Ministro das Finanças afasta, para já, cenário de inflação e de subida das taxas de juro, mas admite que situação pode piorar caso a guerra não chegue ao fim
O ministro das Finanças admitiu que as consequências económicas do que se está a passar no Médio Oriente vão depender diretamente da duração e da extensão do conflito, numa altura em que nove dias de guerra já fizeram disparar os preços do petróleo, provocando aumentos evidentes nos combustíveis, mas colocando no horizonte uma inflação que pode provocar a subida de tudo, até das taxas de juro.
A partir de Bruxelas, onde esteve reunido com os ministros das Finanças dos outros países da União Europeia, Joaquim Miranda Sarmento lembrou que grande parte do consumo mundial de petróleo e de gás natural vem precisamente daquela região, ainda que Portugal não importe combustíveis do Médio Oriente, o que não quer dizer que estejamos fora de perigo.
“Se o conflito perdurar no tempo e na extensão, abrangendo uma parte significativa da região, há naturalmente motivos de preocupação”, disse, pedindo um olhar para o desafio da Europa, que deve passar pela redução da independência em relação aos combustíveis fósseis, algo que já tinha ficado claro depois da invasão da Rússia à Ucrânia.
Miranda Sarmento sublinhou que é “cedo” e até “precipitado” falar dos impactos da crise na inflação e, sobretudo, nas taxas de juro. Comparando com 2022, o ministro das Finanças lembra a coincidência de um choque do lado da oferta e outro do lado da procura, já que os mercados também estavam a regressar da pandemia.
“Em 2022 foi um choque simultâneo de procura e de oferta. Creio que ainda é cedo para especularmos ou antevermos, para já, subidas das taxas de juro. Estamos apenas perante um choque de oferta e a política monetária é muito mais eficaz para choques de procura”, acrescentou.
Ainda assim, Miranda Sarmento quis deixar claro uma coisa: “O país tem de atender que, se este conflito durar muito tempo, envolver aquela região e os principais produtores de petróleo e gás natural daquela região, haverá, naturalmente, consequências económicas ao nível do crescimento, e consequências ao nível financeiro e orçamental”.
De resto, o caso de Portugal é ainda “agravado” pelo “comboio de tempestades que atingiu grande parte do tecido empresarial das zonas de Coimbra e Leiria entre o fim de janeiro e início de fevereiro.
“Olhamos com preocupação para o desenvolver do conflito e temos de estar preparados para impactos no crescimento da economia e nas contas públicas”, frisou, sublinhando que é necessário manter as contas equilibradas, sempre numa perspetiva de redução da dívida pública.
Em todo o caso, Miranda Sarmento admitiu também que Portugal possa registar défice em 2026 “se as circunstâncias o impuserem”, dado o impacto das tempestades e, agora, do conflito no Médio Oriente.
“Nós mantemos o compromisso de ter as contas públicas equilibradas. Nós não podemos excluir situações de défice se as circunstâncias assim o impuserem, mas continuamos com o compromisso do equilíbrio das contas públicas, da redução da dívida pública”, afirmou Joaquim Miranda Sarmento, em declarações aos jornalistas portugueses em Bruxelas antes da reunião do Eurogrupo.
No dia em que se registam aumentos acentuados dos preços do gás natural e do petróleo, o ministro português das Finanças apontou que “os bons resultados de 2025 [….] permitiam olhar para 2026 com um caminho [macroeconómico] um bocadinho menos estreito, mas agora, com o comboio de tempestades e este conflito, o caminho voltou a ficar bastante estreito”.