Pinto da Costa espera que Madureira seja libertado e que vá ao seu funeral (onde não quer Varandas e acha melhor que Vieira não esteja)

22 out 2024, 11:32

Antigo presidente do FC Porto deu uma entrevista à CNN Portugal onde aborda os temas do seu novo livro

Jorge Nuno Pinto da Costa, "Azul até ao fim", mas, na verdade, quem olha para este livro, o que pensa é até ao fim nas provocações.

É até ao fim de tudo, tudo tem um fim, eu irei ter um fim que espero não seja para breve, e até ao fim serei azul.

E porquê esta capa? Porquê este caixão? Não teme que quem olhe para si assim considere demasiado mórbido e que até possa criticá-lo?

Quem vir a olhar para isto vê que estou cá fora, lá dentro não está ninguém, mal era se eu estivesse ali dentro. Portanto, isto quer dizer que eu serei do Porto até ao fim, até o meu último dia, e quer dizer também que fazer lembrar a toda a gente que todos temos um fim, e por isso o caixão que ele está, não é para eu ir lá para dentro, que eu tenho tempo, onde fazia muitos anos de eu precisar de algum, mas também para mostrar às pessoas que a morte não é uma coisa, não é bom, mas é uma coisa inevitável, quando nascemos só temos uma coisa certa, é que um dia vamos morrer.

Aquilo que nós vemos aqui é o seu manuscrito, a noite de setembro de 2021, esta é a primeira página deste livro. E esta primeira página acontece num dia particularmente importante.

No dia 8 de setembro de 2021, eu andava a fazer uns exames médicos, mais isto, mais aquilo, todas aquelas coisas, e o médico não me dizia nada, eu achei que com tantos exames já devia ter alguma coisa de grave, então disse, vamos acabar com isto, quero saber o que é que tenho. Meu médico, que é até meu amigo, respondeu-me que aquilo que eu escrevo aí, o tumor que tenho é maligno, é evidente que uma pessoa receber uma notícia assim, a princípio fica chocado, fica sem saber o que pensar ou o que fazer, mas depois se reflete e durante o dia e à noite achei que ia escrever para mim, não para publicar, depois é que se deu essa oportunidade de que souberam que eu tinha isso, acharam que era interessante, porque eu escrevi tudo à mão, e nessa noite eu escrevi esse primeiro para mim, o que eu senti, como eu encarava isso, como eu queria seguir a vida com a máxima normalidade possível e, sobretudo, não perturbar ninguém.

Diz aqui, em caixa alta, não quero que ninguém saiba, ninguém, ninguém, ninguém. E esse princípio, o que é que foi assim tão importante nesse dia?

Foi importante por muita coisa, olha, primeira situação, a minha filha estava grávida, do segundo filho, veja lá que, entretanto, nasceu, já tem terceiro, portanto, o tempo que eu consegui resistir e depois não queria, eu achava que os meus irmãos, sobretudo uma irmã que eu tinha, a Alice, que era louca por mim, se soubesse, ia ficar transtornada, então resolvi com os médicos que ninguém podia saber e eu acho que durante muito tempo ninguém soube.

E o resto do livro é sobre memórias, e alguns capítulos já têm a ver com pessoas que lhe disseram muito e pessoas a quem, de certa forma, dedica capítulos.

Sim, depois o que eu decidi foi não ir a fazer um diário, porque veja lá, se eu fizesse um diário a partir de 21, do ano 21, do 8 de setembro, já a Porto Editora não tinha mãos a medir...

Tinha de fazer uma enciclopédia...

Então eu resolvi escrever factos que acontecessem e a maneira como eu os encarava, aceitando eu as coisas com naturalidade, não posso de maneira nenhuma estar revoltado comigo mesmo ou com a minha sorte, porque tomara eu que os meus filhos e os meus netos durassem até os 86 anos, tomara eu, agora, e eu achava que as coisas iam alterar, então para sentir naturalmente, por exemplo, estar num Dragões de Ouro, a saber que podem ser os últimos dá uma emoção diferente do que pensar que vou ter mais 20 ou mais 10 para fazer a cerimónia, de modo que isso naturalmente que altera momentos e resolvi, quando acontecessem coisas que influenciassem a minha vida, por exemplo, a morte dos meus irmãos, dedico um capítulo a cada um deles, a morte do Artur Jorge, a morte do meu maior amigo que era o António Pinto Sousa, foram coisas que me chocaram imenso e que eu entendi que devia, desde esse dia até hoje, que me marcaram e que devia transmitir o meu pensamento, o que eu senti e, naturalmente, evocá-los também para que fiquem num livro escrito por mim, registada a sua memória.

