"Sem garantias" e em "desespero": estudantes portugueses sentem-se "completamente abandonados no Peru"

15 dez 2022, 20:30
Polícia e manifestantes em violentos confrontos no Peru (Getty Images)

Tiago Pais é um dos 40 portugueses retidos no Peru por causa da instabilidade política e social que se vive no país. Faz parte de um grupo de estudantes que foi apanhado de surpresa pelos tumultos

O momento é de "desespero" e de "cansaço mental" para os estudantes portugueses que, nos últimos dias, ficaram retidos no Peru. A viagem tinha como mote celebrar a conclusão dos seis anos do curso de Medicina, mas o destino de sonho depressa se transformou num pequeno pesadelo, inseguro e completamente imprevisível. É de um hotel em Arequipa, que fica a 1.200 quilómetros da capital, Lima, que um dos jovens, Tiago Pais, fala à CNN Portugal, relatando a situação difícil pela qual o grupo está a passar. "Não tem sido fácil, tanto para nós como para as nossas famílias", sublinha.

Tiago conta que ele os colegas têm estado em contacto tanto com os familiares como com a Embaixada de Portugal, ainda que sem soluções concretas garantidas. Mas, pelo menos por agora, no que às condições de segurança diz respeito, há uma maior tranquilidade. O jovem recorda as mais de 50 horas durante as quais o grupo esteve retido num autocarro, em plena estrada Pan Americana em direção a Cuzco. "Foram horas muito difíceis", destaca. "Acabámos por ficar bloqueados na maior via da América do Sul. Ficámos bloqueados tanto pela frente como por trás, por pedras, por protestos e manifestantes que bloquearam rapidamente as estradas". Num dos vídeos enviados pelo jovem à CNN Portugal é possível perceber o caos na estrada pela qual passavam: são visíveis as barricadas e alguns focos de incêndio.
 
As condições de higiene foram-se degradando e a comida começou a faltar. "Havia uma casa de banho no autocarro que era usada por todos e que começou a não apresentar as melhores condições", continua. Depois, "em termos de alimentação", "os mantimentos começaram a esgotar-se". "A determinada altura tivemos de abandonar o autocarro e viajar pelos nossos próprios pés até à zona dos restaurantes que era o centro dos protestos locais. Foi um risco que tivemos de correr. Foram momentos difíceis, mas começávamos a ficar com fome e os mantimentos que tínhamos não eram suficientes", conta à CNN Portugal.
 
Como o autocarro continuava com dificuldades em sair do local, os portugueses, juntamente com dois dinamarqueses, dois peruanos e a guia, acabaram mesmo por seguir a pé até à vila mais próxima. Foi novamente um risco. Necessário para conseguirem estar agora num ambiente mais seguro. "Agora estamos mais tranquilos do que nos dias em que estivemos no autocarro retidos", admite Tiago. Mas essa também pode ser uma falsa sensação de segurança, no sentido em que tudo pode mudar e muito rapidamente. "Sabemos que a situação está para piorar e a instabilidade que se vive pode virar a situação do nada", acrescenta.
 

Viagens estão compradas, mas sem garantias de que aeroporto vai reabrir

Os tumultos provocados pela destituição do presidente do Peru, Pedro Castillo, detido sob a acusação de promover um “golpe de Estado”, apanharam de surpresa os jovens portugueses, que tinham regresso marcado para esta quarta-feira. Com as estradas cortadas e o aeroporto de Aerequipa, o segundo maior do país, encerrado, o grupo viu-se impossibilitado de sair da região. Há, no entanto, sinais de que a situação poderá mudar em breve. "Dizem que vão abrir os voos nos próximos dias e decidimos comprar voo para dia 19, voando até Lima de Arequipa", explica Tiago. As passagens foram compradas, do próprio bolso: primeiro de Arequipa para Lima e depois da capital para Madrid. No entanto, não há quaisquer garantias de que as ligações previstas se vão realizar.

"As mensagens da Embaixada são de que não há garantia total que consigamos apanhar. [O aeroporto] Irá abrir no dia 17. Ainda tentámos pressionar para tentar antecipar o voo, mas até agora mantém-se o voo de dia 19 para nós", vinca o estudante.

No hotel em Arequipa, os sete estudantes encontraram outros três portugueses na mesma situação. São no total 40 os cidadãos nacionais retidos no Peru devido à instabilidade política e social. Já foi até criado um grupo nas redes sociais de troca e partilha de informações. "Temos estado em contacto e já foi criado um grupo entre nós para mantermos o contacto entre todos", revela Tiago.

Numa nota enviada às redações, o Ministério dos Negócios Estrangeiros esclarece que estes 40 portugueses "encontram-se nas regiões de Cusco, Arequipa e Águas Calientes (Machu Pichu)". "Todos os cidadãos assinalados encontram-se em segurança e a Embaixada de Portugal em Lima tem mantido contato constante com os próprios e respetivas famílias", acrescenta o comunicado.

Mas a irmã de Tiago Pais, Carolina, não esconde a indignação por considerar que o Estado português devia ajudar os portugueses que foram apanhados de forma totalmente inesperada nesta situação. "Na prática não há ajuda, eles estão completamente abandonados no Peru, por tempo indeterminado. Dizem que, para já, não há nada que possam fazer", afirma, em declarações à CNN Portugal. "Já falámos com o Gabinete de Emergência Consular, que serve precisamente para estes casos de emergência no estrangeiro, e efetivamente toda a gente se descarta, não há uma solução à vista", acrescenta.

Carolina salienta ainda que o cenário de agitação social é imprevisível e que ninguém sabe quanto tempo poderá durar.  "Mandam-nos aguardar em segurança, mas a segurança é relativa no Peru neste momento. E não sabemos quanto tempo vai demorar a reabrir o aeroporto. Podemos estar perante uma possível guerra civil. É tudo muito instável, não sabemos como vai evoluir este assunto", vinca.

Os protestos contra a chefe de Estado eclodiram no domingo registando-se, até ao momento, oito mortos, mais de meia centena de polícias feridos e um número que não foi especificados de manifestantes detidos.  

O Ministério dos Negócios Estrangeiros garante que a Embaixada de Portugal em Lima tem realizado "todas as diligências possíveis junto das autoridades peruanas" para que os portugueses possam sair em segurança do país. "Uma vez que existem outros cidadãos da União Europeia (UE) no Peru, em idêntica situação, está em curso a articulação com os representantes diplomáticos dos demais países da UE no Peru, bem como com o Chefe da Delegação da União Europeia em Lima", salienta a nota.

Do outro lado do mundo, e apesar de todas as dificuldades, o grupo de estudantes portugueses mantém o otimismo e espera conseguir vir passar o Natal a casa. "Continuamos esperançosos e confiantes de que conseguiremos estar em Portugal em breve", remata Tiago.

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