Petróleo pode voltar aos 100 dólares

ECO - Parceiro CNN Portugal , Jéssica Sousa
9 jan, 08:06
Petróleo (arquivo)

Lei da oferta e procura poderá voltar a atirar os preços do petróleo para a casa dos 100 dólares por barril, apesar dos alertas de recessão económica. Futuro do gás é mais difícil de adivinhar

Depois de vários meses marcados por uma forte volatilidade nos mercados das commodities, como consequência da guerra na Ucrânia, chegou-se ao final de 2022 com alguma estabilidade nos preços do setor energético. Mas há fatores a considerar, e que podem pressionar os preços do petróleo, gás e carvão em 2023.

“A inflação, que poderá já ter atingido o seu pico, e o risco crescente de uma recessão global estarão a contribuir para a desvalorização das matérias-primas nos últimos meses”, afirma o analista de mercados do banco Big. “No entanto, uma eventual reabertura bem-sucedida da China, após o fim da política de covid zero na China, poderá suportar os preços das matérias-primas em 2023”, prevê Steven Santos ao ECO/Capital Verde.

Depois de uma onda de protestos, as autoridades sanitárias e o governo da China decidiram, em dezembro, acabar com a políticas covid-zero, no país, permitindo, assim, que a economia chinesa começasse a recuperar depois de três anos condicionada pelas restrições. A decisão vai, certamente, abanar o mercado do petróleo, que já se sentirá pressionado com a redução da oferta russa (em reação às sanções do G7 e da União Europeia) e do corte na produção da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e seus aliados (OPEP+), isto num ano em que já se antecipa um aumento das taxas de juro e uma estabilização na inflação.

As previsões da Agência Internacional de Energia (AIE) estão na mesma linha das previsões do analista. Segundo a entidade, a produção de petróleo pela Rússia — que contrariou as previsões anteriores, que apontavam para um colapso em 2022 — está prestes a afundar 14% no final do primeiro trimestre deste ano. Se esta estimativa se concretizar, isto pode reverter a tendência atual nos futuros de petróleo, cujo preço recuou para 80 dólares por barril em Londres, referência para as importações europeias, no fecho do ano.

“Embora os preços mais baixos do petróleo sejam um alívio bem-vindo para consumidores prejudicados com o aumento da inflação, o impacto total dos embargos ao petróleo russo está por ver“, alertou a agência sediada em Paris.

Em dezembro, entrou em vigor mais uma sanção contra a Rússia, desta vez assinada pelos 27 Estados-membros, a Austrália e o G7 que visa aplicar um teto de 60 dólares por barril ao petróleo da Rússia, isto numa altura em que já foi aplicado, também, um embargo à importação de crude russo por via marítima. No dia 5 de fevereiro, entrará em vigor uma limitação sobre os produtos refinados, como o diesel, provenientes daquele país.

Para o analista da XTB, “o impacto dessas medidas até agora tem sido reduzido” dado que “o principal driver para os preços das matérias-primas energéticas continua a ser a relação entre a oferta e a procura, influenciado também pelo abrandamento da atividade económica – sobretudo do lado dos EUA e China”, explica Henrique Tomé. A própria presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI) já fez soar alarmes nesse sentido, alertando que um terço da economia mundial deverá entrar em recessão em 2023

Mas segundo a AIE, que aconselha as maiores economias mundiais, a procura global de petróleo em 2023 vai aumentar em 300.000 barris por dia, tendo em consideração também o crescimento económico vigoroso na Índia e a resiliência do crescimento económico na China. Assim, o consumo de petróleo deve crescer 1,7 milhões de barris por dia no próximo ano, totalizando uma média de 101,6 milhões por dia.

É ainda difícil ignorar o possível “aperto” no mercado do petróleo, com a decisão da OPEP de continuar a aplicar um corte na produção de ouro negro em 2023, somada ao embargo da UE ao petróleo russo. Segundo um research publicado no final de 2022, pelo banco suíço de investimento UBS antecipa-se que estas decisões vão “suportar preços mais altos” este ano.

“Continuamos a antecipar que a procura por petróleo continua a aumentar. Assim, prevemos que o petróleo Brent recupere para 110 dólares por barril em 2023”, estima a entidade. Também na expectativa do analista do banco Big “o barril de Brent poderá regressar aos 100 dólares [em 2023], se os principais bancos centrais travarem a subida das taxas de juro e assumirem uma postura menos contracionista”.

As previsões não são contudo consensuais, e para Henrique Tomé “a tendência de baixa” verificada no fecho de 2022 deverá continuar ainda este ano, “uma vez que as expectativas no lado da procura continuam a ser sombrias e não apoiam a subida dos preços”.

“Sem dúvida que a atual conjuntura económica e as medidas adotadas pelos bancos centrais estão também a ter impacto nas descidas dos preços, uma vez que estas medidas estão a fazer com que a economia comece a “arrefecer” para que os níveis de inflação retomem aos níveis saudáveis, na faixa dos 2-3%”, aponta.

"O barril de Brent poderá regressar aos 100 dólares, se os principais bancos centrais travarem a subida das taxas de juro e assumirem uma postura menos contracionista. Ainda assim, a desaceleração económica global aponta para o cenário de o petróleo negociar abaixo dos $100 por barril.”

Steven Santos, analista do banco Big.

A disrupção do mercado de petróleo começou logo a seguir à invasão da Ucrânia pelas tropas russas a 24 de fevereiro. A 2 de março, os preços do barril de Brent – que desde o início daquele ano negociaram abaixo dos 90 dólares – atingiram um teto de 100 dólares e logo no dia 8 desse mês saltaram para os 117 dólares. Os preços voltaram a cair abaixo dos 90 dólares no dia 23 de setembro, mas não por muito tempo. A 7 de outubro regressaram novamente aos 100 dólares e a partir daí a tendência foi de abrandamento.

