Entre 1347 e 1351, a Peste Negra matou pelo menos 25 milhões de pessoas. As consequências sociais, económicas e culturais da perda de população prolongaram-se durante décadas na Europa e no resto do mundo
A Peste Negra - uma das pandemias mais mortíferas da história da humanidade, que se estima ter matado metade da população da Europa - pode ter sido desencadeada por uma erupção vulcânica, sugere um novo estudo.
Ao analisarem os anéis de árvores de toda a Europa para melhor compreenderem o clima do século XIV, comparando os dados com amostras de núcleos de gelo da Antártida e da Gronelândia e analisando documentos históricos, os investigadores construíram um cenário de “tempestade perfeita” que poderá explicar a origem da tragédia histórica. As suas conclusões foram publicadas recentemente na revista Communications Earth & Environment.
Os autores do estudo acreditam que ocorreu uma erupção por volta de 1345, cerca de dois anos antes do início da pandemia, de um único vulcão ou de um conjunto de vulcões de localização desconhecida, provavelmente nos trópicos. A neblina resultante das cinzas vulcânicas teria bloqueado parcialmente a luz solar em toda a região mediterrânica durante vários anos, provocando a descida das temperaturas e a perda de colheitas.
A escassez de cereais que se seguiu ameaçou o surgimento da fome ou da agitação civil, pelo que as cidades-estado italianas, como Veneza e Génova, recorreram a importações de emergência da região do Mar Negro, o que ajudou a manter a população alimentada.
No entanto, os navios que transportavam os cereais estavam carregados com uma bactéria mortal: Yersinia pestis. O agente patogénico, originário de populações de roedores selvagens da Ásia Central, viria a causar a peste que devastou a Europa.
"A bactéria da peste infeta as pulgas dos ratos, que procuram os seus hospedeiros preferidos - ratos e outros roedores. Quando esses hospedeiros morrem devido à doença, as pulgas voltam-se para outros mamíferos, incluindo os seres humanos", explica Martin Bauch, coautor do estudo, historiador do clima medieval e epidemiologista do Instituto Leibniz para a História e Cultura da Europa de Leste, na Alemanha.
“As pulgas dos ratos são atraídas para os armazéns de cereais e podem sobreviver durante meses com o pó dos cereais como fonte de alimento, o que lhes permite suportar a longa viagem do Mar Negro até Itália”, acrescenta Bauch. “Depois de chegarem às cidades portuárias, os cereais eram colocados em celeiros centrais e depois redistribuídos por locais de armazenamento mais pequenos ou comercializados.”
Antes da pandemia, a população mundial era inferior a 450 milhões de habitantes. Entre 1347 e 1351, a Peste Negra matou pelo menos 25 milhões de pessoas. As consequências sociais, económicas e culturais da perda de população prolongaram-se durante décadas na Europa e no resto do mundo.
Anos anómalos
Já se pensava que os navios e o comércio de cereais tinham desempenhado um papel central na forma como a Peste Negra chegou à Europa. No entanto, este estudo é o primeiro a sugerir que uma erupção vulcânica poderá ter sido o primeiro dominó a cair numa sucessão de acontecimentos que conduziram à pandemia.
“Descobri que a fome mais pronunciada nos séculos XIII e XIV se situa especificamente nos anos que precedem diretamente a Peste Negra”, aponta Bauch. “A razão pela qual a Peste Negra chega precisamente em 1347 e 1348, pelo menos em Itália, não pode ser explicada sem esse contexto de fome induzida pelo clima.”
Bauch analisou documentos históricos, incluindo registos administrativos, cartas, tratados sobre a peste e até mesmo poemas e inscrições, para construir uma imagem destes anos cruciais pré-pandémicos, mas precisava de provas científicas fora da sua área para confirmar as suas descobertas.
Numa conferência conheceu Ulf Büntgen, professor de análise de sistemas ambientais na Universidade de Cambridge, em Inglaterra, e coautor do estudo. Os dois descobriram que partilhavam um interesse “nos mesmos anos anómalos”, segundo Bauch, e decidiram trabalhar em conjunto para estudar o tema.
