"Testemunhos de uma dor emocional avassaladora" (incluindo uma queixa de alguém que tem 85 anos): os abusos sexuais dentro da Igreja Católica portuguesa

26 jan, 21:55
Pedro Strecht na conferência de imprensa da Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais na Igreja Católica Portuguesa (TIAGO PETINGA/LUSA)

Comissão que está a recolher testemunhos faz novo balanço do trabalho realizado. Muitos dos casos relatados já prescreveram criminalmente

Quinze dias depois de apresentar o plano para o estudo dos abusos sexuais de crianças na Igreja Católica portuguesa desde 1950, a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos de Menores na Igreja já validou mais de 100 testemunhos de abusos sexuais. Em entrevista à Rádio Renascença, Pedro Strecht, coordenador do grupo de trabalho, revela que uma das queixas foi feita por uma pessoa que tem atualmente 85 anos. Essa mesma pessoa “refere factos ocorridos há 70 anos”, altura em que teria cerca de 15.

“Até agora, a pessoa com mais idade tem cerca de 85 anos. Refere factos ocorridos há cerca de 70 anos, eventualmente”, diz o pedopsiquiatra. Os testemunhos podem chegar de várias formas, mas é sobretudo através da linha “Dar Voz ao Silêncio” (91 711 00 00, ou geral@darvozaosilencio.org) que chegam a maioria das queixas: “Temos registado um número muito, muito importante de contactos. De uma maneira geral superou a nossa expectativa inicial, mas queremos, justamente, que as pessoas continuem a dar a sua voz”, refere Pedro Strecht, que pede que se continuem a relatar eventuais casos de abuso.

Explicando que há relatos de testemunhos “avassaladores”, o coordenador do grupo indica que já foram identificadas situações de cruzamentos de dados em que alguns testemunhos referem “o mesmo local ou a mesma instituição, ou até se for preciso a mesma pessoa”. “São, em muitas circunstâncias, testemunhos de uma força e de uma dor emocional francamente avassaladores”.

Pedro Strecht admite que possam existir casos de relatos falsos, mas o tempo vai ajudar a perceber qual será a percentagem correta. Outra situação é a de pessoas que, apesar de falarem de um caso, preferem não indicar a pessoa que terá praticado o abuso: “Querem apenas dar o seu testemunho, ser ouvidas porque nunca falaram disto ao longo de décadas”, explica o coordenador, que também encontra situações diferentes em que as próprias pessoas se mostram disponíveis para colaborar presencialmente, deixando a identificação no formulário - algo que não é pedido pela comissão.

Num espaço temporal de 72 anos, a comissão sabe que muitos dos casos relatados já prescreveram criminalmente, havendo uma “enormidade de tempo entre a situação do abuso e o momento em que as pessoas falam”. É isso que dá uma perspetiva de futuro, com a comissão a incentivar que a denúncia não demore no futuro.

Ilustrativo do tempo que demoraram a relatar os casos são alguns dos testemunhos em concreto: “Temos adultos de 50 anos que descrevem ter sido abusados aos 8,9, 10 anos”, conta Pedro Strecht, que fala de pessoas que “nunca ousaram falar, nem com os pais, nem com outras pessoas”. Essas mesmas alegadas vítimas “descrevem o impacto que isso teve na sua própria vida e no seu crescimento, na relação com os outros, nos primeiros namoros”.

O projeto foi construído com o objetivo de durar cerca de um ano, mas Pedro Strecht não se compromete com uma data para a divulgação dos dados finais, prometendo ainda que vão sendo fornecidas informações, “nem que seja pontualmente”.

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