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Esta ilha paradisíaca está assombrada por uma das batalhas mais sangrentas da Segunda Guerra Mundial

CNN , Lilit Marcus
30 mai, 15:00
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A batalha esquecida da Segunda Guerra Mundial, que deveria durar apenas alguns dias e prolongou-se durante meses, devastou esta ilha do Pacífico, onde as marcas ainda são visíveis

NOTA DO EDITOR: A CNN Films apresenta “Why We Dream”, que acompanha um grupo de veteranos centenários da Segunda Guerra Mundial numa peregrinação à Normandia, em França, para o 80.º aniversário do Dia D. Disponível na aplicação da CNN.

A ilha é exuberante, com inúmeras tonalidades de verde intensificadas pela chuva da manhã. Ao largo da costa, mergulhadores flutuam sobre recifes de coral intactos. Ao sair do pequeno cais de madeira, os visitantes passam por grupos de figueiras e fetos que chegam aos tornozelos, enquanto montes de pedras cinzentas assinalam trilhos de caminhada.

E depois, no meio de um campo vazio, surge um tanque anfíbio militar japonês, com grinaldas de plantas verdes a crescer entre as rodas enferrujadas.

O contraste é chocante. Mas é precisamente isso que trouxe turistas vindos de lugares tão distantes como Estados Unidos, Canadá, Taiwan, Coreia do Sul e Japão: ver de perto a ilha tropical onde decorreu uma das batalhas mais sangrentas e menos recordadas do teatro do Pacífico na Segunda Guerra Mundial.

Quando as tropas americanas chegaram à remota ilha de Peleliu, no Pacífico, em setembro de 1944, a missão parecia simples: atacar a ilha e destruir a base aérea japonesa ali instalada. Após alguns dias de bombardeamentos, os soldados desembarcaram e encontraram a ilha aparentemente vazia, com todos os inimigos aparentemente derrotados.

O que os americanos não sabiam — e que a vigilância aérea não detetara — era que Peleliu estava repleta de profundas redes de grutas subterrâneas. Os japoneses tinham fortificado muitas dessas cavernas e armazenado comida, água e munições, pelo que, quando os bombardeamentos começaram, refugiaram-se no subsolo.

A Batalha de Peleliu, que deveria durar apenas alguns dias, prolongou-se durante meses. Tornou-se uma das batalhas mais brutais de toda a campanha do Pacífico e, atualmente, a maioria dos historiadores concorda que nunca deveria ter acontecido. Ainda assim, continua pouco conhecida entre os americanos, que tendem a aprender mais sobre Iwo Jima ou Guadalcanal nas escolas.

Esta fotografia de arquivo mostra tropas americanas ao largo de Peleliu enquanto se preparavam para invadir a ilha, em setembro de 1944. (Bettmann Archive/Getty Images)

“Foi um verdadeiro horror”, afirma Joe Whelan, autor do livro Bitter Peleliu.

“Na verdade, foi uma batalha que nunca precisou de ser travada — e provavelmente não devia ter acontecido. O almirante Halsey recomendou que simplesmente ignorassem a ilha. Mas a frota de invasão já estava a caminho e ele foi contrariado pelo almirante Nimitz, que comandava toda a campanha do Pacífico.”

William Halsey Jr. era o almirante de cinco estrelas responsável pelas forças navais na região.

No total, cerca de 14 mil japoneses e 10 mil americanos perderam a vida durante o cerco a Peleliu. Nem todos morreram devido a bombas e tiros. As temperaturas ultrapassavam frequentemente os 38 graus Celsius, e muitos homens morreram de insolação e desidratação. Outros adoeceram após beberem água contaminada. Eventualmente, os principais comandantes japoneses morreram por seppuku, um ritual tradicional de suicídio.

Nessa altura, explica Whelan, a guerra estava praticamente perdida para o Japão, e os japoneses tinham mudado para uma estratégia de desgaste.

“Queriam que os americanos os atacassem, para poderem matar mais soldados americanos. Achavam que, se causassem perdas suficientes, conseguiriam forçar os Estados Unidos a negociar.”

A maioria dos historiadores assinala o fim da Batalha de Peleliu a 24 de novembro de 1944, o dia em que morreu o principal comandante japonês, o coronel Kunio Nakagawa.

Hoje, guias turísticos acompanham visitantes através destas grutas, onde pedras xintoístas gravadas com inscrições japonesas assinalam os locais onde soldados morreram. Alguns visitantes deixam bandeiras japonesas ou flores de cerejeira prensadas junto às sepulturas, cujas pedras rapidamente ficam cobertas de musgo devido ao clima húmido da ilha.

Peleliu, vista do ar, é por vezes descrita como tendo a forma de uma pinça de caranguejo. (KKKvintage/iStockphoto/Getty Images)

Peleliu é uma ilha da Micronésia localizada cerca de 800 quilómetros a leste das Filipinas. Atualmente, integra o pequeno arquipélago que forma o país de Palau.

