Pedro Santa Clara publicou um artigo na rede social X intitulado "Os Meus Problemas com a Agenda Climática". Nas suas palavras, esta é uma discussão "alarmista, pouco democrática, economicamente irracional e desequilibrada". Falou de Greta Thunberg e António Guterres. Em pouco tempo foi acusado de muitas coisas, entre elas de não se preocupar com o futuro dos próprios "filhos e netos". Em entrevista à CNN Portugal recusou ser negacionista e admite que há alterações climáticas, mas quer uma discussão séria sobre o tema e entende que quem discorda não deve ser "cancelado"
Pedro Santa Clara é economista, professor catedrático e empreendedor português, amplamente reconhecido por inovar no setor da educação e por liderar projetos de impacto. É fundador da escola de programação 42 Lisboa e do projeto TUMO Portugal, além de ter liderado a construção do novo campus da Nova SBE em Carcavelos. No dia 9 de maio publicou na rede social X um artigo considerado controverso, intitulado "Os Meus Problemas com a Agenda Climática".
Olhando para o artigo que escreveu sobre a agenda climática, podemos dizer que considera que existe algum alarmismo?
O ponto nem é tanto esse, embora também acho que seja um ponto importante. Eu acho que é toda uma agenda que praticamente não é discutida, sobretudo que não é discutida do ponto de vista político. Embora tenha implicações brutíssimas, sobretudo na indústria europeia.
Mas usa a expressão?
Sim. Eu, na verdade, levanto seis pontos. Acho que a agenda em si não é tão consensual como toda a gente a quer fazer parecer. Desde a incerteza dos cenários, dos modelos. Estarmos a falar de previsões praticamente a 100 anos. Ciência nenhuma consegue fazer previsões a 100 anos, muito menos sobre o clima, não é?
O que lhe custa mais neste debate?
O que é que me custa? Primeiro, ao longo dos anos, qualquer discussão, qualquer cético é completamente abafado, chamado de negacionista e posto completamente à margem. Pelo contrário, é dado imenso palco a extremistas como a Greta Thunberg, que usam palavras como colapso. Acho que ela tinha dito até que o mundo ia acabar em 2022, ou uma coisa assim.
Refere o nome dela no artigo, mas depois também fala em António Guterres…
Sim, António Guterres fez uma capa da Time com água pelos joelhos a dizer que metade do mundo se afundará.
Mas acha que Greta Thunberg e António Guterres estão no mesmo patamar?
É óbvio que percebo que não estão no mesmo patamar, mas, quer dizer, a Greta Thunberg, por exemplo, recebeu o prémio Gulbenkian para a Humanidade de um milhão de euros. Agora se calhar temos uma ideia mais clara do caso quase patológico que é a menina. Mas foi levada de forma muito a sério.
O António Guterres, quando diz que "o clima é uma panela de pressão" e se deixa fotografar para a capa da Time com água pelos joelhos, também está a ser absolutamente alarmista.
Mas uma instituição como a ONU, as Nações Unidas, não tem pessoas sérias e capazes a trabalhar este assunto?
Sim, a ONU é uma grande organização internacional com recursos próprios muito importantes. Esperar-se-ia do seu secretário-geral uma linguagem menos colorida do que "uma panela de pressão" e tomadas de posição um bocadinho mais ponderadas do que aparecer com água pelos joelhos. Acho que isso também passa uma ideia do tal alarmismo que posições mais extremistas estão a tentar passar.
É raro. Que eu saiba, nunca na história das Nações Unidas um secretário-geral se fez fotografar assim. Na verdade, não conheço muitos políticos mundiais, se calhar agora o Trump.
Mas o meu único ponto é considerar que foram extremistas e alarmistas. É uma posição alarmista usar uma palavra como "panela de pressão". E ser fotografado com água pelos joelhos é alarmista.
A imagem que transmite é forte...
Está bem, pronto, eu chamo-lhe alarmista. Eu estou a usar a minha palavra. Ponha-a na minha boca. Está escrita também. E estou a querer ser muito cuidadoso e fui tentando ser muito cuidadoso no que escrevi.
Não se considera negacionista…
Eu não sou negacionista. Não estou a dizer que não há grandes emissões de CO2 e entendo que contribuem para o aquecimento global. E que há riscos de longo prazo para o clima. Aquilo que eu estou a dizer é que estamos a ter uma atitude pouco científica no debate, porque por um lado deixamos que haja este alarmismo todo e por outro qualquer cético que apareça é completamente cancelado.
É-lhe dado o tal rótulo de negacionista e abafado, entre aspas. Com alguns episódios absolutamente caricatos, como o que envolveu John Clauser, o Prémio Nobel da Física, que ia a dar uma palestra no Fundo Monetário Internacional sobre o Clima e foi cancelada. Cancelaram uma palestra de um Prémio Nobel porque o FMI achou que não concordava com a opinião dele.
