Três ataques de drones em apenas 12 dias transformaram Tuapse, uma cidade turística russa no Mar Negro, num cenário de desastre ambiental. A refinaria de petróleo da Rosneft voltou a ser atingida e especialistas alertam para contaminação do ar, do solo, do rio e do mar, numa situação já descrita como a mais grave da região em vários anos
Pela terceira vez em 12 dias, a cidade russa de Tuapse, no Mar Negro, acordou na terça-feira com cenários apocalípticos.
Densos fumos tóxicos e chamas provocados pelo mais recente ataque de drones ucranianos à refinaria de petróleo de Tuapse, pertencente à Rosneft, quase alcançaram a altura das montanhas do Cáucaso que rodeiam a cidade.
Na manhã de quinta-feira, as autoridades disseram que o incêndio tinha sido extinto. Os fogos provocados pelos dois ataques anteriores, a 16 e 20 de abril, também demoraram dias a ser apagados, com substâncias tóxicas a caírem em forma de chuva negra e a cobrirem carros e ruas com uma camada oleosa, levando especialistas a classificarem a situação como o pior desastre ambiental na região em vários anos.
“A cidade está a sufocar com o fumo”, escreveu um residente nas redes sociais.
Localizada a cerca de 110 quilómetros a noroeste de Sochi, que acolheu os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, Tuapse faz parte da zona turística subtropical ao longo da costa do Mar Negro, outrora conhecida como a “Riviera Russa” pela sua popularidade entre os russos como destino de férias de verão. A refinaria da cidade, ligada a um terminal marítimo, é um importante centro de processamento e exportação de petróleo para a Rússia e tem sido repetidamente alvo da Ucrânia nos últimos meses.
“O petróleo está literalmente a cair do céu. Não conseguimos respirar. A cidade inteira cheira a fuelóleo, que pinga sobre os carros”, disse à CNN Elmira Ayrapetyan, empresária que dirige uma agência de branding em Krasnodar e que se deslocou a Tuapse para ajudar nas operações de limpeza.
Voluntários juntaram-se no local em parte porque demorou quase duas semanas — e três ataques em rápida sucessão — até que as autoridades regionais e federais reagissem.
Na terça-feira, o Kremlin reconheceu pela primeira vez a situação, e o Presidente Vladimir Putin enviou ao local o ministro das Emergências, Aleksandr Kurenkov, para coordenar a resposta ao incêndio. “A situação não é fácil, mas está controlada”, afirmou o ministro.
O governador da região de Krasnodar tinha usado a mesma expressão mais cedo nesse dia, enquanto avaliava os danos, com chamas e fumo ainda a invadirem as ruas.
Uma verdadeira catástrofe ambiental
Putin aproveitou o desastre para repetir acusações já conhecidas contra a Ucrânia de realizar “ataques terroristas” contra civis russos e infraestruturas energéticas.
Numa reunião de segurança na noite de terça-feira, afirmou que os ataques a Tuapse “podem potencialmente causar graves consequências ambientais”, mas acrescentou que “parece não haver ameaças graves; as pessoas estão a lidar com os desafios no terreno”.
Especialistas ambientais têm uma visão diferente.
“É uma verdadeira catástrofe ambiental, pelo menos à escala regional. Não havia nada assim há vários anos”, referiu à CNN o ecologista e ativista político da oposição Yevgeny Vitishko, numa entrevista realizada antes do ataque de terça-feira.
Imagens de satélite e vídeos nas redes sociais verificados pela CNN mostram que o petróleo se espalhou pelo rio Tuapse e pelo mar, com partes da costa sul russa do Mar Negro ainda cobertas de fuelóleo, embora parte da principal praia de Tuapse parecesse já limpa na terça-feira.
Uma análise da CNN a imagens de satélite de domingo, antes do ataque mais recente, mostra vestígios de petróleo espalhados por pelo menos 50 quilómetros a partir da costa. O ministro das Emergências da Rússia anunciou na terça-feira que seriam colocadas “em breve” barreiras para evitar “possíveis fugas para o mar”.
“O importante aqui é que a situação em Tuapse envolve contaminação simultânea de vários ambientes: o ar, o solo numa grande área, o rio que atravessa a cidade e o Mar Negro”, explicou à CNN o ecologista russo Dmitry Lisitsyn. “Trata-se de um desastre ambiental altamente complexo, cuja verdadeira dimensão ainda é difícil de avaliar nesta fase.”
