Pequenos peixes descobertos em riacho da Amazónia já estão em vias de extinção

CNN , por Ashley Strickland
23 mai, 22:00
Pequenos peixes descobertos em riacho da Amazónia já estão em vias de extinção

A desflorestação e outros impactos causados pelo ser humano estão a empurrar a floresta amazónica para um ponto de viragem que irá transformar o ecossistema biologicamente rico e diversificado numa savana herbosa

Foram descobertas duas novas espécies coloridas de peixes na Bacia Amazónica do Brasil - e já estão em risco de extinção.

Os peixes pertencem a uma subfamília designada como dardos sul-americanos. Esta descoberta aumenta para cinco o número de dardos conhecidos desta espécie.

Uma das espécies, a Poecilocharax callipterus, distingue-se pelas suas longas e acentuadas barbatanas vermelho-laranja e por uma mancha escura na base da cauda.

A outra nova espécie, a Poecilocharax rhizophilus, é o dardo mais pequeno já identificado. Este pequeno peixe tem apenas cerca de 2 centímetros de comprimento em adulto. É amarelo brilhante, com uma faixa preta ao longo dos flancos e tem uma barriga prateada e esbranquiçada. 

O pequeno Poecilocharax rhizophilus parece nunca crescer para além dos 2 cm de comprimento, de acordo com um novo estudo.

O estudo que descreve as duas novas espécies, e as ameaças ao seu meio ambiente, foi publicado no Zoological Journal of the Linnean Society.

A desflorestação e outros impactos causados pelo ser humano estão a empurrar a floresta amazónica para um ponto de viragem que irá transformar o ecossistema biologicamente rico e diversificado numa savana herbosa - e esses fatores de pressão podem ser sentidos tanto abaixo da superfície da água como acima.

Murilo Pastana, o autor do estudo e investigador de pós-doutoramento do Museu Nacional Smithsonian de História Natural, em Washington, e os seus colegas viram provas disto mesmo durante as suas expedições entre 2015 e 2016.

"Foi emocionante descobrir espécies novas", disse Pastana. "Mas no terreno, vimos a floresta em chamas, camiões de madeireiros a carregar árvores enormes e áreas desbastadas e tornadas em pastagens de gado. Isto criou em nós uma grande urgência em documentar estas espécies e publicar este artigo o mais rápido possível."

Uma descoberta inesperada

Pastana, que nasceu no Brasil, e os seus colegas partiram para as expedições, financiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, para compreender melhor a diversidade e evolução de peixes como tetras, piranhas e outros nos cursos de água da Bacia do Rio Madeira, rica na biodiversidade piscícola.

Os investigadores levaram comida, mantimentos, medicamentos e instrumentos científicos para várias viagens de duas semanas, durante as quais a equipa acampou à beira de rios e riachos, disse Pastana.

"Estas expedições são complicadas de organizar e de realizar. A maior parte da Amazónia ainda não está ligada ao mapa rodoviário brasileiro, e o acesso só é possível através de rios ou estradas de terra. Fomos recolher amostras em locais que nunca tinham sido visitados por cientistas."

Os investigadores, entre eles Murilo Pastana (ao centro), do Museu Smithsonian, e Willian Ohara (à direita) da Universidade Federal de Rondónia, apanham peixes na margem do rio Apuí, no Brasil.

Esta área funciona como uma fronteira entre novas cidades e a floresta nativa à medida que a desflorestação avança para Norte, disse Murilo. A região fica a cerca de 40 quilómetros a norte da cidade brasileira de Apuí e apresenta uma das maiores taxas de desflorestação - o que significa que as estradas que ajudariam Pastana e os seus colegas a chegar aos riachos, afluentes e lagoas também foram afetadas pela crescente perda de habitat.

Quando os investigadores mergulharam as suas redes de pesca e armadilhas na água, ficaram chocados ao encontrar peixes que não conheciam.

"A última espécie de Poecilocharax foi descrita em 1965, há mais de meio século", disse Pastana. "Por isso, ver estes peixes na nossa rede foi motivo para um grande 'uau'."

Os cientistas fotografaram e preservaram os peixes para serem estudados no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo.

O peixe da espécie Poecilocharax callipterus foi encontrado num riacho de águas escuras que são manchadas por taninos que escorrem de folhas caídas e dão à água uma cor de café. Apesar de uma viagem subsequente para localizar este peixe noutros cursos de água, este só foi encontrado num único riacho que abrange uma área de cerca de 4 quilómetros quadrados.

O peixe Poecilocharax callipterus vive em rios de águas escuras, que são tingidos por taninos de folhas caídas.

A segunda espécie, o pequeno Poecilocharax rhizophilus, foi avistada a reluzir entre raízes emaranhadas que irrompem das margens de riachos lamacentos.

"A miniaturização é rara entre os peixes e apenas cerca de 100 das 2700 espécies conhecidas na Amazónia são considerados miniaturais", disse Pastana.

Já em risco

Pastana e os seus coautores, entre eles Willian Ohara, da Universidade Federal de Rondónia, e Priscila Camelier, da Universidade Federal da Bahia, acreditam que os peixes podem já "estar sob ameaça de extinção" e correm o risco de se tornar espécies ameaçadas.

Perante o pequeno habitat com tendências para diminuir onde os peixes foram encontrados e o facto de poderem ser interessantes para o mercado da aquariofilia, Pastana espera que a descoberta e a denominação das espécies possa estimular o governo brasileiro a avançar com iniciativas de conservação. O Poecilocharax callipterus macho inclui uma variedade de tons de laranja e vermelho.

"A perda de qualquer uma destas espécies seria como perder obras-primas inestimáveis", disse.

Os dados recolhidos por Pastana e pelos seus colegas "deverão ser suficientes para classificar ambas as espécies como quase ameaçadas de acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza - e a Poecilocharax callipterus poderá inclusive ser classificada como criticamente em perigo", disse.

Enquanto isso, a Amazónia continua a estar vulnerável perante a continuidade das práticas de mineração, desflorestação e agricultura - e Pastana está preocupado com a falta de intervenção no sentido da restringir estas atividades ilegais.

Pastana poderá vir a envolver-se em mais investigações para entender melhor as novas espécies de peixes, mas o seu foco principal "estará nas outras espécies que ainda não têm nome. Algumas delas vêm de áreas a sofrer um impacto semelhante e espero que recebam um nome antes que o seu habitat seja destruído."

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