Um grupo de amigas participou numa vigília em Pequim. Depois, uma a uma, desapareceram

CNN
24 jan, 22:00
Manifestantes seguram os seus telemóveis durante uma vigília contra as políticas de covid-zero da China, ao longo do rio Liangma, em Pequim, em 27 de novembro de 2022. Créditos: Kevin Frayer/Getty Images

Quando uma a uma, as amigas de uma jovem mulher que vivia em Pequim começaram a desaparecer - detidas pela polícia após participarem numa vigília semanas antes - ela teve a certeza que a sua vez estava próxima.

"Enquanto estou a gravar este vídeo, quatro das minhas amigas já foram levadas", disse a mulher, de 26 anos, falando para a câmara numa gravação de finais de dezembro obtida pela CNN.

"Pedi a alguns amigos para divulgarem este vídeo após o meu desaparecimento. Por outras palavras, quando virem este vídeo já terei sido levada pela polícia."

A mulher - uma recém-licenciada que trabalha numa editora - está entre as oito pessoas, principalmente jovens, profissionais, do sexo feminino e do mesmo círculo social, que a CNN soube que foram discretamente detidas pelas autoridades nas semanas que se seguiram a um protesto pacífico na capital chinesa, a 27 de novembro.

Esse protesto foi um dos muitos que eclodiram nas principais cidades do país, numa demonstração sem precedentes de descontentamento para com a política covid-zero na China, entretanto terminada.

A CNN confirmou que duas das oito detidas foram libertadas sob fiança nas noites de quinta e sexta-feira, pouco antes do início das celebrações do Ano Novo Chinês. Uma libertação foi confirmada à CNN pelo advogado de uma das detidas, que recusou dizer se a sua cliente tinha sido acusada de um crime. A segunda foi confirmada por uma fonte com conhecimento direto.

A CNN não conseguiu confirmar se outras detidas foram libertadas e, em caso afirmativo, quantas.

Duas das jovens detidas, incluindo a editora, foram formalmente acusadas, na sexta-feira, de "fomentar protestos e provocar problemas", disseram fontes diretamente familiarizadas com os seus casos - uma medida que as pode levar a julgamento, não tendo a nenhuma delas sido concedida fiança desde esse dia.

O número total de pessoas detidas por participação em protestos contra os sistemas de segurança e judiciais da China também permanece incerto.

As autoridades de Pequim não fizeram qualquer comentário oficial sobre as detenções e o Gabinete de Segurança Pública da cidade não respondeu ao pedido de esclarecimentos da CNN. Também não foi confirmado por parte das autoridades de que estas ou quaisquer outras detenções tenham sido feitas em ligação com os protestos.

Manifestantes seguram folhas de papel em branco durante uma vigília contra as políticas de covid-zero na China, em 27 de novembro de 2022, em Pequim. Créditos: Kevin Frayer/Getty Images

A CNN contactou, na segunda-feira, o comando distrital que se crê ser responsável pelas detenções na sequência do protesto de 27 de novembro, mas não obteve resposta antes da publicação deste artigo.

O que se sabe sobre estas detenções, realizadas discretamente nas semanas seguintes a 27 de novembro, é um marco arrepiante de até onde irá o Partido Comunista da China para acabar com todas as formas de dissidência e liberdade de expressão - e as tácticas utilizadas para contrariar as ameaças.

O relato que se segue foi, salvo indicação em contrário, reconstruído a partir de entrevistas com três fontes distintas, cada uma delas conhecedora diretamente de pelo menos uma das detidas e que está familiarizada com as circunstâncias das outras.

A CNN concordou em não citar quaisquer fontes devido às suas preocupações sobre a retaliação do Estado chinês e as sensibilidades de falar aos meios de comunicação social estrangeiros. A CNN também não identifica as detidas por motivos semelhantes.

Uma vigília noturna

No final da noite de 27 de novembro, manifestantes reuniram-se ao longo das margens do rio Liangma, em Pequim, para recordar pelo menos 10 pessoas mortas num incêndio que consumiu um prédio confinado pelas autoridades, na cidade de Urumqi, no noroeste do país. A raiva dos cidadãos tinha aumentado após o surgimento de imagens de vídeo que pareciam mostrar medidas de bloqueio que atrasavam o acesso dos bombeiros ao local e às vítimas.

Muitos na multidão que se reuniu no coração do distrito das embaixadas de Pequim, naquela noite, seguraram folhas em branco de tamanho A4 - uma metáfora para as inúmeros publicações críticas, notícias e contas de meios de comunicação que foram apagadas da Internet pelos censores da China. Alguns condenaram a censura e apelaram a maiores liberdades políticas, ou gritaram slogans apelando ao fim dos incessantes testes covid e confinamentos. Outros ligaram as lanternas dos seus telemóveis em memória das vidas perdidas na aplicação da política de covid zero.

Enquanto a polícia se alinhava pelas ruas nessa noite, o ambiente era em grande parte calmo e pacífico.