“A queda nos preços tem sido motivada essencialmente pela diminuição no lado da procura e pela deterioração das atuais condições económicas”, explica Henrique Tomé. Já Steven Santos acrescenta que também “o aperto das condições financeiras dos bancos centrais” contribuíram para essa desvalorização.

Assim, o Brent do Mar do Norte, negociado em Londres, fechou o ano de 2022 com uma subida de 10%, a negociar nos 85,91 dólares por barril, ao passo que o West Texas Intermediate (WTI), “benchmark” para os Estados Unidos, avançou 6,83% para se fixar nos 80,26 dólares por barril. Quanto aos futuros para março, à data da redação deste artigo, o Brent na Europa negociava nos 79 dólares.

Carvão também não escapa às subidas

E, tal como o petróleo, antecipa-se que também o preço do carvão térmico se mantenha “elevado durante mais tempo” devido a problemas de abastecimento, estima a UBS, que prevê que a tonelada de carvão não volte a atingir o pico dos 450 dólares por tonelada verificado em setembro de 2022, mas que, ainda assim, se mantenha alta, recuando apenas até os 300 dólares por tonelada, até ao final de 2023.

Em janeiro de 2022, a tonelada do carvão custava cerca de 193 dólares, mas desde o dia 24 de fevereiro, e com o agravamento da crise energética no bloco europeu, que os valores passaram a fixar-se acima dos 200 dólares.

Segundo uma estimativa da AIE, a procura mundial de carvão aumentou 1,2% em 2022, tendência que se verificará até 2025, “na ausência de se aumentarem os esforços para acelerar a transição energética. Os dados preliminares, publicados a 16 de dezembro, indicam que o consumo mundial de carvão ultrapassou pela primeira vez as 8 mil milhões de toneladas num único ano, superando o recorde anterior, verificado em 2013.

No entanto, há espaço para um revés. “Os países da Europa Central, que estavam muito dependentes da energia russa, regressaram ao consumo do carvão, tendo impactado o preço em alta. Qualquer retirada de sanções económicas à Rússia ou a maior utilização de energias renováveis poderão conduzir à descida do preço do carvão”, comenta Steven Santos.

Incerteza ronda o gás

2022 foi um ano que não deu tréguas à negociação de gás, que foi usado como arma de arremesso pela Rússia como retaliação às sanções da União Europeia.

O mercado de futuros de gás nos Países Baixos, o TTF (Title Transfer Facility), que serve de referência para o resto da Europa, viu os preços atingirem, a 26 de agosto, os 342 euros por MWh, isto numa altura em que os fluxos enviados da Rússia para o bloco europeu, através do Nord Stream 1, se encontravam condicionados.

Desde então, o principal gasoduto que liga Moscovo aos 27 Estados-membros foi encerradoo bloco acordou a aplicação de um teto ao gás negociado no mercado europeu – que deverá entrar em vigor em fevereiro – e os preços dos futuros deste bem voltaram a cair para níveis pré-guerra na Ucrânia, tendência que começou de forma acentuada desde a segunda semana de dezembro. A razão? As temperaturas amenas na Europa – situação que os meteorologistas consideram como um “evento climático extremo” – e que deixa as reservas de gás cheias.

“O gás natural, para além das questões em relação à oferta/procura, continua muito exposto às condições climáticas que fazem com que a procura possa diminuir ou aumentar, sobretudo no período do inverno”, explica Henrique Tomé, isto numa altura em que as reservas dos Estados-membros se situam nos 88%, de acordo com a última estimativa do Conselho da União Europeia — um valor muito acima da média de 70% dos últimos cinco anos.

Do lado dos analistas da TradingEconomics, a noção é a de que os próximos meses sejam “desafiantes” para a União Europeia, ainda que as temperaturas se mantenham amenas e “o aumento da produção de energia a partir do vento na França e na Alemanha tenham ajudado a manter as reservas de gás cheias” no bloco.

“Ainda assim, as perspetivas para 2023 continuam a ser desafiantes, uma vez que o inverno está longe de ter terminado”, revelam, dando conta que, com base nas previsões dos modelos macroeconómicos globais e as expectativas dos analistas, o preço do gás natural deverá assentar nos 84,61 euros por MWh, até ao final deste trimestre, e que, até ao final do ano, poderá aumentar até aos 115 euros por MWh. Para já, nesta primeira semana do ano, ronda os 70 euros por MWh.

A plataforma deixa ainda a nota de que, perante a reabertura da economia da China, a União Europeia terá que “aumentar a capacidade de importação de gás natural liquefeito [GNL]”, argumentando que o país “poderá fazer aumentar a concorrência no mercado do GNL”.

Quanto à decisão de se impor um teto de 180 euros por megawatt-hora (MWh) na plataforma holandesa TTF, existem receios quanto aos impactos. Na verdade, de acordo com os alertas emitidos por atores relevantes do setor energético e financeiro — nomeadamente, a Agência de Cooperação dos Reguladores da Energia (ACER), a Federação Europeia de Comerciantes de Energia (EFET), a associação de bolsas energéticas europeias (Europex), o Banco Central Europeu (BCE) e o Intercontinental Exchange (ICE) – existem riscos ao nível da estabilidade financeira e do fornecimento de energia no bloco, ao mesmo tempo que aumenta a volatilidade dos preços nos mercados bilaterais e as chamadas de margem.

Antes de o teto entrar em vigor, a 15 de fevereiro, a ACER deverá manifestar-se já no próximo dia 23 de janeiro através da publicação de um relatório. Mas certo é que o tema não é “consensual” e, segundo Steven Santos, “caso entre em vigor, poderá ter um impacto negativo no funcionamento do mercado”.

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