador Adelino Caldeira. “Eles já sabiam que eram hoje”, revelou José Matos Fernandes, acrescentando que teria existido uma espécie de negociação nos bastidores com as autoridades para se encaixar a operação naquela segunda-feira e assim não afetar o apertado calendário de jogos do clube: “Eles [Pinto da Costa e Caldeira] até tinham pedido para que fosse hoje, para não ser no dia do jogo [Porto jogou em Liverpool dois dias depois das buscas, quarta-feira, dia 24 de novembro, para a Liga dos Campeões) e a polícia disse que então era na segunda [22] ou na sexta [26].” Isto levou a PGR a abrir um inquérito para investigar mais uma alegada fuga de informação.

NOTA: Continua no Capítulo 5 – "Ivo Rosa e o estranho caso da divulgação de uma escuta que seria uma vingança do juiz Carlos Alexandre”

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