Ao longo da sua história, Palau esteve sob controlo de Japão, Espanha, Alemanha e Estados Unidos, mas tornou-se uma nação independente em 1994. A sua bandeira — azul-clara com um círculo amarelo ligeiramente descentrado — é apelidada por entusiastas de bandeiras de “Japão feliz”, por se assemelhar a uma versão mais luminosa da bandeira japonesa.

Apenas alguns milhares de turistas visitam Palau todos os anos. O aeroporto do país só tem três portas de embarque, suficientes para alguns voos semanais vindos de cidades como Taipé e Manila.

Palau é também uma paragem do famoso “Island Hopper”, voo da United Airlines que parte do Havai e faz escala em várias ilhas do Pacífico, incluindo Guam. Para alguns viajantes, o próprio voo é a atração principal, e limitam-se a passar pelos destinos sem sequer sair do aeroporto.

Embora seja um país em livre associação com os Estados Unidos — usando moeda americana e beneficiando de proteção militar norte-americana — Palau continua a ser um destino relativamente desconhecido entre turistas americanos.

Antes da guerra, era um protetorado japonês, com trabalhadores oriundos de Okinawa que exploravam minas de fosfato. Ainda hoje é comum encontrar apelidos japoneses nas caixas de correio de Palau.

Para além das ruínas físicas da base japonesa em Peleliu, há outros vestígios da guerra espalhados pela ilha. Muitos dos nomes atribuídos pelos soldados americanos, como White Beach e Bloody Nose Ridge, continuam a ser utilizados.

Os restos da base estão expostos aos elementos naturais, enquanto o antigo hangar está interdito a turistas, devido ao colapso parcial do teto.

Os militares norte-americanos, que mantêm uma pequena presença em Palau, cuidam de um cemitério militar americano em Peleliu. A poucos minutos das ruínas da base e do aeródromo, o cemitério possui arbustos organizados de forma a formar a palavra “USA” vista do céu.

Os habitantes locais ainda encontram ocasionalmente relíquias da guerra durante caminhadas. A regra não oficial é deixar qualquer objeto encontrado junto às placas que assinalam momentos importantes da batalha, sabendo que historiadores e curadores do museu nacional passam regularmente para recolher esses itens.

No dia em que visitei a ilha, em janeiro, um capacete militar americano estava pendurado casualmente num sinal informativo sobre a presença japonesa em Peleliu. Marcado por buracos e parcialmente coberto de bolor, o capacete reforçava a atmosfera inquietante que paira sobre a ilha.

Um pequeno grupo de soldados americanos mantém este cemitério militar em Peleliu. (Lilit Marcus/CNN)

Provavelmente, a maior transformação provocada pela guerra foi na própria paisagem — sobretudo devido ao trabalho dos engenheiros militares americanos.

“Eles nivelaram o terreno com bulldozers e outro equipamento, o que fez com que o subsolo branco ficasse visível e alterou completamente a topografia”, indica Shingo Iitaka, professor de História na Universidade de Kochi, no Japão.

“Existe uma expressão segundo a qual, quando os habitantes de Peleliu regressaram à ilha depois da guerra, já nem sabiam onde estavam.”

Iitaka afirma que, entre os muitos relatos americanos e japoneses sobre a Batalha de Peleliu, há uma perspetiva frequentemente esquecida: a do povo palauense.

“Acho que as pessoas que vivem num território que se tornou campo de batalha são frequentemente ignoradas porque não eram partes envolvidas diretamente na guerra. Mas considero que a memória da guerra preservada pelos habitantes originais daquele território deve ser especialmente valorizada. É quase como viver com os mortos, ou com os vestígios dos mortos.”

Hoje em dia, continuam a existir grupos de turistas japoneses que visitam Peleliu para homenagear os seus compatriotas ou tentar repatriar ossadas de soldados para o Japão.

Mas surgiu também um novo mercado turístico inesperado: os jogadores de videojogos. Peleliu é um dos cenários principais de Call of Duty: World at War, edição da popular série lançada em 2008 e centrada na guerra no Pacífico.

Ainda assim, a Peleliu contemporânea não é o melhor lugar para conhecer a vida tradicional de Palau.

Antes da guerra e da colonização, a maioria dos habitantes vivia em pequenas aldeias lideradas por anciãos dos clãs. Cada aldeia possuía um bai, ou casa dos homens — uma estrutura em madeira em forma de A, decorada com imagens de histórias tradicionais e elevada sobre estacas. Era ali que os líderes tomavam decisões para a comunidade.

Grande parte destes edifícios foi destruída, e hoje restam apenas alguns espalhados pelo país.

Para compreender melhor a história de Palau para além dos anos da Segunda Guerra Mundial, vale a pena visitar o Museu Belau, na principal cidade de Koror. Lá, encontra-se um bai coloridamente pintado e pequenas exposições organizadas cronologicamente.

No cais, enquanto o barco se afasta de Peleliu, surge um sinal pintado com cores vivas.

“Bem-vindo a Peleliu”, lê-se em inglês e japonês. “Por favor, volte novamente.”

*Ayuka Nitta contribuiu para este artigo

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