Petróleo iraniano circula numa "zona cinzenta" no mar ao largo da Malásia. O Irão é um dos maiores produtores mundiais de petróleo, exportando em média 1,69 milhões de barris por dia em 2025, e cerca de 90% deste petróleo tem como destino a China, de acordo com o governo dos EUA
(No vídeo acima: Forças dos EUA realizam uma interceção marítima do navio MT Tifani no Oceano Índico, a 21 de abril. Departamento de Defesa)
No ano que antecedeu a sua dramática apreensão pelas forças norte-americanas no Oceano Índico, o petroleiro conhecido como MT Tifani fez várias viagens entre o Irão e uma zona marítima ao largo da Malásia, a cerca de 100 quilómetros dos arranha-céus de Singapura.
Durante estas viagens, o navio permanecia frequentemente parado numa pequena área antes de lançar âncora e desligar o seu sistema automático de identificação (AIS), obrigatório, segundo dados da MarineTraffic analisados pela CNN.
Algum tempo depois — por vezes horas, outras dias — o navio reaparecia no AIS.
A apreensão do MT Tifani na terça-feira — e dos 1,9 milhões de barris de petróleo iraniano que, segundo as autoridades norte-americanas, transportava — levou o conflito com o Irão para as águas do Indo-Pacífico, a milhares de quilómetros do Golfo Pérsico.
Também colocou sob os holofotes esta zona marítima ao largo da Malásia, com cerca de metade do tamanho do estado norte-americano de Rhode Island, que análises de especialistas e da CNN mostram funcionar como uma estação de combustível flutuante para o Irão, usada pela sua “frota sombra” para comercializar e armazenar petróleo, canalizando receitas essenciais para o regime à medida que a guerra se prolonga.
Embora não esteja oficialmente definida, a área é conhecida como ancoradouro Eastern Outer Port Limits (EOPL). Situa-se perto da entrada oriental do Estreito de Singapura, uma das rotas marítimas mais movimentadas do mundo, a cerca de 70 quilómetros da costa da Malásia peninsular, dentro da zona económica exclusiva do país.
É particularmente visível em imagens de satélite, onde por vezes se observam centenas de embarcações paradas.
O MT Tifani pode também ser identificado pelo seu número IMO: 9273337. Atribuído pela Organização Marítima Internacional, este número não pode ser alterado, independentemente da propriedade ou bandeira do navio.
Num episódio ocorrido em agosto passado, foi observado nesta zona a descarregar carga não especificada para outro navio, o Macho Queen (IMO: 9238868), segundo imagens de satélite analisadas pela CNN. Após a transferência, o Macho Queen ligou brevemente o AIS e começou a navegar para nordeste, em direção à China, antes de voltar a desligar o sistema depois de ter sido sancionado pelos EUA por contrabando de petróleo iraniano para a China.
Um segundo petroleiro apreendido pelos EUA na quinta-feira, o MT Majestic X, também tinha feito várias viagens entre o Médio Oriente e o Estreito de Singapura em direção ao EOPL, segundo dados do MarineTraffic.
O EOPL é um ponto crítico para a frota sombra devido à sua localização conveniente e à atitude permissiva das autoridades próximas, afirma Farzin Nadimi, investigador sénior do Washington Institute, especialista no Irão.
“É um local muito conveniente para esconder atividades”, afirma. “As autoridades malaias basicamente olham para o lado.”
Pelo menos 679 transferências navio a navio ocorreram no EOPL em 2025, face a 471 em 2024 e 280 em 2023, segundo dados de satélite compilados pela organização United Against Nuclear Iran (UANI). Estes números subestimam a realidade, já que os satélites não passam diariamente e não conseguem detetar navios em condições meteorológicas adversas.
A CNN contactou o governo da Malásia para obter comentários.
Em julho passado, a Malásia prometeu reforçar a fiscalização contra transferências ilegais, com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Mohamad Hasan, a admitir que o problema é “uma pedra no sapato”, segundo a agência estatal Bernama.
Segundo novas regras, qualquer embarcação apanhada em transferências não autorizadas será detida.
“Já não queremos ser acusados de facilitar este tipo de atividades”, afirmou.
O Irão é um dos maiores produtores mundiais de petróleo, exportando em média 1,69 milhões de barris por dia em 2025, segundo a empresa de análise Kpler. Cerca de 90% deste petróleo tem como destino a China, de acordo com o governo dos EUA. Pequim não sancionou o crude iraniano e afirma opor-se a essas sanções.
Devido às restrições generalizadas, o Irão recorre a uma frota de petroleiros envelhecidos, com registos pouco transparentes e seguros irregulares, para transportar o seu petróleo.
