Vivemos num tempo em que as perceções têm mais palco do que os factos, em que o debate público parece cada vez mais refém de quem fala mais alto, da manchete mais clicável e da narrativa mais conveniente. E os dados? Esses ficaram presos no último parágrafo, escondidos entre opiniões que ninguém teve tempo ou paciência para verificar.
Este não é um problema novo, mas tornou-se mais grave. O imediatismo das redes sociais, combinado com a volatilidade do espaço mediático, transformou as perceções em factos alternativos. Uma narrativa surge, viraliza, é debatida sem ser questionada e, no fim, influencia políticas públicas. E assim se legisla. Não sobre a realidade, mas sobre a perceção da realidade.
Um exemplo: a recente proposta para limitar o acesso de não-residentes ao SNS. Não quero aqui discutir o mérito da medida ou a falta dele. Importa antes perguntar: Quais os dados que sustentam esta decisão? São os do relatório da IGAS, que desvaloriza os próprios números e diz que o turismo de saúde não é um problema? Estamos a legislar com base no que “parece” ser verdade, contrariando as fontes oficiais?
Quando este tipo de argumentos e de debate fica preso no Twitter, o problema é limitado. As pessoas zangam-se, fazem memes, e a vida segue - até porque no dia seguinte outro tema acionará os dedos frenéticos dos internautas, sempre dispostos a enfurecerem-se com toda e qualquer polémica. O problema surge quando essas perceções atravessam os ecrãs e entram nos gabinetes ministeriais ou nos corredores de São Bento. Aí já não estamos a falar de likes ou de partilhas: estamos a falar de políticas públicas desenhadas para combater problemas que, muitas vezes, não existem. E, por isso, a gravidade do caso aumenta.
E isso não é incompetência, porque muitas vezes é intencional. Mas é perigoso, porque valida o discurso de quem vive de explorar perceções. Em Portugal assistimos à ascensão rápida de partidos políticos que não precisam de factos para existir: basta-lhes organizarem-se em torno de um líder palavroso e populista, fabricarem e espalharem um boato bem contado e terem do seu lado uma sociedade demasiado ocupada para o desmentir. Quando outros partidos, sobretudo os tradicionais, cedem a este jogo, não estão só a legitimar as perceções: estão a enfraquecer o contrato social que é a base da democracia. E isto não é um exclusivo deste Governo (basta lembrar a frouxa reação da direção do PS ao caso de Ricardo Leão) e muito menos de Portugal, mas não podemos ser passivos e aceitar que se alastre para o espaço democrático.
Hoje, talvez como nunca, o rigor importa. Porque o rigor é o único antídoto para o ruído. Se os dados perdem valor, o que sobra? Sem dados, não temos debates, temos uma sucessão de monólogos. E sem debates a democracia começa a rebentar pelas costuras.
As perceções são fáceis de criar. E o exercício nem sequer exige muita espessura intelectual. A receita é tão fácil quanto estrelar um ovo. Ora veja:
- Pegue num conceito, idealmente com provas dadas a nível internacional: “turismo de saúde”.
- Crie uma frase curta, de fácil apreensão e idealmente sonora para tornar o conceito mais nacional: “O SNS está cheio de estrangeiros”. Nota importante: a frase deve sugerir logo à partida que estamos perante um problema, para aguçar o apetite dos seus convivas.
- Para robustecer a tese, junte-lhe sugestões pouco rigorosas, mas aparentemente empíricas: “basta olhar para as salas de espera dos hospitais”.
- A perceção está pronta a servir, pode clicar em “publicar” e alimentar as suas redes sociais.
Como se vê, é fácil plantar uma ideia, criar uma perceção. Difícil é desenterrá-la. Como profissional da comunicação com quase dez anos de experiência (primeiro como jornalista, depois como adjunto em dois Governos e agora como consultor de comunicação e de Public Affairs), procurei sempre manter-me fiel a um princípio: os bons dados matam os falsos relatos. Mesmo que demore mais tempo, mesmo que requeira mais paciência e mesmo que exija uma permanente resistência às tentações de ceder ao facilitismo.
O poder dos factos será sempre maior que o das perceções. Mas para o comprovar temos de os usar. É nos dados — e não nas perceções — que está o verdadeiro poder de desarmar narrativas e revelar a verdade. Defendê-los é uma obrigação para todos, sejam políticos, jornalistas, assessores de comunicação ou consultores políticos. Caso contrário, as perceções continuarão a ganhar. E com elas perdemos todos.