Temos uma agenda que é pouco democrática e é baseada no medo e na ameaça, no medo e no cancelamento, e toda esta lógica que ninguém discute. E se quiser, até mesmo a comunicação social mostra sempre um só lado da moeda.
Como assim?
Vou-lhe dar um exemplo muito engraçado. Nos últimos 100 anos, a área florestal ardida por ano nos Estados Unidos caiu 80%. Isto é, hoje em dia, arde por ano um quinto do que ardia há 100 anos. Tenho a certeza de que surpreende toda a gente. Porque se for perguntar a qualquer pessoa, acham o oposto.
Também houve muitos avanços até na luta contra esse tipo de fenómenos.
Sim, mas se perguntar à sua volta o que é que acham: arde mais agora ou há 100 anos? É a natureza dos media. Os media transmitem tudo o que são más notícias. Nunca são transmitidas as boas notícias.
Vou-lhe dar outro exemplo que eu acho ainda mais infeliz. Quando há um dia de muito calor todas as televisões dão imensos avisos à população do risco para não sair de casa, para se manter hidratado, para tudo isso. No entanto, morrem praticamente dez vezes mais pessoas por frio do que por calor.
No frio também se faz. A CNN Portugal faz.
Eu não tenho visto, então. Se calhar é azar meu. Mas, por exemplo, sabia que morrem dez vezes mais pessoas por frio do que por calor?
Não, isso não sabia...
E não sabia porquê? Porque não encaixa na narrativa. A narrativa é aquecimento global, catástrofe. Todas as palavras que passaram a ser usadas são carregadas de sentimento.
A crise climática, a emergência climática, são tudo palavras carregadas de emoção. Isto não é linguagem de um tema que devia ser discutido por cientistas e ouvidos ambos os lados da discussão. E sistematicamente não são. Como este caso extremo, absurdo, de um Prémio Nobel cancelado pelo FMI.
A censura nunca é justificável. E se nós quisermos ser sérios em relação a este tema, temos de ouvir pessoas de um lado e pessoas do outro.
Esta é uma questão séria?
Claro, como é óbvio. E esta é uma questão séria porque, repare, a política europeia dos últimos 15, 20 anos tem sido de desindustrialização severa por causa do risco climático, para diminuir as emissões de CO2.
Nomeadamente coisas como a proibição que era para 2030 da venda de carros com motor de combustão, acho que agora passou para mais tarde [ndr. a meta passou para 2035 e a União Europeia flexibilizou as regras]. Tinha de passar a ser tudo elétrico. Mas o ponto é: isto tem um custo tremendo. Quem é que é bom a produzir carros elétricos? A China. Quem é que foi bom a produzir carros de combustão? A Europa.
A Volkswagen está a fechar fábricas por todo lado. E o que eu quero dizer é que para além de se poder debater a questão climática de forma séria, e ouvindo ambos os lados, é preciso olhar para custos e benefícios. Não é dizer 'ai, o clima, é uma desgraça', tudo é justificável pelo clima. Não, há que responder a custos e benefícios.
E há custos?
Se nós fizermos esta desindustrialização da Europa, qual é o custo? O desemprego tem um custo muito grande. Nós não podemos dizer que o clima vale infinito e tudo o resto não vale nada.
Os carros elétricos também têm custos energéticos?
Tudo isso também tem custos a nível de gastos de energia, CO2. Desde logo, pesam mais 500 kg do que os outros. São 500 kg de materiais diversos para baterias, baterias que depois são difíceis de reutilizar. Produzir lítio custa imensa energia. Quer dizer, há muita coisa que está mal contada.
Mesmo a agenda dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, que está muito ligada a isto, é uma lista de compras. São 17 objetivos que se desdobram em 169 metas. Quer dizer, é tudo prioritário? É tudo fundamental?
Demasiadas prioridades?
No meu mundo, há uma prioridade. Pode haver duas prioridades em algumas alturas, mas não há 169. E o meu ponto é: se isto é um tema tão sério e estão a ser tomadas medidas tão draconianas, então eu gostava de ver uma análise de custo-benefício explícita destas medidas.
E acha que isso até agora não aconteceu?
De todo. Os impostos sobre as emissões de CO2 estão a destruir a nossa indústria. O custo elevadíssimo da energia europeia está a destruir a nossa indústria. Nunca se vê o custo em termos de empregos destas medidas. Isto faz-me uma imensa confusão.
Este é um tema delicado?
Sim. Assim que eu escrevi qualquer coisa sobre isto, caíram-me imediatamente em cima a chamar-me negacionista.
Recebeu mensagens pouco simpáticas?
