Porque devemos parar de elogiar a perda de peso e o que devemos fazer em vez disso

CNN , Kristen Rogers
25 abr, 17:00
Perder peso (JenkoAtaman/Adobe Stock)

Comentários deste género são feitos com boa intenção, mas podem ter, de forma não intencional, consequências negativas. Eis como devemos agir

Se a sua amiga perdeu peso recentemente, talvez queira dizer-lhe que ela está com um ótimo ar. Talvez lhe diga também como desejava ter o seu corpo ou o seu autocontrolo ou lhe pergunte como perdeu esse peso. Talvez já tenha sido alvo deste mesmo "elogio" no passado.

Comentários deste género são feitos com boa intenção, mas podem ter, de forma não intencional, consequências negativas.

"Nesse caso, estamos involuntariamente a exacerbar ou a afirmar o ideal de magreza que a nossa sociedade tende a valorizar e a idolatrar", afirmou Alvin Tran, um professor assistente de saúde pública na Universidade de New Haven em Connecticut, que faz investigação sobre distúrbios alimentares e imagem corporal.

"Temos de ser muito cautelosos quando participamos em conversas em torno da aparência física de alguém, principalmente no que diz respeito ao seu peso".

Isto é ainda mais importante quando se fala de pessoas com distúrbios alimentares ou problemas graves relativamente à imagem física, uma vez que tais observações podem agravar a sua situação. Elogios sobre a perda de peso ou sobre o corpo mais magro de alguém perpetuam a cultura de dieta já enraizada da sociedade em que vivemos, afirmou Tran, e a ideia de que a magreza é inerentemente positiva.

"Temos tendência para agir (como se pudéssemos) olhar para alguém e, de alguma forma, com base no tamanho do seu corpo, determinar se é saudável ou não", afirmou Tamara Pryor, uma bolseira sénior e diretora de investigação da ED Care, um centro de tratamento de distúrbios alimentares sediado em Denver.

"Temos lá pessoas mais fortes que estão num estado de subnutrição, bem como pessoas extremamente magras que estão subnutridas, e pessoas que têm um corpo dentro dos padrões normais, mas que se encontram muito afetadas pelo seu distúrbio alimentar. Não se consegue perceber isso apenas ao olhar para estas pessoas."

Será que se estivermos contentes ou impressionados com a aparência de alguém, não devemos elogiá-los de todo? O que é e o que não é correto dizer? A CNN pediu conselhos a Pryor e Joann Hendelman, a diretora clínica da Aliança Nacional para os Distúrbios Alimentares.

A seguinte conversa foi ligeiramente alterada por motivos de extensão e clareza.

CNN:  Que outros motivos levam a que o elogio da perda de peso ou da magreza de alguém possa ser problemático?

Tamara Pryor: É intrusivo. A quem é que cabe julgar, sobretudo expressando a sua opinião verbalmente? Podemos olhar para as pessoas e fazer juízos de valor, mas temos de o guardar para nós próprios. Venho da segunda onda do movimento feminista, onde o lema era "o meu corpo é um assunto meu". E continuo a pensar dessa mesma forma.

CNN: Como é que as pessoas que são alvo dos comentários se podem vir a sentir?

Pryor: Se alguém me dissesse, “Meu Deus, estás incrível. Perdeste algum peso,” eu ia pensar: “O que é que esta pessoa pensava antes sobre mim? Será que não estava com uma aparência aceitável?” Consigo imaginar a pressão que essa pessoa sentiria daí em diante para manter o peso baixo ou perder ainda mais peso para receber mais elogios e se sentir aceite. Podem pensar “Então e o meu interior e a essência de quem eu sou enquanto ser humano?” Existem tanto consequências significativas físicas como psicológicas que se perpetuam.

Joann Hendelman: Se depois não receber esse elogio, fica a pensar “Há algo de errado em mim. Não estou com bom aspeto.

CNN: O que é que devemos ter em consideração quando queremos elogiar a aparência de uma pessoa magra?

Pryor: Qualquer observação relacionada com a aparência de alguém tende a espoletar algum tipo de sentimento, e pode ser mais prejudicial para pessoas com distúrbios alimentares, porque estas têm mais sensibilidade na maneira como podem estar a ser julgadas com base no seu tipo de corpo e no seu tamanho.

Uma paciente minha foi com a mãe a uma loja de roupa. Ela tem um peso extremamente baixo e tinha começado a fazer tratamento muito recentemente. Enquanto ela estava no provador a mãe dela suspirou, porque quando viu a filha a experimentar roupa apercebeu-se do quão grave tinha sido a sua perda de peso. Nisto entrou a funcionária da loja, que ouviu a mãe dizer “Querida perdoa-me. Não fazia ideia de que tinhas perdido tanto peso. Fico muito contente que estejas a fazer o tratamento.”

A funcionária disse, “Está a brincar? Eu dava tudo para ser assim tão magra. Como é que fez?” Desta forma, a minha paciente sente-se confusa e dividida: Ela consegue sentir a preocupação genuína da sua mãe, mas, por outro lado, está a ser elogiada.

Hendelman: Conheci e trabalhei com pessoas que tiveram cancro ou outras doenças que fizeram com que perdessem peso. Para estas pessoas, os elogios podem ser bastante desagradáveis porque eles sabem que têm esta doença terrível e, no entanto, os outros estão a elogiá-los pela perda de peso enquanto eles dariam tudo para não ter passado pela mesma.

CNN: O que podemos dizer em vez de enaltecer?   

Pryor: Encontrem formas de interagir que não incluam comentários ao seu corpo.

Se alguém precisava de perder peso por razões de saúde, elogiar a sua determinação por ter alcançado esse objetivo não é a melhor solução. Porque depois pode pensar “Bolas e se agora falho ou ganho novamente peso?” É muita pressão. Se a outra pessoa referir uma recente perda de peso, perguntem-lhe como se sente em relação a essa mudança ou aquilo que a fez tomar essa decisão, em vez de assumirem vocês algo que pode não corresponder à realidade.

Hendelman: Enalteçam-nos naquilo que estão a vestir nesse dia, ou digam algo do género “Estás com um brilho nos olhos hoje” – esse tipo de observações. Se um amigo está ainda muito preso à ideia de ter que ser magro para receber elogios, e eu lhe digo o quão fantástico ele está, estou a apoiar a sua obsessão com o peso e a prejudicá-lo, em vez de ajudar.

CNN: Como é que podemos deixar de percecionar a perda de peso ou a magreza como algo ideal ou necessariamente positivo?

Pryor: Pensem sobre aquilo que, na vossa opinião, significa ser saudável e aquilo que o vosso corpo pode fazer por vocês próprios – tal como ingerir os nutrientes de que precisam ou ganhar força.

Hendelman: Se conseguirmos aceitar que o nosso corpo nos leva de uma posição a outra, e que o importante não é como somos fisicamente, mas sim o que está cá dentro – pode ser incrível pensar naquilo que ele nos proporciona.

É importante aceitarmos quem somos e a nossa singularidade. Temos de aceitar a nossa genética. Quanto mais conseguirmos aceitar o nosso corpo, mais saudáveis poderemos ser. Acreditem que o nosso corpo sabe o que é melhor para nós.

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