Menos bacalhau, gambas, e tubarões. Mais carapaus, cavalas e... alternativas vegetais. Os portugueses comem demasiado peixe e isso não é bom para o planeta

27 jul, 22:00
Pescadores despejam sardinhas na Docapesca no Porto de Leixões. 18 de julho de 2019. Foto: Horácio Villalobos/Corbis via Getty Images

Somos os maiores consumidores de pescado da União Europeia. E isso é um problema

Os portugueses gostam de comer peixe. É um facto. Na Europa, somos os que mais consomem. Um europeu come, em média, 20 quilos de peixe e marisco por ano. A média portuguesa é três vezes maior: 60 quilos por ano. E o problema é que este consumo não é sustentável e tem impactos não só nos ecossistemas marinhos mas também no clima.

A espécie mais consumida em Portugal é o bacalhau. De acordo com a Sciaena, uma ONG de conservação dos oceanos, o bacalhau representa um terço do consumo total de pescado no país. E esta é uma espécie que não existe em águas portuguesas e que já foi vítima de sobrepesca no passado. "Em geral, consumir local é sempre uma boa regra", explica o biólogo marinho e colaborador da Sciaena Nicolas Blanc, em entrevista à CNN Portugal.

Mas nem toda a pesca feita no país é sinal de uma boa prática ambiental. "Temos o caso da pesca de arrasto de fundo. Nós recomendamos que as pessoas reduzam drasticamente o consumo de pescado proveniente desta frota. Normalmente, mais gambas e lagostins." É que, embora estas espécies representem "algum peso económico" para os pescadores, a sua pesca é "altamente destrutiva" uma vez que implica revirar o fundo do mar. Nesse processo, "muito do carbono que é absorvido por estes ecossistemas de mar profundo acabam por ser libertados com estas redes", argumenta Nicolas Blanc, contribuindo assim para o aquecimento do oceano e, também, do planeta.

Vídeo: Os portugueses comem demasiado peixe e isso não é bom. Entrevista com Nicolas Blanc

Já experimentou comer sarda?

Pelas lotas portuguesas passam mais de 200 espécies de pescado diferentes. No entanto, 90% do consumo concentra-se em cinco grupos: bacalhaus, atuns, pescada, sardinha e chocos/lulas/polvos.

Nicolas Blanc frisa que é importante informar as pessoas sobre espécies que se calhar nunca comeram, mas que são pescadas na nossa costa. "Em vez de estarmos a consumir coisas que podem vir da aquacultura de outros países ou pescadas noutras águas - muitas vezes em zonas que são alvo de sobrepesca ou pesca ilegal - podemos dar um contributo para os nossos pescadores locais". Carapaus, cavalas e sardas, são por exemplo, algumas espécies que devem entrar mais vezes no prato dos portugueses, tal como os bivalves e cefalópodes como os polvos, chocos e lulas.

Por outro lado, devem evitar-se predadores de topo e espécies que estejam em situação preocupante como os atuns, bacalhaus, pescada, tubarões, raias e salmão. Aliás, Portugal é o segundo maior exportador de carne de tubarão.

Mas, mesmo diversificando o tipo de peixe que comemos, reduzir o consumo será inevitável, acredita Nicolas Blanc. O especialista apela à redução consumo de pescado, reforçando a necessidade de uma dieta tendencialmente de base vegetal. "Não estamos a dizer às pessoas para parar de comer por completo, mas é necessário reduzir e pensar em alternativas de base vegetal para termos uma menor quantidade de proteína animal na nossa dieta em geral. Faz parte das nossas tradições e cultura e não irá desaparecer, mas podemos fazer alterações que permitam que esta tradição e cultura perdure", afirma Nicolas Blanc.

Como o peixe que comemos influencia o planeta

Segundo explica Nicolas Blanc, métodos de pesca altamente destrutivos contribuem para as alterações climáticas. "A pesca de arrasto de fundo revira o fundo do mar - literalmente - então muito do carbono que é absorvido por estes ecossistemas acaba por ser libertado por estas redes". Mas os problemas não ficam por aqui. "Para não falar do facto da pesca de arrasto de fundo ser a arte de pesca que tem mais captura acessória: ou seja, há muita captura que é atirada fora porque não é interessante comercialmente".

"Há aqui quase um ciclo: os oceanos consomem quantidades enormes do carbono produzido pelos humanos e isso ajuda a que não haja tanto carbono na atmosfera", afirma o biólogo marinho.

O oceano está a aquecer, em terra assistimos a uma seca e, atualmente, juntam-se à equação os incêndios devastadores. "Estes incêndios geram uma quantidade enorme de carbono que é absorvido pelos oceanos. Isto não só vai aquecer os oceanos, como aumentar a sua acidez - que depois tem efeitos nos recifes de coral e implicações socioeconómicas". 

"Um incêndio em Portugal vai ter consequências não só no mar português, mas no mar global", afirma Nicolas Blanc. "É extremamente importante fazer a ligação dos oceanos com o clima. Porque estas alterações climáticas que estamos a experienciar podem ser diminuídas ou mitigadas de alguma forma com ação de preservação dos oceanos". 

E Nicolas lamenta que Portugal não diferente de muitos outros países: "Temos muita capacidade para fazer melhor. Somos altamente dependentes do mar em Portugal. Seja como produtor de alimento ou para produção de energia. E há habitats que são extremamente importantes para o desenvolvimento de espécies comerciais que depois os nossos pescadores e os consumidores em Portugal vão querer ter à mesa".

O que fica da Conferência dos Oceanos

Um dos compromissos feitos pelo primeiro-ministro António Costa na Conferência dos Oceanos foi o de, até 2030, ter 100% das populações de peixe pescados nas nossas águas dentro dos limites sustentáveis. Ou seja, para qualquer população de peixe há um nível de pesca recomendado cientificamente que se pode atingir para garantir que o stock continua a reproduzir-se de forma saudável.

"Aqui a questão é como vamos chegar lá", aponta Nicolas Blanc, que adverte que há muitas populações de peixe em Portugal em que não sabemos a sua dimensão. "Um dos casos mais evidentes é a cavala, que é um peixe bastante consumido e bastante pescado, na mesma pesca que captura sardinha e carapau, a frota de cerco".

E esta é uma população que em Portugal não é muito bem conhecida. Ou seja, é impossível para os investigadores definirem um limite recomendável para a pesca desta espécie. "Para este compromisso de termos todos os stocks em Portugal a serem pescados dentro dos limites sustentáveis é preciso ter esse conhecimento primeiro."

É também preciso "agir urgentemente". Há habitats onde sabemos que há problemas como são os casos dos tubarões e das raias. "Algumas espécies que pescamos em Portugal estão em declínio e estão em vias de extinção".

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