A editora que se juntou à vigília naquela noite fê-lo "com o coração apertado", depois de saber que outros estariam de luto pelas vítimas do incêndio de Urumqi, disse ela na sua mensagem de vídeo.

Levando flores e notas de condolências para as vítimas, a editora encontrou-se com as amigas. Entre elas estava uma ex-jornalista que tinha estudado Sociologia no estrangeiro e tinha sido voluntária da comunidade durante o confinamento em Xangai.

Outra amiga, jornalista, assistiu à vigília, bem como uma professora e uma escritora - todas mulheres jovens em fases semelhantes da vida - diplomadas universitárias nos últimos anos, a iniciarem agora as suas carreiras.

Algumas pessoas deste pequeno círculo foram-se embora antes dos protestos terminarem, parando apenas para comprar comida antes de regressarem a casa nessa noite e sem saberem que as suas vidas estavam prestes a mudar.

O "direito de expressar emoções legítimas"

Nos dias que se seguiram, as suas vidas começaram a desmoronar-se.

As autoridades de Pequim utilizaram dados de telemóveis para localizar aqueles que se manifestaram ao longo do rio Liangma e chamá-los para serem interrogados.

Membros do grupo de amigas estavam entre os que foram levados para a esquadra. A polícia confiscou ou revistou os seus telefones e dispositivos eletrónicos e submeteu pelo menos um deles a um teste de urina, de acordo com uma das fontes. Alguns, como a editora, foram inicialmente levados para interrogatório e depois detidos durante cerca de 24 horas, antes de serem libertados.

Para os membros do grupo, uma calma desconfortável pairou nos dias seguintes. A editora disse que sentiu que poderia ter sido o fim. Mas também sabiam que o que tinham feito era inócuo e não diferente do que outros fizeram na multidão naquela noite.

Mas pouco mais de duas semanas depois, começou a captura destas amigas de Pequim. A partir de 18 de dezembro, quatro mulheres do grupo de amigas e um dos seus namorados foram detidos pela polícia durante vários dias. A editora soube das detenções com um sentimento de terror, disse uma fonte. Ela decidiu que, se fosse levada também, seria melhor que estivesse na sua cidade natal do que num apartamento arrendado em Pequim.

Na gravação vídeo, disse ter assistido à vigília com as suas amigas naquela noite, porque tinham o "direito de expressar as suas emoções legítimas quando os concidadãos morrem", como pessoas que se preocupam com a sociedade em que vivem.

"No local, seguimos as regras, sem causar qualquer conflito com a polícia. Porque é que isto tem de custar a vida aos jovens comuns? Porque é que podemos ser levados de forma tão arbitrária?", questionou.

Mas no dia 23 de dezembro, depois de chegar à sua cidade natal, também ela foi detida, segundo duas pessoas familiarizadas com a situação. Vários dias depois, a sua amiga, a ex-jornalista, também foi detida no regresso à sua cidade natal, no sul da China, tornando-se a sétima pessoa do círculo a ser detida pela polícia.

Após as detenções, outra amiga começou a contactar as suas famílias, que eram de diferentes partes do país e não estavam em contacto entre si, na esperança de ajudar a coordenar a defesa das jovens, de acordo com uma fonte.

No início deste mês, essa amiga também foi detida, de acordo com duas fontes.

Pessoas que as conhecem expressaram um sentimento de confusão sobre as detenções em entrevistas à CNN, descrevendo-as como jovens profissionais do sexo feminino que trabalham em editoras, jornais ou na educação, empenhadas e com espírito social, e não dissidentes ou organizadoras de movimentos contestatários.

Polícia chinesa organiza um cordão de segurança durante uma vigília em Pequim contra as políticas covid-zero na China, em 27 de novembro de 2022. Créditos: Bloomberg/Getty Images

Uma dessas pessoas sugeriu que a polícia pode ter suspeitado precisamente por serem mulheres jovens e politicamente conscientes. As autoridades chinesas têm um longo e bem documentado historial de visar feministas, e pelo menos uma das mulheres detidas foi questionada durante o seu interrogatório em novembro sobre se tinha algum envolvimento em grupos feministas ou ativismo social, especialmente durante o tempo passado no estrangeiro, disse uma fonte.

Todas sentiram que as detenções indicavam um espaço cada vez mais apertado para a livre expressão na China.

"Para ser honesto, penso que a lógica de as prender não é muito clara", disse outra fonte que as conhece. "Porque elas não são particularmente experientes (com ativismo). A julgar por este resultado, só posso dizer que esta é uma supressão implacável de alguns dos mais simples e espontâneos apelos à justiça na sociedade de hoje", disse a mesma pessoa.

"Se foram detidas porque participaram num protesto pacífico, acredito que qualquer jovem que goste de literatura e anseie por um pouco do chamado 'pensamento livre' possa ser preso", disse outra fonte. "Este sinal é aterrador."