Imensas. E pessoas a dizer que eu não me preocupo com os meus filhos e com os meus netos. É o contrário, eu preocupo-me imenso com os meus filhos e com os meus netos. Na verdade, eu na sociedade preocupo-me muito com as pessoas mais pobres. Esta agenda tem um custo desproporcionado sobre os mais pobres.
São eles os mais sacrificados nesta agenda climática?
Claro, porque o aumento do custo da energia recai desproporcionadamente sobre os mais pobres. Todos precisamos da mesma gasolina para andar de carro ou para aquecer a casa, não é?
Nós vimos isto em França, quando foi a revolta dos coletes amarelos, era por causa do aumento dos combustíveis, imposto pelo Macron, por causa do clima. Depois reverteram.
Qual o seu objetivo aqui?
O que eu estou a querer dizer às pessoas é, atenção, que há outros temas que são prioridades. A saúde, a educação, a alimentação, o transporte, a habitação, são temas também importantes.
Obviamente que qualquer euro que é gasto em subsídios ligados a temas do clima é um euro a menos que é gasto nestas outras áreas. Todo o dinheiro que é gasto adicionalmente em energia deixa de ser gasto nestas outras alternativas.
O meu ponto é: sim, o clima é importante, mas vamos lá discutir custos e benefícios. Na verdade, quando se fazem e já se fizeram inquéritos à escala mundial sobre as prioridades das pessoas, o clima nem aparece no top 20. Se perguntarem a África, que é a parte mais pobre do mundo, as pessoas estão preocupadas primeiro com alimentação, com segurança, com educação, com saúde.
Por isso é que eu digo que esta agenda é pouco representativa, é pouco democrática.
Mas o que é que está por detrás disto, desta agenda?
Acho que foi tomada como uma agenda, eu diria sobretudo para a esquerda, que foi tomada de forma avassaladora pelos media e tornou-se aquilo que eu chamo aqui o virtue signaling. Tornou-se um bocadinho: 'eu tenho de falar a favor disto porque isso é que me denota a minha virtude, sinaliza a minha virtude'.
Isso é seguir as tendências do momento?
Mas é óbvio, é exatamente o que aconteceu aqui. Há temas que vão sendo pegados de vez em quando e que se tornam de tal maneira carregados do ponto de vista moral que nem ninguém sequer pode tomar uma posição diferente porque é abalroada, é atropelada.
Não é socialmente aceite?
Completamente. Tudo o que é uma opinião divergente da maioria… Eu escrevi este post, tenho as costas normalmente largas. Isto é, sou muito independente, muito pouco dependente de outras coisas.
Não depende da opinião dos outros?
Exatamente. A maior parte das pessoas não podia escrever isto. É engraçado. Há muita gente que eu conheço e que até acho que concorda, mas nem sequer põe um like porque há, de facto, muita censura social.
E a posição da Europa nesta agenda?
O último ponto que eu faço é esta posição da Europa, que não tem paralelo nem nos Estados Unidos nem na China.
EUA e China são os maiores poluidores?
A China é de longe. A Europa representa 6 a 7% das emissões globais de CO2.
Ou seja, este peso não deveria estar a ser carregado pela Europa?
Ainda é mais estúpido. Nós carregamos tanto na regulação e nos impostos que tornámos praticamente impossível produzir economicamente uma série de coisas na Europa.
Vamos tomar como exemplo a cerâmica, porque é muito intensiva em consumo de energia. Mas os europeus continuam a consumir cerâmica. O que é que aconteceu? As fábricas europeias de cerâmica fecharam, abriram na China e agora vêm da China para a Europa de barco. O CO2 não só é maior, porque ainda há o barco em cima, mas a atmosfera é a mesma. Em termos de contribuição para o clima é igual.
Estamos a destruir a nossa indústria, mas continuamos a consumir. Portanto, a coisa é produzida em algum lado. Perdemos nós os empregos, o CO2 continua a ir para a atmosfera. Portanto, é mesmo estúpido. Só não somos nós.
A Europa pode dizer que não é ela que está a poluir, mas acaba por contribuir?
É por isso que eu digo que é só sinalizar virtude, a hipocrisia. Temos de tornar o debate mais sério, menos carregado de emoção e mais carregado de ocasião, temos de medir custos e benefícios. Temos de tornar isto um bocadinho mais equitativo e mais democrático do que simplesmente uma elite tecnocrática a tomar estas decisões.
Mas aqui também há a questão do poder político…
E temos de deixar de ser estúpidos. O poder político aqui também cede. Há uns anos o Ministério do Ambiente não tinha poder nenhum, hoje em dia deve ser um dos ministérios mais poderosos.
Não sou um negacionista, apenas uma pessoa preocupada com várias dimensões da sociedade. E não apenas com o clima.
