PERFIL || "Não é nenhum santo", dizem dele, tem "uma personalidade difícil". Mas é "um David" que venceu "Golias", dizem também dele, "fala a língua do algoritmo mas constrói confiança pessoalmente". Péter Magyar derrotou o seu outrora ídolo, o aparentemente invencível Viktor Orbán que se tornou no factualmente vencido: "Os húngaros votariam até num bode se ele estivesse a concorrer contra Orbán"
Péter Magyar viveu largos anos à sombra do Fidesz de Viktor Orbán, entre Budapeste e Bruxelas, tentando várias vezes - mas sempre sem sucesso, segundo especialistas - obter cargos nos sucessivos executivos do primeiro-ministro húngaro. Agora acabou com 16 anos de Orbán.
Filiado no Fidesz desde 2003, foi cerca de 20 anos depois que Magyar entrou realmente nas casas dos húngaros, quando surgiu em público a tecer críticas contundentes ao governo. Críticas que foram acompanhadas de uma gravação áudio feita sem o conhecimento da sua ex-mulher, Judit Varga, então ministra da Justiça de Orbán, e na qual Varga, à data ainda casada com Magyar, descrevia a alegada interferência do governo num caso de corrupção envolvendo abuso sexual de crianças num orfanato estatal.
Foi graças a essa gravação que Magyar foi catapultado de funcionário público de nível médio para figura política de renome, no que marcaria o início da sua rota ascendente rumo ao objetivo final: substituir Orbán no poder. Foi também por causa dessa gravação que Judit Varga se sacrificou politicamente, assumindo a par da então presidente da Hungria, Katalin Novak, a responsabilidade pela decisão de conceder clemência a Endre K, ex-vice-diretor do orfanato estatal detido por persuadir crianças a retirarem depoimentos contra o diretor da instituição por abuso sexual.
“Durante muito tempo acreditei no ideal de uma Hungria patriótica e soberana, mas nos últimos anos tive de perceber que não passa de um produto político, uma fachada, a perpetuação no poder e o acumular de enormes fortunas”, escreveu Magyar em 2024, no rescaldo do escândalo que levou à demissão da ex-mulher. Também acusou Orbán de se “esconder atrás das mulheres”, forçando duas delas a demitirem-se para não ser ele, o chefe do governo, a assumir a derradeira responsabilidade pelo escândalo. “Não quero, nem por mais um minuto sequer fazer parte de um sistema em que os verdadeiros culpados se escondem atrás das saias das mulheres.”
Este foi o caso que lançou Magyar para a ribalta política da Hungria, mas não foi o caso que marcou o início da sua carreira. Na viragem do milénio, após se filiar ao Fidesz, o jovem advogado já tinha conquistado alguma popularidade em protestos anticorrupção liderados pelo então líder da oposição – que era precisamente Viktor Orbán, a quem Magyar ajudou a formar um grupo de defesa jurídica para manifestantes chamado “Não tenham medo”. Foi esse mesmo lema que usaria 20 anos depois contra Orbán, quando rompeu com o governo sob acusações de corrupção endémica e clientelismo, no rescaldo do seu divórcio de Judit Varga, com quem esteve casado entre 2006 e 2023 e com quem tem três filhos.
Bálint Ruff, estratego político húngaro, resume a ascensão do atual candidato do partido centrista Tisza como a “grande história do príncipe mais novo, o filho pródigo do povo, David contra Golias”, com a qual “todos se podem identificar”. E esse é, seguramente, o grande motor da sua candidatura contra o atual primeiro-ministro, depois de uma vitória surpreendente nas eleições europeias de 2024, em que, num prenúncio do que estava por vir este domingo, o Tisza firmou a maior derrota eleitoral de sempre (até então) do Fidesz desde a primeira eleição de Orbán.
Ressentimentos e escândalos
Aos 45 anos, Magyar começou a surgir à frente do antigo aliado em inúmeras sondagens divulgadas ao longo dos últimos meses – até vencer de facto. De uma família conservadora e abastada de Budapeste, contam-se entre os seus familiares alguns advogados e juízes de renome, bem como Ferenc Mádl, antigo presidente da Hungria que foi eleito durante o primeiro mandato de Orbán. Mas isso não o ajudou a subir nos escalões do Fidesz, razão pela qual analistas e rivais do candidato dizem ser o grande motivo que o levou a desfiliar-se do partido.