Lisitsyn comparou ainda a rara chuva saturada de petróleo ao que aconteceu no Irão no mês passado, quando ataques aéreos atingiram um depósito de petróleo em Teerão, provocando a evaporação de combustível em fumo tóxico e, mais tarde, chuva com resíduos petrolíferos. “Para resíduos de petróleo caírem do céu em aglomerados — aquilo a que se pode chamar ‘chuva de petróleo’ — é extremamente raro”, afirmou.
“Vamos certamente assistir a um aumento de doenças respiratórias e, muito provavelmente, oncológicas no futuro”, sublinhou Vitishko, residente de Tuapse e também responsável por um grupo de trabalho sobre ecologia junto do gabinete do governador. Acrescentou ainda que substâncias cancerígenas poderão acumular-se no organismo, especialmente através da água. O Kremlin evitou responder na quarta-feira a uma pergunta da CNN sobre os impactos de saúde a longo prazo da contaminação.
Vitishko defendeu que deveria ter havido uma resposta mais rápida, “pelo menos para isolar crianças, jardins de infância e escolas”. As autoridades locais evacuaram residentes das zonas próximas da refinaria na terça-feira, mas os serviços de saúde só aconselharam a permanência em casa e o uso de máscaras dois dias depois do segundo ataque. O encerramento das escolas em toda a cidade foi anunciado para terça e quarta-feira desta semana, embora alguns jardins de infância tenham permanecido abertos.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse à CNN na quarta-feira que ainda era “demasiado cedo para avaliar” se as autoridades deveriam ter agido mais depressa para evitar riscos ambientais e de saúde.
Ucrânia intensifica ataques à energia
A Ucrânia assumiu a autoria dos três ataques à refinaria “como parte dos esforços para reduzir o potencial militar e económico do agressor russo”, numa declaração emitida pelo Estado-Maior após o ataque de terça-feira.
Kyiv tem vindo há meses a intensificar ataques de drones de longo alcance contra infraestruturas energéticas críticas da Rússia, numa tentativa de reduzir o orçamento de guerra de Moscovo e complicar a logística militar. A estratégia continuou e até foi reforçada à medida que Moscovo beneficiou da disrupção no fornecimento global de energia causada pela guerra entre os EUA, Israel e o Irão, mesmo perante “sinais” de alguns aliados para reduzir essa ofensiva, referiu o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky aos jornalistas no final de março.
“Se a Rússia estiver preparada para deixar de atacar o setor energético da Ucrânia, nós não retaliamos contra o setor energético russo”, afirmou. Os repetidos ataques russos às infraestruturas elétricas da Ucrânia provocaram cortes generalizados de energia, agravados ao longo de quatro invernos de guerra.
Na quinta-feira, colunas de fumo ergueram-se sobre outra cidade russa, quando infraestruturas energéticas em Perm, a cerca de 1.450 quilómetros da fronteira ucraniana, foram atacadas pelo segundo dia consecutivo. Kyiv confirmou na quarta-feira ter atingido uma estação de bombagem de petróleo. O governador de Perm confirmou um ataque de drones a “uma das instalações industriais”.
A refinaria de Tuapse já estava “praticamente fora de operação” após ataques anteriores de drones ucranianos no outono passado, disse Sumit Ritolia, gestor sénior da empresa de inteligência de matérias-primas Kpler, em declarações escritas à CNN. Estes novos ataques irão “atrasar o reinício das operações e limitar o manuseamento de produtos e exportações, mesmo quando a atividade for retomada”.
Para a empresária Ayrapetyan, que ajudou a coordenar voluntários durante outro desastre no Mar Negro, quando dois petroleiros derramaram a sua carga perto de Anapa no final de 2024, tudo isto é demasiado familiar.
“Em Anapa tivemos de esperar duas semanas até o Ministério das Emergências chegar”, afirmou à CNN, acrescentando que acredita que a situação em Tuapse é muito pior e exigirá um esforço de resposta significativamente maior.
“É um mar de fuelóleo”, afirmou. “A cidade não recebeu a ajuda de que precisa.”
Para o ecologista Lisitsyn, a falta de informação é igualmente preocupante. “Quarenta anos depois do desastre de Chernobyl, nada mudou… Na altura havia pouca ou nenhuma informação para a população sobre o nível de poluição e a sua propagação, e agora é muito semelhante.”
*Farida Elsebai contribuiu para esta reportagem