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Psicóloga, Ordem dos Psicólogos Portugueses

Psicologia em tempo de guerra. E se alguém lhe dissesse: “Estamos em perigo. Temos de sair daqui”?

16 mar, 14:00

"Psicologia em tempo de guerra", uma rubrica para ler no site da CNN Portugal

Pare, olhe à sua volta, observe bem o que o rodeia. Pense no dia de ontem, nas pessoas que viu, naquilo que fez, nas decisões que tomou, nos sítios por onde passou.

Agora imagine que alguém chegava perto de si e lhe dizia: “Estamos em perigo, temos que sair daqui!”

Por segundos, ou minutos, congelamos. Centenas de perguntas surgem: o que aconteceu? Porque é que aconteceu? O que é que eu faço agora? E depois temos que agir.

Até há algumas semanas, esta era uma realidade quase impossível. Embora, com uma breve incursão pelas notícias internacionais, fosse possível perceber que existem conflitos e problemas económicos e sociais, que há muito tempo obrigam a que centenas de milhares de pessoas abandonem as suas casas, a sua família e os seus bens (seja para melhorar a qualidade de vida, seja para garantir a sua sobrevivência e segurança) não achávamos possível que em fevereiro de 2022 a europa fosse confrontada com uma guerra, que, até ao dia de hoje tenha causado um número de vítimas real que vai muito para além dos números que aparecem diariamente na comunicação social.

De que vítimas estamos a falar?

Das pessoas direta e fisicamente expostas aos bombardeamentos e invasão, das pessoas que perderam familiares, amigos, animais de estimação, das pessoas que estão a ser deslocadas para outros países.

Quem são estas pessoas?

São homens e mulheres, crianças, jovens, adultos idosos, pais, mães, irmãos, filhos, amigos, conhecidos, colegas de trabalho, vizinhos, …

E nós, deste lado?

Nós, através das notícias que nos chegam constantemente, podemos também ser vítimas. Sofremos com aquilo que vemos e ouvimos, identificamo-nos com o seu sofrimento, sentimos alguma insegurança, algum medo, a nossa preocupação aumenta gradualmente, e ativamos um estado de alerta.

Nós que, teoricamente estamos aqui tão longe, devemos pensar no que podemos fazer perante tão avassaladora realidade! E, mais uma vez, a psicologia assume um papel fundamental!

Perante este cenário, e porque somos consumidos pelas emoções, podemos adotar estratégias adaptativas que nos protejam do impacto emocional e que nos permitam agir. Um dos primeiros passos é filtrar a informação que nos chega, escolher canais de informação credíveis, evitando informação errada, sensacionalista e violenta. É importante saber o que está a acontecer, mas também é importante saber o que é que pode fazer no imediato e depois.

O sentimento de pertença a esta comunidade (seja a nossa, mais próxima, ou outra uns quilómetros mais distante) também nos empurra para a ação. De que forma podemos contribuir para minimizar o sofrimento do outro? De que forma podemos ajudar?

Quando estamos diretamente envolvidos numa situação de crise e catástrofe, todas as ações preventivas que forem tomadas terão um papel fundamental. Se estivermos preparados para uma crise, se adotarmos todos os dias medidas de autoproteção pessoal e familiar, se tivermos uma boa rede de suporte social, se soubermos a quem recorrer, se garantirmos a nossa segurança e conforto, estaremos mais capazes de agir.

Fomos, há cerca de cinco anos, confrontados com a necessidade de aprender como se faz um “Kit de emergência”, com a importância que ele pode ter num momento em que precisamos de fugir para um lugar seguro. O valor que aquela mochila onde colocamos uma lanterna, um rádio, uma powerbank, um estojo de primeiros socorros, uma fotografia valiosa, um conjunto de lápis de cor para as crianças, um telemóvel extra, fotocópias de documentos de identificação, entre tantas outras coisas de que só nos lembramos quando precisamos e não temos.

Nessa mesma altura aprendemos como pode ser vital a existência de uma boa rede de contactos, de um suporte local onde as várias entidades colaboram para garantir o socorro e a prestação de cuidados a quem, de um momento para o outro, fica sem nada (onde se incluem os bens materiais, as pessoas e também as memórias de uma vida) e de como, quando essa rede existe, se podem evitar outras tragédias a curto e a longo prazo.

Posteriormente importa cuidar da saúde física e mental. Procurar ajuda, ser também a ajuda para o outro. Colaborar na recuperação, fazer parte de um processo de reconstrução, participar ativamente na capacitação dessa mesma comunidade.

Neste momento, e porque existe a necessidade de acolher refugiados, todos nós podemos contribuir um pouco, seja na recolha de bens, seja na sensibilização para a mesma, seja na educação para uma sociedade mais solidária, justa e que saiba construir e viver em paz.

Sejamos exemplos no acolhimento nas nossas escolas, nos locais de trabalho, na nossa rua com o vizinho que abriu a porta a uma família. Sejamos também nós capazes de abrir a nossa porta para garantir que há um teto, uma mesa e um abraço reconfortante.

Neste momento o mais importante é mesmo isso: garantir a segurança, garantir o conforto, garantir a compaixão e o carinho a quem está num sofrimento que nenhum de nós espera vir um dia a sentir e que durante muito tempo estará nos seus dias e noites, nas suas memórias, nas suas atitudes.

Sejamos verdadeiramente humanos, vamos contribuir para a esperança e para a paz, não só nas nossas palavras, mas também nas nossas atitudes. Parece tão simples, não é?

 

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