Enquanto via a mulher subir na hierarquia do partido, Magyar permaneceu sempre à margem, primeiro como pai a tempo inteiro em Bruxelas, enquanto Varga era assistente de um eurodeputado do Fidesz, depois em cargos de nível médio na representação húngara na UE e, já de regresso à capital húngara, em instituições estatais. “Os ministros diziam-lhe sempre que não, porque ele era ambicioso e independente demais”, diz Miklós Sükösd, cientista político e investigador de media da Universidade de Copenhaga, que tem escrito sobre a ascensão política da Hungria. “A sua ambição foi reprimida e isso gerou ressentimento. E ele guardou esse ressentimento durante muitos anos pelo facto de Varga ter sido escolhida a dedo.”
Numa entrevista em 2024, já depois do divórcio, Magyar corrigiu um entrevistador que apontou que ele “era casado com a sra. Varga”, respondendo “ela era casada comigo”. Num raro comentário público sobre o ex-marido no ano passado, Varga declarou: “Não quero participar numa disputa em que essa criatura chamada Péter Magyar possa ganhar pontos”. Questionado sobre a gravação da conversa privada com a mulher sem o seu conhecimento, dois meses antes da separação, Magyar disse que pretendia apenas garantir um seguro caso ambos entrassem em conflito com o poder instalado.
Já depois do divórcio, que segundo Magyar se deveu, em parte, a divergências políticas, Varga acusou-o de abuso físico e verbal, inclusivamente de a trancar num quarto, acusações que rejeitou, classificando-as de “propaganda” orquestrada pelo círculo de Orbán. O caso seguiu para tribunal e ainda não conheceu desfecho.
Recentemente, o candidato do Tisza viu-se a braços com outro escândalo a envolver uma outra mulher, Evelin Vogel, sua ex-namorada que, segundo o próprio Magyar, trabalhou secretamente para o Fidesz em mais uma “campanha difamatória”. O caso estalou quando alguns media pró-Orbán noticiaram que o casal teve um encontro íntimo sob o efeito de drogas em 2024, que teria sido gravado sem o conhecimento de Magyar, num vídeo que um opositor não identificado ameaçou divulgar.
Magyar voltou a acusar o partido no poder de orquestrar o caso para minar a sua credibilidade, apresentando uma queixa à polícia. Esse encontro ocorreu quando ele já estava divorciado e não houve drogas envolvidas, garantiu, antes de viajar até Viena para fazer um teste de despiste toxicológico num laboratório independente. Já na reta final da campanha, divulgou excertos de um relatório de investigação policial de 2025, que mostrava figuras importantes da campanha do Fidesz a instruírem Vogel a espiá-lo. Entrevistada pelo canal de notícias local 444, a ex-namorada de Magyar disse não ter conhecimento de nenhuma gravação e que também foi vítima de vigilância ilegal, escusando-se a comentar as acusações de ter feito espionagem para o Fidesz.
“Há muitas mulheres na comunidade, incluindo líderes das filiais do Tisza, e ele trata-as como iguais”, garante a produtora de cinema Claudia Sümeghy, que conviveu bastante com Magyar. Num comício recente de Magyar, muitas mulheres ouvidas pelo Financial Times reconheceram que ele “não é nenhum santo” mas que nem por isso deixarão de votar nele – caso de Olga, uma professora de 63 anos, que resumiu o seu apoio da seguinte forma: “Eu não me quero casar com Magyar, eu só quero que ele se livre de Orbán.”
Contra o clientelismo e a corrupção
A ideia de Péter Magyar como o homem capaz de destronar os 16 anos de poderio Orbán foi nota forte em todos os comícios. Num outro evento de campanha, um empresário de 45 anos de Tura, uma pequena cidade nos arredores de Budapeste, disse ao Financial Times que acredita nas qualidades de Magyar apesar dos esforços do Fidesz para o denegrir.
“Ninguém na cidade tem dinheiro para ficar hospedado naquele hotel”, disse Imre sobre um castelo da sua cidade que foi comprado por um genro do primeiro-ministro e transformado num hotel-boutique. “O castelo é um exemplo perfeito de como Orbán está distante da realidade”, acrescentou o empresário. “Magyar é honesto, não mente, não é corrupto. É íntegro, apesar dos esforços do Fidesz, que durante dois anos tentou difamá-lo sem sucesso. Isso é mais do que qualquer um no Fidesz pode dizer.”
