ENSAIO || Todos sentiremos o impacto de mais uma guerra nos preços da energia. E o que fará Washington com o seu quase-monopólio de exportação de gás natural? Outros tentarão responder com energia nuclear, mas em Portugal e Espanha, as tantas vezes criticadas energias renováveis - solar, eólicas, barragens - oferecem-nos um amortecedor único. E já agora, olhe para os seus preços na eletricidade: nas casas, pode fazer sentido ter provisoriamente um tarifário indexado ao valor horário; e nas empresas, ter contratos directamente com produtores solares
Quando o Ever Given bloqueou o Suez em 2021, o mundo aprendeu, à força, como uma disrupção de dias pode inflacionar o frete global, e os preços, durante meses. Em 2024, os Houthis forçaram desvios de rotas pelo Cabo da Boa Esperança, com frete a duplicar e acabando por alcançar aumentos de mais de 300%.
Hoje, 3 de março de 2026, o Estreito de Ormuz está fechado. Após ataques conjuntos EUA-Israel ao Irão e retaliação iraniana de forma surpreendentemente dispersa (incluindo danos infligidos a pelo menos cinco petroleiros e ameaças do IRGC de "incendiar" qualquer navio que tente passar), o tráfego parou quase por completo. Cerca de 20% do petróleo mundial e volumes massivos de gás natural liquefeito (GNL) estão neste momento bloqueados sendo que o Catar anunciou mesmo a paragem de produção de gás devido a ataques a refinarias. O Brent já sobe para 83 dólares por barril, com previsões de ultrapassar os 100 dólares se a paralisia durar.
O Estreito de Ormuz é essencialmente utilizado para transporte de gás e petróleo dos imensos países produtores que circundam a zona. O impacto direto na cadeia de abastecimento de gás será inevitavelmente significativo, mas considerar que apenas os petroleiros serão afetados por uma guerra aberta que eclodiu por todo o Médio Oriente é estar a ser demasiado redutor. Esta dispersão na zona de conflito irá impactar todos os produtos que transitem pela zona — e são muitos. EUA e Europa vão ser impactados pelo aumento e escassez de alguns produtos e matérias-primas enquanto os ataques perdurarem e talvez até muito depois de os mesmos pararem. Numa economia globalizada, os bens têm de circular de forma rápida, segura e eficaz. Caso contrário, tudo cai como um baralho de cartas.
O estado de guerra gerado pelos múltiplos ataques do Irão, e o consequente impacto na segurança da zona, irá afetar muito mais do que o estreito de Ormuz — e o Irão está a tentar tirar partido disso mesmo. O Irão, na realidade, não precisa de fechar fisicamente o Estreito para o tornar intransitável. Basta a ameaça credível e ataques seletivos para globalizar o custo económico de transporte e bens.
Teerão demonstrou repetidamente que domina a "arma da insegurança". As bases americanas na região - Bahrein, Catar, EAU - garantem projeção de poder dos EUA, mas convertem esses países em alvos potenciais e talvez preferenciais. Os EUA operam de forma descentralizada ("cloud warfare"), mas isso não os imuniza. Qualquer retaliação iraniana pode atingir ativos logísticos em solo aliado. Em bom rigor, atacar outros países é mesmo a única forma que o Irão tem de afectar os EUA.
A situação é efetivamente muito complexa e, pela primeira vez, coloca imensos países em simultâneo na rota de guerra, e todos nós iremos sentir os resultados da campanha. Podemos não defender o Irão, mas temos de entender que este seria o resultado previsível. Os EUA e Israel sabiam disso mas será que contavam com isto?
Energia global
O impacto na economia global vai muito além do petróleo. O frete de superpetroleiros atingiu máximos históricos, há seguros de guerra cancelados, navios encalhados. A Europa e os EUA podem não sentir escassez imediata de GNL, matérias-primas e mesmo componentes, mas o impacto não tardará muito. A economia globalizada cai como peças de dominó quando a circulação segura falha - e a circulação da zona além de Ormuz já falhou.
Com a disrupção criada no Médio Oriente, serão os europeus capazes de antecipar o que os Estados Unidos farão com o poder de serem a única real alternativa para o fornecimento de gás e petróleo, agora que a Rússia está fora de jogo e os fornecedores do Médio Oriente estão lesionados? Bernardo Mota Veiga
É certo que a guerra na Europa lhe trouxe resiliência na cadeia de abastecimento, mas também é certo que muita dessa resiliência adveio precisamente dos mesmos Estados Unidos que, em momentos chave, deram primazia a vontades unilaterais (tarifas, pressões na NATO, Gronelândia, Ucrânia).
