António Costa Silva é um dos maiores especialistas no mercado da Energia em Portugal. Em entrevista à CNN Portugal, avisa que a situação pode piorar drasticamente
Há refinarias a arder, petroleiros parados e países a anunciar grandes cortes na produção de petróleo. Assim que estalou uma nova guerra no Médio Oriente, percebeu-se rapidamente que o setor energético ia ser especialmente afetado.
E não é para menos. Como lembra António Costa Silva, que foi presidente da Comissão Executiva da Partex durante 17 anos, ainda antes de abraçar o desafio de ministro da Economia, falamos daquele que é o “coração do sistema energético internacional”.
“Se compararmos isso com o funcionamento do corpo humano, o que está a acontecer é que a aorta e as veias que alimentam o corpo da economia mundial estão a ser vergastadas, e isso é extremamente preocupante”, assumiu.
Para o especialista, os ataques israelitas à energia iraniana já eram um cenário grave, mas a retaliação do Irão agrava tudo. Exemplo disso é o que está a acontecer em Ras Tanura, a maior refinaria da Arábia Saudita e a que produz mais barris de petróleo por dia - são sete milhões de barris por dia.
Logo ali ao lado, explica Costa Silva, há o maior campo do mundo, um “relógio suíço que produz cinco milhões de barris por dia”. E toda essa produção está parada, sendo que também o Iraque anuncia o corte de três milhões de barris por dia.
“Temos aqui uma situação difícil na aorta do sistema internacional e na produção de petróleo”, assume.
E a situação não pára por aí, porque no Catar está o maior campo de produção de gás natural, também encerrado.
Tudo isso explica, segundo especialista, a primeira subida de 13% do petróleo, que continua a subir, ainda que não de forma tão abrupta.
“Nós temos aqui aquilo que configura, como tivemos na invasão da Ucrânia pela Rússia, uma crise energética que está a germinar, e tudo depende da extensão do conflito”, aponta.
Questionado sobre um possível surto inflacionista, Costa Silva é taxativo: sim, é possível traçar esse cenário, que acontece quando o mundo começa a chegar a um cenário de alguma estabilidade depois de uma forte inflação que se seguiu à covid-19 e aos primeiros meses de guerra.
Com o preço do barril de petróleo já acima dos 80 dólares, o especialista admite que a subida pode não parar por aí. O problema será maior quando e se esse valor começar a chegar aos 90 dólares e, mais problemático, à barreira dos 100 dólares.
“Estou convencido que se o conflito se arrasta por mais uma semana ou duas, vamos ter os preços do petróleo a aproximarem-se dos 90 dólares e muito provavelmente dos 100 dólares”, reitera, admitindo também uma grande subida do gás natural.