Como referiu recentemente Timea Szabó, deputado húngaro pelo partido Os Verdes, que renunciou ao cargo para abrir caminho a um candidato do partido de Magyar: “Não estamos a votar no Tisza, estamos a votar contra o Fidesz. Esse é o ponto principal. Os húngaros votariam até num bode se ele estivesse a concorrer contra Orbán.”
À ideia de homem-forte capaz de destronar o rei Orbán juntou-se a noção clara de como fazer campanhas virais e eficientes na era das redes sociais. Ao longo de meses, Magyar aprimorou a capacidade de pegar em críticas e virá-las contra os seus autores ao invés de as tentar refutar. Em vários vídeos de contas pró-governamentais, foi sendo gozado por usar calças justas, revelando a zona da virilha, ao que Magyar respondeu com uma imagem a posar com uma banana na mão enquanto preparava um batido. A publicação viralizou rapidamente, tal como os inúmeros comentários em que recorre ao emoji de palhaço para demonstrar o seu desprezo pelo governo Fidesz.
“Ele sabe como provocar o sistema para manter o seu nome na berra”, destaca o cineasta Tamás Topolánszky, autor de um documentário recente sobre a ascensão de Magyar, que fala numa abordagem “pouco convencional mas eficaz”. “É extremamente rápido, gere as suas próprias redes sociais e entende o poder de um meme, como beneficiar de conteúdo viral.” Talvez isso ajude a explicar a sua popularidade entre as camadas de eleitores mais jovens, que segundo os inquéritos de opinião estavam a pender em larga medida para o voto em Magyar por oposição ao entrincheirado governo Orbán.
Com ou sem a ajuda da juventude, o candidato do Tisza tornou-se mesmo o sucessor de Orbán, alcançando algo que nem os liberais nem os partidos de esquerda, largamente ausentes nestas eleições, algum dia conseguiram ao longo dos últimos 16 anos. “Ele estava no lugar certo à hora certa, descolando por via da indignação causada pelo caso de abuso sexual infantil - e é extremamente determinado”, sublinha Ruff. “Outros tinham as ferramentas, mas ele dedicou-se totalmente e fez o trabalho de campo.”
Não tendo sido Magyar a lançar o Tisza, foi ele que transformou o pequeno partido no movimento que derrubou o poderio de Orbán - começou com uma operação cibernética de olho nas eleições ao Parlamento Europeu de 2024, expandindo a sua presença digital e nas redes sociais. Em resultado, o Tisza conquistou 29,6% dos votos nas europeis e o Fidesz 44,82%, o pior resultado de sempre até então para o partido de Orbán. E não tendo sido Magyar o único responsável por esse resultado, tornou-se o rosto que todos na Hungria passaram a encarar como alguém que conheceu o sistema por dentro e, com coragem, decidiu encará-lo de frente.
Como refere Katalin Cseh, deputada independente húngara, ao POLITICO, a maioria dos apoiantes de Magyar veem-no “como alguém de dentro que conhece estas pessoas, que estava na linha da frente do sistema Orbán, alguém que entende o sistema e é capaz de vencê-lo”.
Nas ruas e nas redes, um bastião de cada vez
A campanha do Tisza às europeias foi apenas o início da rota ascendente de Péter Magyar – e o resultado alcançado foi o que mais galvanizou a sua candidatura a primeiro-ministro. Para chegar à população e contornar o controlo de grande parte dos media da Hungria pelo Fidesz, o líder da oposição decidiu percorrer o país e levar à letra a estratégia porta a porta. Em maio de 2025, numa tentativa de apelar às minorias étnicas húngaras nos países vizinhos – que, na sua maioria, tendem a votar Fidesz – caminhou 250 quilómetros de Budapeste até Oradea, no noroeste da Roménia.
Ao mesmo tempo, continuou a apostar em força nas redes sociais, em particular o Facebook, para falar diretamente ao eleitorado e amplificar a mensagem do Tisza até entre os redutos do partido de Orbán, criando o que os analistas dizem ser “ilhas do Tisza” em páginas e sites pró-Fidesz. “Não há dúvida de que existe um apoio social significativo por trás do Tisza”, reconhece ao POLITICO András Cser-Palkovics, autarca da cidade de Székesfehérvár, no centro da Hungria, e membro do Fidesz, tido como uma das poucas vozes independentes do partido ainda no poder.
