As forças norte-americanas intercetaram e apreenderam um petroleiro de bandeira russa no Atlântico, na quarta-feira, após uma perseguição de semanas em alto mar que agravou as tensões com Moscovo e aumentou a pressão sobre a Venezuela, sua aliada.
O envelhecido e enferrujado petroleiro, originalmente chamado Bella 1, foi sancionado pelos EUA em 2024 por operar numa “frota fantasma” de navios-cisterna que transportam petróleo iraniano ilícito.
No mês passado, a Guarda Costeira dos EUA tentou apreender o navio quando este se dirigia para a Venezuela para recolher petróleo, então a operar sob bandeira da Guiana. Mas a tripulação recusou-se a ser abordada e fez uma mudança brusca de rota para o Atlântico.
Mais tarde, a tripulação do Bella 1 pintou uma bandeira russa no costado e o navio surgiu num registo de navegação russo com um novo nome, Marinera.
Responsáveis norte-americanos disseram posteriormente que Moscovo tinha destacado um submarino para escoltar a embarcação enquanto esta navegava em direção à Europa, ameaçando uma possível confrontação entre Washington e o Kremlin.
Eis o que sabemos.
Onde e como foi apreendido o Bella 1?
Os EUA reposicionaram meios militares no Reino Unido antes da apreensão do petroleiro, noticiou a CNN.
Os aviões V-22 Osprey estiveram ativos no Reino Unido nos últimos dias, com dados de voo que parecem mostrar que estão a realizar missões de treino no Reino Unido a partir da base aérea de Fairford. E dois aviões de combate AC-130 foram vistos a chegar à base de Mildenhall, no Reino Unido, no domingo.
O Bella 1 foi apreendido na quarta-feira a cerca de 190 milhas da costa sul da Islândia, no norte do oceano Atlântico, de acordo com o site de rastreamento de navios MarineTraffic. O site mostra o petroleiro a fazer uma curva acentuada para sul por volta do momento em que foi reportada a apreensão.
O Ministério dos Transportes da Rússia confirmou que perdeu contacto com o petroleiro depois de as forças dos EUA terem abordado o navio às 7 da manhã (hora de leste dos EUA).
Os SEALs da Marinha dos EUA estavam entre as forças que embarcaram no petroleiro depois de terem sido transportados para o navio pelo 160º Regimento de Aviação de Operações Especiais do Exército dos EUA, também conhecido como “perseguidores noturnos”, de acordo com duas pessoas informadas sobre a operação.
O Ministério da Defesa do Reino Unido disse também que ajudou na apreensão “na sequência de um pedido de assistência dos EUA”.
Os EUA não divulgaram imagens da apreensão. Um vídeo de fraca qualidade divulgado pelo canal estatal russo RT parece mostrar um navio a acompanhar os movimentos do Bella 1 nos dias anteriores à apreensão.
No vídeo, gravado a partir do Bella 1, é possível ver uma embarcação não identificada à distância, parcialmente obscurecida pelo nevoeiro. A reportagem da RT disse que o barco era um navio da Guarda Costeira dos EUA no oceano Atlântico.
A secretária da Segurança Interna dos EUA, Kristi Noem, afirmou que a tripulação do navio da Guarda Costeira Munro perseguiu a embarcação durante semanas “em alto-mar e através de tempestades traiçoeiras”. No entanto, não é claro se o navio que aparece nas imagens da RT é o Munro.
Antes da apreensão do navio, as forças armadas russas começaram a movimentar meios navais e um submarino para proteger a embarcação, segundo um responsável norte-americano. Mas não é claro quão próximos esses navios estavam do petroleiro no momento em que foi apreendido, acrescentou a mesma fonte.
Como reagiu a Rússia?
A Rússia condenou a apreensão do Bella 1, com o Ministério dos Transportes a argumentar que “nenhum Estado tem o direito de usar a força contra embarcações que estejam devidamente registadas nas jurisdições de outros países” ao abrigo da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1982, um tratado que os EUA não assinaram.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo exigiu que os EUA devolvam os cidadãos russos a bordo “à sua pátria”, segundo a agência estatal russa TASS.
