Há um negócio "fácil" por trás das campanhas políticas com perfis falsos. "É um faroeste"

16 mai 2025, 16:49
X (Associated Press)

A manipulação da opinião pública através de perfis falsos nas redes sociais tornou-se mais do que uma ameaça difusa: é um negócio acessível, automático e sem controlo. José Tribolet, fundador do INESC-IST, alerta para a facilidade com que campanhas digitais orquestradas — como a denunciada pela CNN Portugal, com alegado benefício para o Chega — podem ser compradas na Dark Web e executadas sem rasto

Não é fácil. É “facílimo”. José Tribolet, fundador e ex-presidente do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores do Instituto Superior Técnico (INESC-IST), sublinha que a investigação da CNN Portugal, que expôs uma campanha organizada de perfis falsos nas redes sociais para beneficiar o Chega, é um sintoma da simplicidade com que se contrata este tipo de serviços. “É tão fácil porque hoje o que verificamos é que isto é um negócio”. 

“Você quer montar uma campanha contra um político, compra um serviço na Dark Web, e ele é prestado por agentes algures, com máquinas que, sabe-se lá, onde estão”. “Apenas paga e aquilo aparece em grande número, porque são feitos por meios automáticos”, conclui o especialista, alertando para aquilo que define como o “faroeste do espaço digital” 

Tribolet aponta para o timing desta operação, surgindo em plena campanha eleitoral. “Há riscos que são evidentes, praticados por agentes cujo objetivo é manipular informação e acontecimentos”. “São riscos que se sucedem quando temos viagens em espaços virtuais sem rei nem roque”. 

O antigo presidente do INESC-IST defende que as tentativas que existiram em Portugal no sentido de regular os discursos nos espaços virtuais, nomeadamente nas redes sociais, foram “pífias, sem visão”. “Nunca se percebeu realmente a profundidade do que se está a falar, focaram-se demasiado na questão da proteção de dados, na espuma das coisas e não o fundamental”. 

Entre as prioridades que o investigador aponta como essenciais estão seis questões cuja resposta precisa de ser urgente. “É preciso perceber o que é o espaço virtual, quem lá existe, quem o compõe, quem lá atua e que regras de comportamento tem de haver, tal como as reforçar”. “E há maneiras de o fazer”.

Uma delas, argumenta, é a existência de uma espécie de cartão de cidadão que identifique quem são as entidades e os cidadãos que existem e que estão a atuar no espaço virtual. “Estes agentes têm de ter personalidade jurídica.” E tem de haver policiamento do bom comportamento, do exercício de direito e de deveres”. “Não só para pessoas, mas também para agentes conduzidos por Inteligência Artificial”. “Estamos totalmente impreparados para agentes informáticos no espaço virtual a fazer trinta por uma linha e não fazemos a mínima ideia do que está a acontecer”.

“Isso é fundamental”, continua o especialista em declarações à CNN Portugal, destacando que esse policiamento “tem de ficar na mão de uma autoridade reguladora do espaço global”, da mesma forma como há uma autoridade reguladora do espaço aéreo. “No espaço aéreo temos todos os dias milhares de entidades a agir, a falar uns com os outros e tudo isso é um bom exemplo de como se consegue um funcionamento positivo e fiável com riscos enormes e sem grandes problemas”. “E há meios para saber o que sucedeu a este avião, quem lá está dentro e quanto tem de combustível em tempo real”. “Devemos saber a mesma coisa sobre o espaço virtual”.

Na prática, reitera, “não há maneiras hoje de verificar isso”. “Não há autoridades em relação às quais possamos atuar”. Além disso, conclui, “quando se fala que é preciso tornar isto num espaço social responsável, começam imediatamente o surgir comentários a apelar que o espaço virtual é um espaço de liberdade, e que se não a tivermos depois veem forças e tipos poderosos para controlar a gente”. “Claro que veem sempre”, responde, “porque qualquer coisa que façamos há sempre abuso, mas isso não deve ser condição para que não se faça nada”.

Relacionados

Partidos

Mais Partidos