“Ele [Magyar] tem algo que é muito raro na política atual”, adianta ao mesmo site Marton Hajdu, chefe de assuntos da UE do Tisza e candidato a deputado nestas eleições. “Ele fala a língua do algoritmo mas constrói confiança pessoalmente. E consegue acompanhar o ritmo do noticiário sem perder a clareza estratégica.”
Com uma campanha largamente voltada para assuntos internos, como a melhoria dos serviços sociais, a reativação de uma economia estagnada, o combate à elevada inflação e, claro, à corrupção, a mensagem de Magyar ressoou junto dos eleitores, sob a promessa de responsabilizar judicialmente elementos do círculo de Orbán suspeitos de corrupção e enriquecimento ilícito. “Camaradas, acabou”, disse num comício de campanha recente, no que foi visto como uma mensagem direta a Orbán e à elite que o apoia. “Repitam comigo: algemas, algemas, grades, grades!”
Magyar promete restaurar os mecanismos democráticos de controlo e equilíbrio de poderes, os mesmos que em mais de década e meia levaram a Hungria a ser classificada como uma democracia iliberal às mãos de Orbán, pondo o país em rota de colisão com Bruxelas por mais de uma vez. Mas os analistas dizem que isso poderá não ser assim tão fácil. E sendo visto como menos antagónico do que o rival em relação à UE, continua a ser um nacionalista – um líder da oposição que, perante a campanha de Orbán com forte tónica na ideia de uma Hungria refém da UE e dos apoios à Ucrânia, fez questão de enfatizar que não vai seguir cegamente a linha de Bruxelas e que quer manter em aberto a opção de importar energia russa a preços baixos.
Acusado de ter uma “personalidade difícil”, Magyar nem sempre consegue controlar o seu lado mais impulsivo, com destaque para explosões públicas com jornalistas até a um confronto agressivo numa discoteca por estar a ser filmado a dançar com mulheres. E há quem tenha feito parte do seu círculo a acusá-lo agora de ter transformado o Tisza num partido de homem forte semelhante ao Fidesz de Orbán.
Não é um segredo que coordena o partido de cima para baixo, tendo assumido numa entrevista ao POLITICO em 2024 que o Tisza é um “one-man show”. Sendo o único dos seus membros autorizado a conceder entrevistas, a sua equipa de imprensa pediu diretamente aos jornalistas para não entrevistarem as pessoas que participaram num protesto organizado pelo Tisza no passado dia 15 de março, com voluntários a confirmarem depois que foram instruídos por superiores a não falarem com repórteres.
Os seus apoiantes dizem que a disciplina é necessária e que controlar a mensagem é a única forma de evitar dar munições aos media pró-governo e um Fidesz empenhado em destruir a reputação do opositor. Mas outros, como Dezsö Farkas, que integrou a equipa fundadora do Tisza e que se demitiu após as europeias de há dois anos, falam num ambiente “tóxico” em tudo igual ao aparato do Fidesz. “A cultura dentro do partido tornou-se algo semelhante, baseada na lealdade e não no desempenho”, acusa Farkas.
Questionado num documentário sobre como se descreveria, Magyar respondeu que é “uma pessoa difícil”, mas que está “a tentar” melhorar. E o facto é que nada tem travado a sua ascensão. “Não houve nenhum escândalo real que o tenha afetado”, diz Péter Krekó, diretor do instituto político independente Political Capital, com sede em Budapeste – “talvez porque ele sempre alertou a sua base eleitoral com antecedência.”
Numa entrevista à Reuters um mês e meio antes das eleições, e sem referências às pedras que foi encontrando no caminho, Péter Magyar deixou claro que, em última instância, o voto no seu partido é um voto contra Orbán. “Isto vai ser um referendo: acho que está claro que a escolha é entre a Europa ou o conselho turco e os ditadores”, referiu à agência invocando os laços estreitos do governo de Orbán com a Rússia e outras ex-repúblicas soviéticas, como o Cazaquistão e o Azerbaijão. “Trata-se de saber se a Hungria vai dar continuidade a estes 16 anos de declínio ou se partimos rumo à Europa e ao desenvolvimento, juntando-nos aos polacos, aos eslovenos, aos checos e aos Estados bálticos.” Os húngaros votaram pela segunda via.