Os corpos não dizem tudo. Perder peso pode ser (ou não) importante para a sua saúde

CNN , Madeline Holcombe
1 set, 08:00
Perda de peso (CNN)

Aceitar o seu corpo tal como é e parar de fazer dieta pode soar bem, mas fazê-lo prejudicaria a sua saúde?

Os anúncios, a cultura pop e até os médicos podem falar sobre saúde e peso como se fossem um só: os corpos mais magros são mais saudáveis, e os corpos mais pesados devem menos saudáveis.

Mas nem a saúde nem os corpos são assim tão simples e uniformes. E a saúde pode variar de pessoa para pessoa, disse Jeanette Thompson-Wessen, uma nutricionista do Reino Unido cuja abordagem não se concentra na perda de peso.

Um índice de massa corporal mais elevado (IMC) está associado a problemas de saúde como a diabetes ou doenças cardíacas, disse Philipp Scherer, professor de medicina interna e diretor do Touchstone Diabetes Center, no Southwestern Medical Center da Universidade do Texas. No entanto, o IMC é uma forma controversa de avaliar o estado de saúde, e é apenas um dos muitos fatores associados às alterações no bem-estar de alguém, disse Asher Larmie, um clínico geral e ativista do Reino Unido.

Os cuidados médicos, o ambiente, o contexto social e a biologia constituem a maioria dos fatores que determinam a nossa saúde, de acordo com o Gabinete de Prevenção de Doenças e Promoção da Saúde. 

Ainda assim, continuamos a dar muita importância à aparência de alguém, ao avaliar a sua saúde, disse Shana Minei Spence, uma dietista registada em Nova Iorque. E mesmo que aprenda a ignorar os padrões de beleza da sociedade, pode ser difícil sentir-se confiante no seu corpo, se não se vir como uma pessoa saudável.

Os especialistas dizem que este pode ser o momento de separar a saúde do peso e de se concentrar em comportamentos que promovam a saúde, mais do que no número que aparece na balança.

Correlação versus causalidade

É importante entender que os estudos que apontam para péssimos resultados em termos de saúde para pessoas com mais gordura corporal só podem apontar para a correlação, não para a causalidade, disse Larmie.

Embora os estudos possam indicar que as pessoas com mais peso têm mais doenças cardíacas, não podem afirmar que o peso causou essas doenças, acrescentou Larmie.  

Mas a importância desses estudos não deve ser descartada, disse Philipp Scherer.  As correlações são fortes e "do ponto de vista da fisiologia, na clínica, trabalhamos com correlações", disse. 

Pode haver ainda outros fatores em jogo, como o acesso a cuidados médicos, disse Scherer.

E para pessoas com corpos maiores, pode ser complicado obter bons cuidados médicos, disse Bri Campos, uma coach de imagem corporal de Paramus, Nova Jérsia. 

Não são só os clientes dela que têm medo de ir ao médico. Apesar de educar as pessoas sobre a sua imagem corporal e saúde mental, Campos muitas vezes tem medo de ir ao médico, por recear ouvir comentários quanto ao seu peso.

"Posso ir lá por ter a garganta inflamada ou por ter uma erupção cutânea. Com o corpo que tenho, o mais provável é ouvir um diagnóstico que diga: ‘Devia perder peso'."

Os corpos não são cartões de visita

Shana Minei Spence gosta de lembrar aos clientes que os corpos não são cartões de visita.

Não basta olhar para o corpo de alguém para saber como é a sua saúde, os seus hábitos ou a sua biologia.

"Temos acesso aos registos médicos da pessoa? Falámos com o médico dela?", disse Scherer. “E muitas vezes, o nosso estado de saúde está fora do nosso controlo. Há muitas doenças crónicas que as pessoas desenvolvem."

Embora possamos ver correlações entre o tamanho do corpo e os problemas de saúde, a uma escala maior, quando os investigadores analisam as pessoas individualmente, não é assim tão claro, disse Scherer.

"Nesta área, é entendido de forma geral que nem todos os que têm um IMC elevado são diabéticos tipo 2", disse ela. 

As pessoas com corpos mais magros podem desenvolver doenças cardíacas ou diabetes, e há muitas pessoas com corpos maiores que são consideradas completamente metabolicamente saudáveis, disse Scherer.

"É apenas um reflexo da nossa heterogeneidade genética e da forma como lidamos com o excesso de calorias", acrescentou.

A dieta torna-nos mais saudáveis?

O que significa ser saudável, afinal? E a dieta pode ajudar-nos a chegar lá?

Depende de que partes da saúde temos como prioridade.

A saúde é composta por muitos fatores.  Evitar doenças é uma delas, mas também manter a saúde mental, manter a sociabilidade ativa, dormir o suficiente e reduzir o stress, disse Spence.

"Cortar calorias ou eliminar certos alimentos pode não ser saudável, se afetar negativamente a sua saúde mental ou impedir que passe mais tempo com amigos e familiares", acrescentou ela. E, por vezes, essas restrições podem fazer-nos perder peso, sem nutrir adequadamente o corpo.

"A perda de peso não é sinónimo de felicidade, e não significa que vai necessariamente ficar saudável, porque a forma como se perde peso também pode ser prejudicial para a saúde", disse Spence.

Para a maioria das pessoas, uma dieta restritiva com a intenção de perder peso não funciona. Mais de 80% das pessoas que perderam peso, recuperaram-no em cinco anos, de acordo com um estudo de 2018.

“Se os nossos telefones não funcionassem como deveriam muitas vezes, a maioria das pessoas já não os usava”, disse Campos.

"Mas a cultura da dieta tem conseguido enganar-nos, dizendo que poderemos ter tudo o que sempre quisemos: saúde, forma física, elogios", acrescentou ela.

Em que podemos concentrar-nos, se queremos ficar saudáveis, mas não perdemos peso? Concentremo-nos na saúde, promovendo comportamentos como deixar de fumar, fazer mais exercício, dormir melhor, enervarmo-nos menos e comer os alimentos que o nosso corpo nos diz que precisa, disse Larmie.

Pode perder peso como resultado disso, mas não é esse o objetivo, acrescentaram eles.

"Se não nos concentrarmos no peso, poderemos dedicar-nos mais a alguns comportamentos realmente saudáveis, que são muito mais sustentáveis", disse Thompson-Wessen.

Vida Saudável

Mais Vida Saudável

Patrocinados