Na última entrevista que me deu, e de resto única, disse que o livro ia ser uma bomba, e algo que eu me lembro bem é de ter dito que, até ao fim, o que queria mais era estar com os amigos.

Sim, sim.

Era usufruir do tempo com os seus amigos. Neste livro que programou e onde revela como programou o seu funeral, identifica quem são os amigos que vão estar ao seu lado, ou que quer que estejam ao seu lado.

Eu tenho que pegar no livro. Não vou dizer os que não quero. Acho que estava aí, no sítio certo. Gostava de ter ao meu lado o António Henriques, que é o padrinho da Joana, o Pedro Pinho, o Quintanilha, o Fernando Povoas, o Luís Gonçalves, o António Oliveira, o Hugo Santos, a Sandra Madureira, o Fernando Madureira, o Caetano, o Marcos Polónia. Estes são os que eu gostava. Os que não gostavam, têm que comprar o livro para saber.

Eventualmente, haverá pessoas que ficarão chocadas, que queiram ter ao seu lado o Fernando Madureira e a Sandra Madureira, até porque o Fernando Madureira está preso.

Sim, mas eu espero que ele seja solto.

E porquê quer tanto que o casal Madureira, acusado destes crimes, sejam duas das pouquíssimas pessoas que estejam no seu funeral?

Porque foram pessoas que me foram sempre fiéis e são pessoas que estão a sofrer o que estão a sofrer pelo facto de serem minhas amigas.

Não por terem cometido crimes?

Não. Eu ouvi que uma das acusações é que fizeram agressões numa Assembleia-Geral, mas não há nenhuma imagem. Toda a gente filmou tudo, porque inclusive houve um apelo da outra lista que "filmem tudo", toda a gente filmou tudo, as televisões apresentam tudo, apresentam ele a fazer gestos para mandar sentar, mas não há uma única imagem de que ele tenha agredido seja quem for. No entanto, é acusado.

Está a imaginar que Marcelo Rebelo de Sousa, o atual primeiro-ministro, Luís Montenegro, assinalem o seu funeral com a presença?

Não faço ideia, não faço ideia disso.

Mas gostaria, é-lhe indiferente?

É-me indiferente, é-me indiferente.

Eu não vou insistir consigo, mas presumo eu que não vai querer ninguém da direção atual do Futebol Clube do Porto.

Isso já são presunções.

São presunções minhas, é verdade, mas atendendo à frase que deixou na última entrevista de que não quer traidores, imagino que na lista de traidores coloque muitas das pessoas que hoje estão à frente do Futebol Clube do Porto.

Menciono alguns, mas se eu fosse por os traidores todos, seria o número das páginas que tinha por minha conta.

Portanto, só pôs alguns?

Só pus alguns. Mas também não é preciso, porque eles sabem, eles sabem quem são.

De qualquer das formas, há uma pessoa que me disse na outra entrevista que não só não qualifica como traidor, que até já lhe pediu desculpa, e que hoje até considera como amigo, que é o Luís Filipe Vieira.

O Luís Filipe Vieira nem está dos que eu não quero, mas julgo que ele não virá, por uma questão de senso, porque eu penso que vai lá estar muita gente do Futebol Clube do Porto que, naturalmente, não esquece certas coisas. Não seria bom que ele viesse, agora não está nos que eu não quero, nem está no número dos meus amigos, como mencionei.

Mas Frederico Varandas, por exemplo, que Pinto da Costa mal ou bem, é uma figura incontornável de futebol, até se quisermos mundial. Deveria, de alguma forma, com maus olhos, que os presidentes de outros clubes estivessem no seu funeral?

Presidentes de outros clubes, de uma maneira geral, não vejo com maus olhos, alguns tenho mesmo amizade, mas estamos a falar no Varandas, é óbvio que o Frederico Varandas, presidente do Sporting, de certeza, não terá vontade de vir, mas mesmo que estivesse - só para ver que eu estava mesmo lá, que era eu -, teria o bom senso de não vir.

E o Rui Costa?

O Rui Costa não tenho nenhuma razão para querer que esteja, nem para que não esteja, e acho que se o Rui Costa quiser vir, compreendo.

Sendo essa a sua opinião em relação a ele, presumo que tenha ficado satisfeito com o facto de o Ministério Público não ter avançado com uma acusação contra ele.

Não, isso, sobre o Ministério Público...

