Muitas das vítimas acreditam firmemente que existem informações que oferecem provas claras de que a Rússia está por detrás dos seus sintomas, alguns dos quais foram suficientemente graves para forçar reformas antecipadas
O Departamento de Defesa dos Estados Unidos passou mais de um ano a testar um dispositivo comprado numa operação secreta que alguns investigadores acreditam poder estar na origem de uma série de problemas de saúde misteriosos que afetaram espiões, diplomatas e militares norte-americanos, conhecidos informalmente como Síndrome de Havana, segundo quatro fontes informadas sobre o assunto.
Uma divisão do Departamento de Segurança Interna, a Homeland Security Investigations (HSI), adquiriu o dispositivo por vários milhões de dólares nos últimos dias da administração Biden, recorrendo a financiamento do Departamento de Defesa, de acordo com duas das fontes. Os responsáveis pagaram “oito dígitos” [entre 10 e 99 milhões de dólares] pelo equipamento, disseram, recusando-se a indicar um valor mais preciso.
O dispositivo continua a ser analisado e mantém-se um debate em curso — e, em alguns setores do governo, ceticismo — quanto à sua ligação a algumas dezenas de incidentes de saúde anómalos que permanecem oficialmente sem explicação.
A CNN pediu comentários ao Pentágono, à HSI e ao Departamento de Segurança Interna. A CIA recusou comentar.
O dispositivo adquirido pela HSI produz ondas de rádio pulsadas, afirmou uma das fontes — um mecanismo que, há anos, alguns responsáveis e académicos especulam poder estar na origem destes incidentes. Embora o equipamento não seja totalmente de origem russa, contém componentes russos, acrescentou esta fonte.
Durante muito tempo, os responsáveis têm tentado perceber como é que um dispositivo suficientemente potente para causar os danos relatados por algumas vítimas poderia ser portátil; essa continua a ser uma das questões centrais, segundo uma das fontes informadas sobre o equipamento. O dispositivo pode caber numa mochila, afirmou.
A aquisição reacendeu um debate doloroso e controverso dentro do governo norte-americano sobre a Síndrome de Havana, conhecida oficialmente como “episódios de saúde anómalos”.
A doença misteriosa surgiu pela primeira vez no final de 2016, quando um grupo de diplomatas dos EUA colocados na capital cubana, Havana, começou a relatar sintomas compatíveis com traumatismo craniano, incluindo vertigens e dores de cabeça extremas. Nos anos seguintes, foram registados casos em várias partes do mundo.
Na década seguinte, a comunidade de intelligence e o Departamento de Defesa tentaram perceber se estes funcionários foram alvo de algum tipo de ataque com energia dirigida por parte de um governo estrangeiro. Altos responsáveis dos serviços de informações afirmaram publicamente que não existiam provas suficientes para sustentar essa conclusão, enquanto as vítimas acusam o governo dos EUA de as ter manipulado e de ter ignorado provas importantes de que a Rússia estaria a atacar funcionários do Estado norte-americano.
Ainda assim, os responsáveis da Defesa consideraram as conclusões suficientemente graves para informarem, no final do ano passado, as comissões de Serviços de Informações da Câmara dos Representantes e do Senado, incluindo referências ao dispositivo adquirido e aos testes em curso.
Uma das principais preocupações atuais de alguns responsáveis é a de que, se a tecnologia se revelar viável, possa ter proliferado, segundo várias fontes, o que significaria que mais do que um país poderia agora ter acesso a um dispositivo capaz de provocar lesões que podem pôr fim a carreiras de funcionários dos EUA.
A CNN não conseguiu apurar onde — ou a quem — a HSI comprou o dispositivo, mas esta agência tem um histórico de colaboração com o Departamento de Defesa em operações realizadas em todo o mundo. A HSI dispõe de uma jurisdição alargada para investigar crimes ligados a violações aduaneiras, incluindo investigações sobre a proliferação de tecnologia ou conhecimento controlados pelos EUA no estrangeiro.
Essas investigações são “o maior ponto de colaboração entre a HSI e as forças armadas dos EUA”, segundo um antigo responsável do Departamento de Segurança Interna.
Por exemplo, quando os militares norte-americanos encontravam tecnologia dos EUA no Afeganistão ou no Iraque que levantava dúvidas sobre a forma como esses componentes chegaram à região, recorriam à HSI, explicou esse responsável.
Também não é claro como é que o governo dos EUA teve conhecimento da existência do dispositivo ao ponto de o conseguir adquirir. A Síndrome de Havana — e a sua causa — continuam a ser profundamente opacas, tanto para a comunidade de intelligence como para a comunidade médica.
Um dos problemas enfrentados pelos médicos é a ausência de uma definição clara de “incidentes de saúde anómalos” (anomalous health incidents, AHIs). Em alguns casos, os testes foram realizados muito tempo depois do início dos sintomas, o que dificulta a compreensão do que aconteceu fisicamente.
Em 2022, um painel de intelligence que investigou a causa dos AHIs afirmou que alguns episódios poderiam “plausivelmente” ter sido causados por “energia eletromagnética pulsada” emitida por uma fonte externa.
Mas, em 2023, a comunidade dos serviços de informações declarou publicamente que não conseguiu ligar nenhum dos casos a um adversário estrangeiro, considerando improvável que a doença inexplicada fosse o resultado de uma campanha direcionada por um inimigo dos Estados Unidos. Ainda em janeiro de 2025, a avaliação global desta comunidade mantinha que era muito improvável que os sintomas tivessem sido causados por um ator estrangeiro — embora um responsável do Gabinete do Diretor das Informações Nacionais tenha sublinhado que os analistas não conseguem “excluir” essa possibilidade num pequeno número de casos.
Esta posição tem indignado há muito as vítimas, muitas das quais acreditam firmemente que existem informações que oferecem provas claras de que a Rússia está por detrás dos seus sintomas, alguns dos quais foram suficientemente graves para forçar reformas antecipadas.
Alguns atuais e antigos oficiais da CIA levantaram preocupações de que a agência terá suavizado a sua investigação, como a CNN noticiou anteriormente.
A aquisição do dispositivo foi encarada por algumas vítimas como uma possível validação das suas suspeitas.
“Se o [governo dos EUA] descobriu de facto dispositivos deste tipo, então a CIA deve a todas as vítimas um pedido de desculpas público e monumental pela forma como fomos tratados como párias”, afirmou Marc Polymeropoulos, um dos primeiros oficiais da CIA a tornar públicas as lesões que diz ter sofrido num ataque em Moscovo, em 2017, numa declaração à CNN.
*Kylie Atwood contribuiu para este artigo