“Estamos a falar de algo que aconteceu há 800 anos”, diz Büntgen. "Onde é que vamos buscar informações sobre o clima? Temos um número limitado de fontes. Uma delas são as provas históricas ou documentais, de que Martin trata, e depois há os anéis de crescimento das árvores."
Os anéis de crescimento das árvores oferecem uma “reconstrução paleoclimática de alta resolução”, indica Büntgen, porque à medida que uma árvore cresce é constantemente afetada pelo que acontece à sua volta. Se as condições de crescimento forem favoráveis, a árvore produz um anel mais largo e uma maior densidade de madeira, por exemplo. Os anéis, que se formam todos os anos, podem ser lidos como um livro para perceber se o clima à volta da árvore era frio, quente, seco ou húmido.
Büntgen analisou milhares de amostras de árvores vivas e antigas árvores mortas preservadas naturalmente em toda a Europa, que tinham sido recolhidas para investigação anterior sobre a reconstrução histórica da temperatura. Os anéis indicavam um clima de arrefecimento que coincidia com a hipótese de Bauch de uma fome. “Nos anéis das árvores vemos um declínio climático, o que significa temperaturas mais frias do que o normal durante dois ou três anos consecutivos”, diz Büntgen.
Büntgen também examinou dados históricos de núcleos de gelo para procurar assinaturas químicas que corroborassem a análise das árvores. “Ao mesmo tempo, encontrámos provas de picos de enxofre nos registos dos núcleos de gelo, que são completamente independentes das árvores, e que se referem a uma erupção vulcânica”, observa.
Sabe-se que as grandes erupções vulcânicas, ricas em enxofre, produzem um arrefecimento nos verões seguintes, acrescenta Büntgen. A origem vulcânica ajudaria a explicar um dos mistérios persistentes da Peste Negra, que é o facto de algumas partes da Europa terem perdido até 60% da população, enquanto outras não foram afetadas.
“Por exemplo, a peste não se propagou a Roma ou a Milão”, lembra Bauch. “São cidades grandes, mas estavam rodeadas de zonas produtoras de cereais, pelo que não precisavam de importar com tanta urgência como Veneza e Génova.”
A transmissão da peste através de carregamentos de cereais reforça a ideia de que a Peste Negra é um acontecimento complexo, influenciado por um vasto conjunto de fatores naturais, sociais e económicos. “Muitas coisas precisavam de se alinhar”, sublinha Büntgen, “e se apenas uma delas não estivesse presente, esta pandemia não teria acontecido”.
Um pormenor interessante
Ao defender que a bactéria da peste chegou aos portos mediterrânicos em resultado da atividade vulcânica, o estudo acrescenta mais um elemento interessante à compreensão dos cientistas sobre a interseção entre as alterações climáticas e a dinâmica das doenças, afirma Mark Welford, professor e diretor de geografia da Universidade do Norte do Iowa, num e-mail. Welford não esteve envolvido no trabalho.
A nova investigação também faz avançar o debate em curso sobre a forma como as flutuações climáticas podem ter influenciado o início da Peste Negra, segundo Mark Bailey, professor de história da Idade Média na Universidade de East Anglia, em Inglaterra.
“Os autores reconhecem que um acontecimento tão excecional como a Peste Negra pode dever-se a uma coincidência excecional de forças naturais e sociais, o que é sensato”, considera Bailey, que não participou no estudo.
“A sua novidade consiste em sublinhar a ligação entre a atividade vulcânica, a escassez e a alteração das rotas comerciais de cereais nos dois anos que antecederam a explosão da Peste Negra na Europa: já sabíamos das falhas nas colheitas e o comércio de cereais com o Oriente intensificou-se mais do que se alterou em 1347”, acrescenta.
Alex Brown, professor associado de história económica e social medieval na Universidade de Durham, em Inglaterra, que também não esteve envolvido na investigação, elogia a forma como o estudo demonstra a interligação da economia medieval: “O estudo de Bauch e Büntgen demonstra a importância de compreender a relação entre as pessoas, os animais e o ambiente, tanto para o estudo das pandemias históricas como para a preparação para futuras pandemias.”