Em relação à corrupção desportiva que soube esta semana. É só porque efetivamente é um assunto que está a marcar atualidade e eu gostava de ter a sua opinião sobre esse assunto, porque sei que tem opiniões muito vincadas sobre a justiça, e nomeadamente sobre o Ministério Público, e o Benfica dominou as atenções, até porque pela primeira vez vimos o Ministério Público a pedir o afastamento, a suspensão do clube das competições desportivas. E há quem especule que isso poderia significar a descida de divisão do Benfica.

Sim, mas isso são especulações e é a conversa que a gente sabe que não dá nada disso. Eu acho que estas acusações de coisas que não vão dar nada...

Mesmo contra o Luís Filipe Vieira?

Sim, aquelas acho que não vão dar nada, foi para tapar os olhos com a peneira, porque, entretanto, foram arquivadas coisas como, por exemplo, telefonemas de um empresário a tentar subornar jogadores para perderem um jogo contra o Benfica, em que há chamadas... Isso foi arquivado, portanto, eu penso que foi uma maneira inteligente de arquivar coisas graves e ninguém falar disso. Fala-se de culpabilidade, determinadas coisas que eu penso que não vão dar nada. E ao mesmo tempo arquivaram-se coisas graves que ninguém fala, mas sob o Ministério Público, eu não vou tecer considerações. O Conselho pediu-me para fazer, no final do livro, uma coisa que fazia muito dano, que era de A a Z, e o meu M é dedicado ao Ministério Público, mas não com críticas, apresentando factos concretos que se passaram comigo. Portanto, não entro nem em crítica, nem em elogio, não quero nada de me meter com esses senhores. Por exemplo, o E não podia deixar de ser Eanes, o general Ramalho Eanes foi para mim uma referência, é um exemplo, eu acho que para toda a gente devia ser, e obviamente que o E é dedicado ao general Eanes.

Mas esse apreço todo que tem pelo general Ramalho Eanes vem também por aquilo que ele foi como presidente da República, o primeiro da Era Democrática, pela relação que mantiveram. Hoje no país discute-se curiosamente o possível regresso de um general ao cargo de presidência da República, refiro-me ao almirante Gouveia Melo. Veria isso com bons olhos?

Eu não sou político e não me quero meter nisso, mas eu acho que como é o general Ramalho Eanes nunca mais haverá ninguém. Com aquela coragem, com aquela seriedade, aquela verticalidade, o rigor de princípios, eu acho que como o general Eanes não haverá ninguém. Eu não acredito que houvesse um general que fosse presidente da República, mais nenhum, que ao ser-lhe concedido o título de marechal - que atualmente em Portugal não há nenhum - que rejeitasse e não aceitasse. Portanto, o Ramalho Eanes esqueça que não há mais nenhum. O problema de ser um militar - não estou a referir-me ao almirante, o ser um militar - eu acho que dá uma garantia de independência partidária. Porque, vou pelo PSD, vou pelo PSD, agora sou presidente da República, já não tenho partido, demito, sou todos portugueses. Está bem, acreditamos nisso. Agora, se ele se candidatar, só se aparecesse alguém excecional, que não estou a ver, não teria pejo nenhum em votar nele.

Já estamos a falar muito à frente, o que já presumo que tem um estado de espírito bastante melhor. Fale-nos um bocadinho do seu estado de saúde hoje.

Não sei.

O médico tinha-lhe dado ali um prognóstico um bocadinho negativo, falava ali em setembro.

Neste momento está mais ótimo. Eu digo aí no meu livro, no segundo capítulo, estava no Olival e fui visitado por dois médicos que não conhecia, um do IPO, outro da CUF, então puseram com clareza o que eu tinha e eu perguntei 'Oh doutor, mas isso dá para quanto tempo?" E ele disse: "Dois, três anos". Já passaram os três anos, portanto, já passei a meta, agora espero durar mais tempo, tempo suficiente para ainda escrever outro livro.

Quando é que vai estar nas bancas?

Eu acho que no dia 27, na apresentação, já vai ser vendido, nessa altura, na Alfândega e que no dia 28 estará nas livrarias à venda.

E o que é que vai ser esse dia 27 na Alfândega [do Porto]? Porque eu estou a imaginar assim, um evento, é de porta aberta aos adeptos?

É de porta aberta, entrada livre.

Então o que é que espera? Espera uma Alfândega cheia?

Muita gente. Não sei se estará cheia, aquilo leva a mil e duzentos lugares sentados, mas o que eu quero é ver lá amigos. Mesmo que estivessem só vinte e forem meus amigos, eu fico contente. No dia 28 vou começar a escrever um livro com as sensações e as emoções que tive no dia 27.

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