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Professor de Economia no ISCAL

Cenário Macroeconómico da AD: A Wishful Thinking Story

5 mai 2025, 10:22

A campanha eleitoral para as eleições legislativas de 2025 arrancou oficialmente neste domingo. Trata-se de um período no qual os partidos concorrentes avançarão com ações junto aos eleitores, com o desafio de os esclarecer sobre a virtude e validade das medidas que constam nos seus programas e de os convencer com a visão que têm para o país.

Porém, principalmente para os líderes partidários que aspiram ao cargo de primeiro-ministro, exige-se também a apresentação de resultados mensuráveis com os quais se comprometem. Assim sendo, o escrutínio dos cenários macroeconómicos e orçamentais apresentados nos programas eleitorais assume uma importância central para aferir a credibilidade e a confiança nos atores políticos, bem como nas suas estratégias.

Foi, portanto, com alguma surpresa que me deparei com o cenário macroeconómico da AD que, sendo a coligação incumbente, carrega uma responsabilidade acrescida nesta campanha eleitoral. Num momento em que algumas das principais economias europeias enfrentam riscos de recessão e a imprevisibilidade da política comercial norte-americana ameaça provocar uma crise económica à escala global, a AD acredita que a economia portuguesa acelerará nos próximos anos: 2,4% em 2025; 2,6% em 2026; 2,9% em 2027 e 3,2% em 2028 e 2029.

Um eventual otimismo presente no cenário macroeconómico não representa, no entanto, apenas um compromisso ousado e ambicioso. Tendo em conta que tal cenário serviria de base para o exercício orçamental a executar no futuro, poderá também revelar falta de prudência. Uma vez que o programa da AD apresenta uma curta margem orçamental, caso a economia não tenha o desempenho esperado, Luís Montenegro ficaria perante duas hipóteses: ou não cumpre as promessas eleitorais, ou conduz o país, uma vez mais, para défices orçamentais.

Se já eram conhecidas as divergências dessas previsões face às do Banco de Portugal ou do Conselho das Finanças Públicas, no final de abril foi a vez do FMI – alheio à realidade eleitoral – divulgar o seu World Economic Outlook, com novas projeções para os próximos anos. Não obstante continuar a convergir com a média da Área do Euro, o FMI prevê que o crescimento português não ultrapasse os 2% em 2025 e que abrande, no ano seguinte, para apenas 1,7%. Valores muito inferiores aos projetados pela AD e coerentes com o contexto internacional no qual Portugal se encontra.

Ficámos a conhecer também, no passado dia 2 de maio, a estimativa rápida do Instituto Nacional de Estatística para o 1.º trimestre de 2025, a qual revelou que, ainda antes do “dia de libertação” de Donald Trump e, portanto, quando a instabilidade e a desconfiança no quadro internacional ainda não se faziam sentir de forma tão acentuada, a economia já havia desacelerado para 1,6% (crescera 2,8% no trimestre precedente).

Num panorama marcado pela incerteza, por que razão optou a AD por apresentar um cenário tão otimista? Escrevi no site da CNN Portugal, ainda antes de serem conhecidos os programas, sobre como os resultados eleitorais podem ser determinados por fatores económicos e pela importância da perceção de prosperidade e confiança. Contudo, o principal motivo reside no facto de que apenas com um desempenho económico desta natureza ser possível suportar o elevado custo das suas medidas.

Em política, a credibilidade não se constrói apenas com promessas ambiciosas, mas com previsões prudentes e compromissos exequíveis. O contraste entre o discurso e a realidade empírica pode não só fragilizar a confiança dos eleitores, como comprometer a própria governação futura. Cabe, pois, aos partidos – e, em particular, aos eleitores – o dever de resistir à sedução do irrealizável e exigir cautela e realismo no desenho do futuro coletivo.

Nota: O autor exerceu funções como adjunto nos XXI, XXII e XXIII Governos Constitucionais.

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