A TASS noticiou ainda que o deputado russo Leonid Slutsky classificou a apreensão norte-americana do navio como um ato de “pirataria do século XXI” que viola o direito internacional.
O líder russo Vladimir Putin ainda não comentou a apreensão.
A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, desvalorizou os riscos de uma confrontação com a Rússia, argumentando que o Presidente dos EUA, Donald Trump, mantém uma boa relação com Putin.
“Acredito que essas relações pessoais vão continuar”, afirmou.
A China também condenou a apreensão na quinta-feira, classificando-a como uma “grave violação do direito internacional”.
“A China sempre se opôs a sanções unilaterais ilegais que carecem de base no direito internacional e não são autorizadas pelo Conselho de Segurança da ONU, e opõe-se a quaisquer ações que violem os propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas e infrinjam a soberania e a segurança de outros países”, disse a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Mao Ning, aos jornalistas, numa conferência de imprensa regular.
Quanto petróleo transportava o Bella 1?
A embarcação não transportava qualquer petróleo no momento em que foi apreendida, de acordo com a empresa de análise Kpler.
Isto contrasta com o Skipper e o Centuries, os outros dois petroleiros intercetados com sucesso pela Guarda Costeira nas últimas semanas, no âmbito da campanha de pressão de Washington sobre a Venezuela. Os EUA conduziram ambos até ao Texas e planeiam apreender as respetivas cargas de petróleo.
Segundo a Kpler, o perfil de conformidade do Bella 1 inclui dois intervalos distintos de 99 dias em que o navio desligou o seu Sistema de Identificação Automática (AIS), um sistema obrigatório de rastreamento de navios em tempo real.
Desligar a transmissão do AIS é uma tática comum observada entre navios que carregam crude iraniano sujeito a sanções, segundo a Kpler.
Foram apreendidos outros navios?
Numa operação separada, também na quarta-feira, os EUA disseram ter apreendido um petroleiro chamado Sophia, em águas internacionais perto das Caraíbas.
O navio era um petroleiro “sem nacionalidade, sancionado” que estava a “conduzir atividades ilícitas no mar das Caraíbas”, segundo uma publicação nas redes sociais do Comando Sul dos EUA.
O Sophia transporta cerca de 2 milhões de barris de crude, que foram carregados num porto da Venezuela, de acordo com Emmanuel Belostrino, gestor sénior de dados do mercado de crude na empresa global de dados e análise Kpler.
Os EUA vão apreender mais navios?
A Casa Branca prometeu na quarta-feira continuar a apreender petroleiros sancionados, apesar das preocupações de que isso possa agravar as tensões com a Rússia e a China — que é compradora de petróleo venezuelano.
Trump “vai aplicar a política que é melhor para os Estados Unidos da América”, disse Leavitt durante uma conferência de imprensa.
“Isso significa aplicar o embargo contra todas as embarcações da frota obscura que estão a transportar petróleo ilegalmente.”
Dados da Kpler partilhados com a CNN na quinta-feira mostraram que pelo menos 16 navios foram carregados com crude ou fuelóleo na Venezuela entre outubro de 2025 e janeiro de 2026. Dez desses navios desligaram os seus transmissores AIS e poderão já ter saído da Venezuela, segundo a Kpler.
Os outros seis navios, todos eles carregados com crude em dezembro e janeiro, têm uma capacidade combinada estimada de quase 9 milhões de barris de petróleo, disse a Kpler.
Os dados do AIS indicaram que três desses navios ainda não tinham saído da Venezuela, enquanto os outros três tinham desligado os seus transmissores, acrescentou a Kpler.
Nic Robertson, Natasha Bertrand, Adam Cancryn, Darya Tarasova, Max Saltman, Gianluca Mezzofiore, Issy Ronald, Nick Paton Walsh, Catherine Nicholls e Sandi Sidhu, da CNN, contribuíram para esta reportagem.