Destino incerto

Como a frustração popular de três anos de confinamentos covid-zero, testes em massa e rastreio permanente alimentaram manifestações de um tipo não visto desde o movimento pró-democracia da Praça Tiananmen de 1989, as forças de segurança abstiveram-se, em grande parte, de uma repressão imediata e pública que poderia ter corrido o risco de ser condenada no país e no estrangeiro.

Em vez disso, nos dias que se seguiram, as forças de segurança foram enviadas em massa para as ruas para desencorajar novas manifestações, com a polícia a patrulhar as ruas e a verificar os telemóveis, ao mesmo tempo que procurava os participantes, avisando-os para não participarem mais ou levando alguns para serem interrogados, de acordo com a reportagem da CNN na altura.

Mesmo a 7 de dezembro, quando o governo, no meio de uma pressão económica crescente, aliviou as políticas da covid-19 que tinham desencadeado os protestos, tinham já começado a surgir sinais de quanto o partido considerava aqueles que se tinham reunido nas ruas como uma ameaça.

No que parecia ser o primeiro reconhecimento oficial dos protestos de 29 de novembro, o chefe da segurança interna da China, sem mencionar diretamente as manifestações, apelou à aplicação da lei para "atacar resolutamente contra as atividades de infiltração e sabotagem pelas forças hostis", informou a agência noticiosa estatal Xinhua.

Pouco tempo depois, em comentários mais contudentes, o enviado da China a França sugeriu aos repórteres - sem fornecer qualquer prova - que embora as manifestações pudessem ter começado devido à frustração pública com os controlos da covid-19, foram rapidamente cooptadas por forças estrangeiras antiChina, de acordo com uma transcrição mais tarde publicada no site da embaixada.

No entanto, no seu discurso de Ano Novo no final de dezembro, o líder chinês Xi Jinping afirmou que era "natural que pessoas diferentes tivessem preocupações diferentes ou opiniões diferentes sobre a mesma questão" num país grande, e o que importava era "construir consenso" - um comentário visto por alguns observadores como de tom conciliatório, em contraste com a repressão das forças de segurança.

"A 'revolução A4' realmente chocou as autoridades chinesas", disse o advogado académico Teng Biao, um especialista mundialmente reconhecido na defesa dos direitos humanos na China, utilizando um nome popular para os protestos de âmbito nacional que faz alusão aos pedaços de papel em branco nas mãos dos manifestantes. "E o governo chinês queria muito saber quem estava por detrás do protesto."

"É possível que o governo chinês ou a polícia secreta tenham alguma teoria de que alguns manifestantes desempenharam um papel importante", disse Teng, que é atualmente professor visitante na Universidade de Chicago e que também ele foi detido na China pelo seu trabalho sobre os direitos humanos e a legalidade. 

"Eles querem obter provas de que os manifestantes ou participantes têm ligações com os Estados Unidos, com outros países, talvez fundações estrangeiras, e no passado chegaram a usar a tortura para obter confissões."

Grupos internacionais de direitos humanos acusaram repetidamente a China de extorquir confissões aos detidos através da tortura - uma prática que é proibida na China e que as autoridades garantem ter sido eliminada.

O Centro de Estudos do Leste Asiático da Universidade de Chicago emitiu na quarta-feira um comunicado dizendo que estava "ciente de que pessoas, incluindo um antigo aluno da Universidade de Chicago, foram recentemente detidos na China devido à sua participação em protestos pacíficos", e apelaram à sua rápida libertação.

De acordo com a lei penal chinesa, os procuradores têm 37 dias para aprovar uma detenção criminal ou libertar os detidos. Se as pessoas não forem libertadas dentro desse prazo, têm poucas hipóteses de serem libertadas antes do julgamento - e quase todos os julgamentos terminam com o veredicto de culpado, segundo Teng.

A simples acusação de "fomentar discussões e provocar problemas" de que foram alvo duas das amigas implica uma pena máxima de até cinco anos. Uma libertação sob fiança, embora rara, leva muitas vezes ao arquivamento do caso, indicou Teng.

No entanto, o tratamento de casos políticos e de direitos humanos na China, "na prática, é totalmente arbitrário", disse, acrescentando que enquanto estes casos em Pequim tinham sido trazidos à luz do dia, poderia haver dezenas, se não várias centenas, de detenções semelhantes em cidades de todo o país que continuam por relatar - com famílias com medo de contratar advogados ou de falar com os meios de comunicação social.

A profunda incerteza do que viria a seguir dentro do sistema opaco da China estava claramente presente na mente da editora ao gravar a sua mensagem de vídeo nos dias que antecederam a sua detenção. Depois, ela pensou na sua família, que não teria a certeza para onde tinha ido - e o que fariam na situação em que agora se encontram.

"Acho que a minha mãe está a caminho de Pequim para perguntar sobre o meu paradeiro", disse a editora, que a CNN confirmou ter ficado detida na sexta-feira.

Nas suas palavras finais na mensagem de vídeo, ela fez um simples pedido de ajuda: "Não nos deixem desaparecer deste mundo sem clareza. Não nos deixem ser levados ou condenados arbitrariamente."

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