Erro informático revela o esquema labiríntico que está a permitir à Rússia financiar a guerra na Ucrânia

20 fev, 14:23
Um petroleiro de crude espera a sua vez para ser carregado no Lago Maracaibo, em Maracaibo, Estado de Zulia, Venezuela, a 9 de maio de 2025. Federico Parra/AFP/Getty Images

Centenas de empresas servem de fachada para transportar o petróleo russo, mas o esquema foi posto a nu

Que a Rússia financia grande parte da guerra na Ucrânia com dinheiro do petróleo já se sabe, mas tem sido pouco clara a forma como Moscovo continua a conseguir transportar e vender combustível um pouco por todo o mundo.

Agora, e num erro que parece amador para um gigante como a Rússia, podemos estar mais perto de perceber como tem sido feita toda esta operação. De acordo com o Financial Times, um erro informático revelou parte da alegada rede de contrabando operada por Moscovo.

Só aqui foi possível identificar 90 mil milhões de dólares em movimento com a venda de petróleo russo, de acordo com o jornal britânico, que sinalizou 48 empresas aparentemente independentes que trabalham a partir de diferentes endereços físicos e parecem estar a operar em conjunto para disfarçar a origem do petróleo que movimentam.

E essa origem é, em grande parte, a Rosneft, uma das muitas empresas petrolíferas controladas pelo Estado russo, e que desempenham um papel central no financiamento da guerra na Ucrânia.

O mais curioso é que estas ligações foram descobertas porque todas elas partilham o mesmo servidor de email, o que desmascarou a operação bem montada para fazer fluir o petróleo através de terceiros.

Este esquema tornou-se particularmente importante a partir de outubro de 2025, quando os Estados Unidos colocaram a Rosneft e a Lukoil, duas das principais petrolíferas russas, debaixo de sanções.

Coincidentemente com essa data, emergiu uma empresa até então desconhecida. A “Redwood Global Supply” apareceu de repente como o maior exportador individual de petróleo russo, lançando as suspeitas sobre o que se estava a passar.

De acordo com o Financial Times, trata-se de uma empresa ligada a um grupo de empresários do Azerbaijão que têm fortes ligações à Rosneft.

De acordo com a ministra dos Negócios Estrangeiros da Letónia, esta empresa é detida por “contrabandistas que tornam a aplicação do preço máximo do petróleo quase impossível”, o que permite à Rússia contornar as sanções que o Ocidente vai tentando aplicar, num constante jogo do gato e do rato que Moscovo vai conseguindo ganhar, uma vez que continua a conseguir escoar o seu produto.

“É por isso que todo o ecossistema tem de ser sancionado para salvar as vidas dos ucranianos”, acrescentou Baiba Braže.

De acordo com três responsáveis da União Europeia que falaram ao Financial Times, esta nova descoberta pode ser utilizada para impor sanções renovadas, até porque algumas das entidades que a Rússia utiliza para se esconder já estavam no “radar” europeu. Prova disso é que a "Redwood Global Supply", que está sediada nos Emirados Árabes Unidos, já é alvo de sanções do Reino Unido desde dezembro de 2025.

“Vemos um aumento dos complexos padrões e novos atores a emergir para tentar contornar as nossas medidas. O que tentamos fazer com todos os pacotes de sanções é tornar este contorno mais difícil, menos antecipável, menos fiável e mais caro”, refere o homem destacado pela União Europeia para as sanções, David O’Sullivan.

Ao todo, o Financial Times conseguiu identificar um total de 442 domínios online que os registos públicos confirmam que utilizam o mesmo servidor para trocar emails, o “mx.phoenixtrading.ltd”, o que significa que partilham funcionalidades na Internet.

A partir daí, o jornal britânico conseguiu traçar uma série de comparações que confirmaram as suspeitas de que a Rússia está mesmo a utilizar empresas para esconder as suas atividades.

Embora os dados consultados cheguem aos 90 mil milhões de dólares, o jornal britânico admite que o montante transacionado com recurso a este esquema deve ser bem maior, até porque há vários documentos incompletos.

A verdadeira escala desta rede não é clara, até porque muitas outras empresas parecem interagir da mesma forma, ainda que não seja óbvio que trabalham a favor da Rússia. Além disso, a existência de quase outros 400 domínios não ligados ao transporte de petróleo sugerem que o mesmo esquema serve para mais do que transportar o ouro negro.

Apesar de continuar a ser uma das principais fontes de financiamento da Rússia, o petróleo corre agora alguns riscos, uma vez que as sanções se começam a fazer notar. É que os Estados Unidos decidiram alargar o cerco, passando também a atuar sobre quem compra. Foi o caso da Índia, que concordou em reduzir a compra de petróleo russo em troca de um acordo com Washington DC.

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