Aumento de atividade junto à instalação voltou a levantar dúvidas sobre os alegados objetivos iranianos de produzir armas nucleares. A confirmar-se a ofensiva norte-americana, especialistas garantem que simples ataques aéreos poderão não produzir os efeitos pretendidos
O presidente Donald Trump continua a afirmar que os Estados Unidos vão atacar a Pickaxe Mountain, no Irão, voltando a centrar as atenções na alegada instalação nuclear subterrânea onde Israel acredita que Teerão armazenou parte das suas reservas de urânio enriquecido e centrifugadoras avançadas de enriquecimento.
"Vamos atacar essa zona, muito provavelmente, muito em breve. E eles não podem fazer absolutamente nada para o impedir", afirmou Trump esta terça-feira.
Em resposta, Teerão avisou que qualquer ataque norte-americano contra instalações nucleares iranianas será encarado como uma expansão do conflito na região, noticiaram os meios de comunicação estatais nas primeiras horas desta quarta-feira.
Eis o que se sabe sobre a Pickaxe Mountain.
O que é?
A Pickaxe Mountain é uma instalação fortemente fortificada, localizada em profundidade no subsolo, no centro do Irão, a cerca de 1,6 quilómetros a sul da instalação de enriquecimento de urânio de Natanz, anteriormente bombardeada pelos Estados Unidos e por Israel, o que a torna um alvo difícil para ambos os países, bem como para qualquer eventual operação terrestre.
A instalação está enterrada a pelo menos 100 metros de profundidade sob uma grande montanha chamada Kuh-e Kolang Gaz La, sendo que Kolang significa "picareta", segundo o Institute for Science and International Security (ISIS).
A construção da instalação começou em 2020. Na altura, o Irão declarou a instalação à Agência Internacional da Energia Atómica (AIEA), das Nações Unidas, como uma futura unidade destinada à montagem das centrifugadoras utilizadas para produzir combustível nuclear.
Acredita-se que a instalação ainda não esteja operacional, mantendo-se os trabalhos de construção em curso. Essas obras poderão ter-se intensificado no último ano, com o aumento da atividade no local, depois de Israel e os Estados Unidos terem atacado outras instalações nucleares iranianas em junho de 2025. Entre as instalações atingidas encontrava-se o complexo de enriquecimento de urânio de Natanz, situado a poucos quilómetros da Pickaxe Mountain.
Existem várias explicações possíveis para este aumento da atividade na instalação de Pickaxe Mountain, segundo o Center for Strategic & International Studies. O Irão pode estar a construir centrifugadoras, tal como informou as Nações Unidas; pode estar a expandir a missão da instalação, transferindo para ali operações provenientes de outras instalações destruídas; ou pode estar a criar uma instalação secreta destinada ao enriquecimento de urânio, um elemento essencial para a produção de armas nucleares.
Existe urânio enriquecido no local?
Os serviços de informações israelitas acreditam que o Irão transferiu parte das suas reservas de urânio enriquecido e das suas centrifugadoras avançadas de enriquecimento para a Pickaxe Mountain após os ataques de junho do ano passado, disse à CNN uma fonte israelita informada sobre o assunto.
Durante essa guerra de 12 dias, Israel atacou três importantes instalações nucleares iranianas - Natanz, Isfahan e Fordow - e matou vários dos principais cientistas envolvidos na investigação e desenvolvimento nuclear. Os Estados Unidos juntaram-se ao conflito perto do final da guerra, atacando as mesmas três instalações com bombas muito mais potentes, operações após as quais Trump afirmou que as capacidades nucleares do Irão tinham sido "obliteradas". No entanto, nem os Estados Unidos nem Israel atacaram a Pickaxe Mountain.
Posteriormente, informações das secretas dos Estados Unidos e das Nações Unidas indicaram que partes do programa nuclear iraniano permanecem intactas, embora danificadas. Desde então, passou a ser um objetivo comum dos Estados Unidos e de Israel levar o Irão a desfazer-se das suas reservas de quase 450 quilogramas de urânio altamente enriquecido, ou retirá-lo das suas mãos.
A CNN noticiou anteriormente que o Irão intensificou significativamente os esforços para selar o local onde guarda o seu urânio quase apto para fabrico de armas nucleares, provocando deliberadamente o colapso de túneis e armadilhando as entradas com minas explosivas.
Questionado na terça-feira sobre se o Irão tinha transferido as suas centrifugadoras avançadas para a Pickaxe Mountain, Trump pareceu desvalorizar as informações israelitas, dizendo: "Não temos isso registado."
No início de julho, uma alta fonte da segurança em Teerão disse à CNN que as alegações de que decorrem atividades nucleares na Pickaxe Mountain são falsas.
O Irão continua a afirmar que o seu programa nuclear tem exclusivamente fins pacíficos relacionados com a produção de energia e que pretende construir mais centrais nucleares para satisfazer as necessidades energéticas internas e libertar mais petróleo para exportação.
Poderá ser atacada pelos Estados Unidos e por Israel?
Os analistas estão divididos.
A especialista em não proliferação Andrea Stricker disse à CNN que Donald Trump devia atuar para neutralizar a Pickaxe Mountain, de forma a impedir o Irão de "reconstituir uma capacidade de enriquecimento ou de desenvolvimento de armas nucleares e de ter acesso a milhares de centrifugadoras que representam o que resta do seu programa nuclear".
Embora uma operação terrestre fosse complexa, o relatório do Institute for Science and International Security apontou várias formas de ataque possíveis.
A instalação secreta necessita de ventilação, aquecimento, refrigeração, abastecimentos, fornecimento de energia e pessoal, fatores que representam "vulnerabilidades que os Estados Unidos e Israel parecem ter capacidade para explorar", refere o relatório.
No entanto, ataques aéreos poderão não produzir o efeito pretendido, uma vez que a parte principal da instalação se encontra provavelmente enterrada a grande profundidade.
James Acton, co-diretor do programa de política nuclear da Carnegie Endowment, escreveu na rede social X que duvida que os Estados Unidos consigam fazer muito mais do que provocar o colapso dos túneis de acesso à instalação da Pickaxe Mountain. "Isso não altera significativamente a situação", afirmou Acton.