A resiliência construída em cima do pressuposto de um aliado incondicional acabou por assentar num aliado que neste momento é imprevisível. Com a disrupção criada no Médio Oriente, serão os europeus capazes de antecipar o que os Estados Unidos farão com o poder de serem a única real alternativa para o fornecimento de gás e petróleo, agora que a Rússia está fora de jogo e os fornecedores do Médio Oriente estão lesionados?
Energia em Portugal
A Europa construiu resiliência pós-2022 com GNL americano, mas depende agora de um aliado que, em momentos chave surpreendeu. O que fará Washington com o seu quase-monopólio de exportação de GNL? Em Portugal e Espanha, a singularidade ibérica oferece um amortecedor único aos impactos imediatos de mais uma guerra. O mercado MIBEL (OMIE) mostra hoje (dados de 3-4 março 2026) preço médio ~56 €/MWh, mas com mínimos diurnos de 5 €/MWh (graças a solar abundante) e picos noturnos a 186,56 €/MWh. O "daytime discount" criado pelas renováveis mitiga o choque fóssil: quanto mais consumo diurno (indústria, carregamento de VE, bombas de calor), menor o impacto geopolítico.
Vamos por partes.
Os preços de energia são calculados com base no preço médio ao longo do dia porque, ao longo do dia, são diferentes as fontes que alimentam o sistema elétrico nacional. Atualmente, os preços diurnos são significativamente mais baixos do que os noturnos. Existem várias razões para isso: o perfil de consumo mas, sobretudo, a produção de energia solar.
Se durante o dia o mercado é abastecido por energias renováveis - muito solar e também vento, o aumento do preço do petróleo e gás terá um impacto muito reduzido neste período do ponto de vista de produção elétrica. O que isto quer dizer é que, quando se diz que vão aumentar os preços de energia, é preciso dividir o dia em vários períodos para percebermos o real impacto. Durante a noite os preços irão efetivamente aumentar de forma significativa, mas durante o dia esse aumento será baixo ou mesmo residual. Ou seja, quanto mais o consumo for empurrado para o período diurno, menos impacto terão as disrupções geopolíticas. O consumidor ágil pode tentar ajustar-se e proteger-se.
Do ponto de vista do consumo residencial - nas nossas casas - pode fazer sentido, provisoriamente, abraçarmos um tarifário indexado ao valor horário e tentarmos empurrar o nosso consumo para as horas de sol. Pagamos o valor que custa a energia durante o dia, que é uma fração do valor praticado durante a noite. Já do ponto de vista empresarial, pode fazer muito sentido fazer contratos de fornecimento directamente com produtores solares para garantir disponibilidade solar e assim estabilizar os preços de pelo menos uma parte significativa do consumo.
Estimo que os preços do chamado baseload - a média diária - vão aumentar bastante enquanto a guerra perdurar e, mesmo depois de terminar, enquanto se mantiverem as habituais disrupções logísticas que podem levar meses a estabilizar. Mas este baseload é o preço contabilizado nas 24 horas do dia, e olhar apenas para o baseload é demasiado simplista. O que acho que vai acontecer é que a diferença entre dia e noite — o gap — vai ser ainda maior do que o que verificamos hoje, pelo que há que olhar cada vez mais para os preços hora a hora e não para os preços médios. Pode ver aqui o preço durante o dia.
Portugal tem, portanto, uma capacidade de resposta e de proteção que outros países europeus não têm. Outros tentarão responder com energia nuclear, mas facto é que em tempos de guerra o combustível nuclear tende também a aumentar significativamente pela via do uso militar.
Muito além do petróleo
Esta crise não é só sobre petróleo. É sobre a globalização da guerra económica via insegurança logística impulsionada por guerras regionais. O Irão ou qualquer outro, com proxies e capacidade assimétrica, pode escalar custos sem disparar mísseis em massa. Esperemos que a diplomacia prevaleça antes de mais pontos de chacina porque, no final, para além de políticos e mercados, há pessoas que só querem viver as suas vidas sem o peso constante de disfunções que ninguém pediu.