O comboio de tempestades que atingiu Portugal, mas acima de tudo os efeitos dos ataques dos EUA e de Israel ao Irão vão penalizar a economia portuguesa e as famílias, segundo o Banco de Portugal. Haverá mais inflação e menos crescimento económico. Apesar do cenário adverso, o emprego melhora
O Banco de Portugal reviu em baixa a sua previsão para o crescimento da economia portuguesa em 2026 e em alta a previsão para o crescimento dos preços em resultado do ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, mas também em resultados das condições meteorológicas extremas que atingiram Portugal em fevereiro. No Boletim Económico de Março, divulgado esta quarta-feira, a instituição liderada por Álvaro Santos Pereira prevê, agora, que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026 seja de apenas 1,8%, quando em dezembro do ano passado apontava para um crescimento de 2,3%. Ao mesmo tempo, o banco revê em alta a previsão para o crescimento dos preços, passando de uma estimativa de 2,1% para 2,8% para a taxa de inflação.
"A atividade económica em Portugal deverá crescer 1,8% em 2026, 1,6% em 2027 e 1,8% em 2028, enquanto a inflação deverá aumentar para 2,8% em 2026 e diminuir para 2,3% em 2027 e 2,0% em 2028", lê-se no documento. A revisão do cenário macroeconómico para Portugal é justificada pelo Banco de Portugal com "deterioração do enquadramento externo, na sequência do ataque lançado pelos Estados Unidos e Israel ao Irão no final de fevereiro." Em resultado destes ataques, explica o banco, registou-se uma "subida abrupta e significativa dos preços das matérias-primas energéticas" que terão "um impacto negativo na atividade e positivo na inflação, sobretudo em 2026".
Recorde-se que na proposta de Orçamento do Estado para 2026, o Governo apontava para um crescimento da economia este ano de 2,3% e uma taxa de inflação de 2,1%.
No Boletim Económico, o Banco de Portugal lembra ainda que as projeções que apresenta estão assentes nas "hipóteses quanto à evolução do conflito (...)
implícitas nos mercados financeiros à data de fecho deste boletim", ou seja, pressupondo "uma duração relativamente limitada e efeitos contidos sobre a confiança dos agentes e as cadeias de abastecimento globais". O Banco de Portugal salienta, no entanto, que "existe uma elevada incerteza, e uma intensificação ou prolongamento do conflito implicam riscos acentuados para a projeção. O banco lembra ainda que as condições meteorológicas extremas registadas no início do ano também vão afetar "a evolução da atividade em 2026".
Ainda assim, e apesar deste quadro "globalmente adverso", o Banco de Portugal diz que "existem fatores que continuam a sustentar o crescimento neste ano, como a solidez do mercado de trabalho, o ímpeto associado ao PRR e a orientação expansionista da política orçamental".
O emprego continua a ser, aliás, a variável chave no cenário macroeconómico ao ponto de, mesmo havendo uma revisão em baixa do crescimento económico, o Banco de Portugal aponta para uma aceleração do crescimento do emprego face às últimas previsões de dezembro. Em dezembro o banco previa um crescimento do emprego de 1,1% para 2026, e agora prevê que esse crescimento seja de 1,3%. E com base nesta evolução, também a taxa de desemprego deverá registar uma diminuição face à última projeção: em dezembro apontava-se para uma taxa de desemprego de 6,3% em 2026 e, agora, aponta-se para um valor de 5,9%.