A maior parte desta frota sombra é composta por navios VLCC (Very Large Crude Carriers), segundo a empresa Vortexa — grandes petroleiros como o MT Tifani, com capacidade para até 2 milhões de barris.
Grande parte do petróleo sancionado é vendido com um desconto de cerca de 10 dólares (cerca de 9 euros) abaixo do preço de referência Brent, que ultrapassou os 100 dólares (cerca de 92 euros) por barril desde o início da guerra. Cada transferência pode assim render dezenas de milhões de dólares ao regime iraniano.
A atividade no EOPL manteve-se desde o início da guerra lançada pelos EUA e Israel contra o Irão no final de fevereiro, que restringiu o fluxo de petróleo do Médio Oriente. A UANI registou pelo menos 250 transferências entre janeiro e 21 de abril deste ano.
O uso desta área permitiu ao Irão manter exportações estáveis durante o conflito, financiando o regime mesmo num contexto de escassez global de petróleo.
“É essencial para o modelo de negócio do Irão”, afirma Charlie Brown, conselheiro sénior da UANI.
Como funciona o "negócio de branqueamento de carga"
As transferências navio a navio fazem parte do transporte marítimo legítimo, usadas para aumentar a eficiência e evitar portos.
Grandes petroleiros descarregam frequentemente para embarcações mais pequenas porque o seu calado não permite entrar na maioria dos portos. No entanto, devido aos riscos ambientais e de segurança, estas operações são fortemente reguladas.
As frotas sombra utilizam estas transferências — mesmo quando não são necessárias — para esconder a origem do petróleo. Muitas vezes realizam-nas durante a noite, desligando ou manipulando o AIS, dificultando a deteção.
De forma geral, o esquema iraniano segue um padrão com dois grupos de navios.
O primeiro recolhe o petróleo, sobretudo na ilha de Kharg, principal terminal de exportação do Irão, e atravessa o Oceano Índico até ao EOPL.
O segundo grupo recebe o petróleo através de transferências e transporta-o para a China, sobretudo para refinarias independentes na província de Shandong, conhecidas por comprar crude sancionado.
A China não declara oficialmente estas importações e frequentemente disfarça a origem do petróleo como sendo da Malásia, explica Ying Cong Lah, analista da Kpler.
A CNN contactou o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês. Este mês, um porta-voz afirmou que Pequim “se opõe a sanções unilaterais sem base no direito internacional”.
A maioria dos navios que transportam petróleo do Irão está na lista negra dos EUA, enquanto muitos dos que o levam para a China ainda não foram sancionados, refere Brown.
As frotas sombra também falsificam documentos, utilizam bandeiras de conveniência e alteram frequentemente os registos das embarcações.
“Criam uma nova narrativa para a carga e para o navio”, explica Nadimi, acrescentando que as tripulações chegam a pintar novos nomes ou bandeiras. “Isto é um negócio de branqueamento de carga.”
A atividade ilegal no EOPL é há muito um segredo aberto no setor. Brown estima que cerca de 95% das transferências envolvam petróleo iraniano ou russo com destino à China.
Uma reserva estratégica perto da China
O EOPL funciona também como uma espécie de armazém flutuante de petróleo para o Irão, ajudando a mitigar riscos de interrupção no Golfo Pérsico, explica Nadimi.
“Existe o risco de conflito no Estreito de Ormuz, por isso preferem aproximar o petróleo dos clientes.”
Em fevereiro, o Irão tinha um recorde de 191 milhões de barris armazenados no mar, sobretudo na Ásia Oriental, segundo a Kpler.
Esta reserva permitiu manter exportações elevadas, com cerca de 1,1 milhões de barris por dia enviados para a China, mesmo durante os ataques intensos dos EUA e de Israel em março, segundo a UANI. Embora abaixo dos níveis habituais, o aumento dos preços do petróleo compensou parte das perdas financeiras.
O MT Tifani poderia estar a caminho do EOPL quando foi apreendido.
No mês anterior, o navio permaneceu na zona do Estreito de Ormuz e do Golfo Pérsico. Apesar de ter o AIS desligado, imagens de satélite mostram-no atracado na ilha de Kharg a 6 de abril.
Reapareceu no sistema a 10 de abril, no Golfo de Omã, rumo a sudeste, em direção a Singapura.
A 21 de abril, após passar o Sri Lanka, alterou bruscamente o rumo — primeiro para sul, depois novamente para leste. Pouco depois, os EUA anunciaram a sua apreensão.
Num vídeo divulgado pelo Departamento de Defesa, é possível ver forças norte-americanas a bordo do navio, com helicópteros a sobrevoar.
O MT Tifani permanece desde então na zona.
*Steven Jiang contribuiu para este artigo