São criminosos que "só fazem vida disto": detenções de carteiristas aumentaram 43% e há duas explicações para isso

Andreia Miranda , Notícia corrigida às 14:31
8 abr 2025, 12:47
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Dados da PSP revelam que houve um aumento nas detenções e nas identificações

A PSP registou um aumento de 43% no número de detenções e de 28% no número de identificações em 2024. Já os dados referentes a furto por carteirista coincidem com os divulgados no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), tendo a PSP registado um aumento de 11% nas ocorrências.

"De entre as tipologias com maior representatividade, comparativamente com o ano anterior, destaca-se a subida no furto por carteirista (12%)", lê-se no RASI.

De acordo com os dados divulgados pela PSP - que não especificam, no entanto, onde foram feitas as detenções - foram feitas 149 detenções e identificados 379 suspeitos deste crime, em 2024, "o que corresponde a um aumento de 43% das detenções e de 28% de suspeitos identificados, comparativamente ao ano de 2023".

Dados divulgados no Relatório Anual de Segurança Interna

Em declarações à CNN Portugal, Hugo Costeira, especialista em segurança, considera que este aumento "tem a ver, obviamente, com um policiamento orientado para isso".

"Ou seja, todos nós sabemos que existem carteiristas. Todos nós sabemos que os carteiristas fazem grande parte dos roubos. Claramente que só pode haver um aumento das detenções se houver proatividade policial. Se não houver proatividade policial ninguém consegue fazer a detenção de um carteirista", considera, acrescentando que os carteiristas "são pessoas que operam em rede, às vezes até em rede familiar". 

Lembrando que "independentemente da sua nacionalidade, o carteirista é uma profissão centenária", Costeira reforça que o "sucesso ao combate ao carteirista, a esse fenómeno, depende única e exclusivamente de dois fatores" para que o número de criminosos que praticam este ilícito tenha aumentado.

"Primeiro, contribuição das vítimas. As vítimas têm de apresentar queixa. E muitas vezes as vítimas são cidadãos estrangeiros, que são lesados, mas às vezes, e até por questões de tempo, porque estão a ir embora, porque vão para o aeroporto, porque estão numa viagem num barco, uma coisa qualquer, naqueles cruzeiros, acabam por não apresentar queixa. Portanto, nós às vezes podemos não ter uma noção real de que o carteirista atuou. E depois, é realmente um crime que depende única e exclusivamente da proatividade policial. Quanto mais a PSP atuar, melhores serão os resultados", afirma.

Também Bruno Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Oficiais da PSP (SNOP), considera que o facto de a PSP ter criado, em 2018, "uma equipa formada por polícias pertencentes à estrutura de investigação criminal, especializados em crimes contra o património" ajuda a que os números de detenções aumentem.

"Se efetivamente investimos cada vez mais e permanentemente tivermos equipas dedicadas a isto, não tenho a mínima dúvida de que vai continuar a aumentar, até que um dia há-de cair. Nem que seja pelo simples facto de, ou eles deixam de vir para cá, ou passam a ter um receio maior por comparação a outros territórios da Europa. Mas, como digo, isto leva tempo", afirma, referindo ainda que dos 149 detidos no ano passado, a maioria terá sido "em Lisboa, ainda que o Porto também tenha alguns resquícios disto".

Segundo o presidente do SNOP, este tipo de crimes são cometidos por pessoas que "já têm décadas e décadas de referenciação na arte de cometer crimes por carterista" que atuam maioritariamente em "transportes públicos e zonas estratégicas" com muitos turistas.

"Estamos a falar ou de caras conhecidas e antigas ou de grupos itinerantes, que entre Portugal, Espanha, Itália e França, andam aqui neste rodopio circulatório na Europa. Portanto, vai apanhar pessoas que hoje aqui foram detidas, que foram detidas no mês passado em Roma, ou em Paris", afirma, acrescentando que o fenómeno dos grupos filmados a atuar em locais como o metro de Londres ou de Paris também já se verifica cá.

Bruno Pereira explica que estes grupos atuam sempre, no mínimo, com duas pessoas. "O primeiro cria um incómodo ou a distração: dá-lhe um encontrão ou um encosto para que a vítima se fixe nela enquanto a outra pessoa aproveita para conseguir aceder à carteira, à mochila e furtar". 

O presidente do SNOP diz ainda que os detidos por este crime "só fazem vida disto e por isso é que eles andam itinerantemente pela Europa a cometer este tipo de crimes".

"Porque pode parecer pouco, uma carteira. Mas um turista pode andar com 500/600 euros numa carteira. Se fizerem quatro ou cinco carteiras por dia, se cada grupo fizer quatro ou cinco carteiras por dia há, obviamente, todo o impacto de má publicidade que isto tem para o turismo português. Porque a verdade é que é um crime que não impacta - porque eu não o sinto, só me apercebo dele depois - mas é particularmente destruidor da sensação de segurança".

A CNN Portugal contactou a Direção Nacional da Polícia de Segurança Pública para obter mais informações sobre este tipo de crime. Foi esclarecido que a maioria das vítimas são turistas portugueses e estrangeiros, havendo particular incidência do crime na cidade de Lisboa.

De acordo com o comunicado, em 2024 foram registadas 5.762 ocorrências na zona de atuação da PSP, "o que equivale a uma média de cerca de 16 cidadãos por dia a praticar este crime".

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