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Jornalista nascido em Madrid de mãe portuguesa. Comentador da CNN Portugal e correspondente do canal espanhol La Sexta.

A escolha não é "Estados Unidos ou Irão", mas sim entre Trump e Europa

5 mar, 19:40

Luís Montenegro, Mariana Leitão, Durão Barroso e todos os que invocam a falsa alternativa entre uma teocracia ou "o nosso maior aliado" não percebem, ou não querem perceber, o que está em causa. Apoiar Donald Trump nesta guerra equivale a concordar com a invasão da Gronelândia — ou, porque não, dos Açores

Quatro dias depois do ataque simultâneo dos Estados Unidos e Israel contra o Irão, o primeiro-ministro espanhol disse “não à guerra”. A declaração institucional surgiu na sequência da enésima gabarolice de Trump, que ameaça “cortar” as relações comerciais com a Espanha depois da negativa de Pedro Sánchez à utilização, por parte de Washington, das duas bases militares conjuntas em Espanha, ambas na Andaluzia (a base naval de Rota, em Cádis, e a base área de Morón, em Sevilha).

Sánchez foi muito claro na sua exposição. Repudia o regime dos aiatolas no Irão, mas também a guerra iniciada por Trump e Benjamim Netanyahu. Sublinhou ainda a sua aposta pela democracia e os “valores progressistas”. “Há quem diga que é ingénuo. Ingénuo é pensar que a solução é a violência. Ou pensar que praticar um seguidismo cego e servil é liderar”, disse o presidente do governo espanhol, sem citar nomes. “Não vamos ser cúmplices de uma coisa que é má para o mundo por medo de represálias.”

Em Portugal, o debate quinzenal serviu para confirmar, depois de muito “engonhanço” (a palavra é de Ana Sá Lopes, no podcast ‘Soundbite’), que Luís Montenegro apoia o ataque ao Irão. A disjuntiva do primeiro-ministro português foi entre as Nações Unidas e a “realidade”. “Sabemos que há a organização [a ONU] e as regras do direito internacional. Mas também sabemos que há uma realidade, e há uma realidade cuja resposta tem que ser o direito internacional (...) [e] a capacidade de os países poderem promover o respeito pelos direitos humanos (...) [e a] segurança de todos nós”, sentenciou Montenegro.

Ou seja, o ‘engonhanço’ continua, ou pior: a ambiguidade. Pior ainda, a contradição: não se pode apoiar, ao mesmo tempo, o direito internacional e a “capacidade de os países poderem promover o respeito pelos direitos humanos” — isto é, a guerra contra o Irão sem resolução das Nações Unidas, sem a aprovação do Congresso dos EUA e sem uma provocação prévia dos aiatolas, por mais que Durão Barroso afirme o contrário.

Horas depois do “não à guerra” de Sánchez, o antigo Presidente da Comissão Europeia alegou, na RTP, sem dar quaisquer explicações ou contexto, que “quem começou por violar a lei internacional foi o Irão”. Não foi isso o que aconteceu — nem agora, nem na Guerra dos Doze Dias, em junho passado. Além de uma verdade alternativa, Durão Barroso lançou mais uma falsa disjunção. “A questão que se põe é: estaremos com os americanos, o nosso maior aliado, ou com o regime teocrático atroz do Irão, em que (...) o próprio regime mata a sua população?”. O anfitrião da Cimeira dos Açores, que desencadeou a guerra contra o Iraque, em 2003, foi mais longe na sua desfaçatez: “No momento em que há uma guerra (…) contra os nossos valores, contra o mundo ocidental, (…) nós não podemos estar numa posição de equidistância”.

Barroso disse tudo isto para justificar o apoio a Trump e a desqualificação da posição da Espanha — irmão ibérico, parceiro na União Europeia e na NATO, e defensor da paz frente a uma agressão arbitrária que está a desencadear uma guerra regional que pode escalar a conflito mundial. Que eu saiba, os “nossos valores” (e os dele) são, ou deveriam ser, os valores fundacionais da União Europeia, que surgiu para pôr fim às guerras no Velho Continente. De acordo com tratados da UE, incluindo o último (assinado em Lisboa em 2007 por 27 países e pelo próprio Barroso, na altura Presidente da Comissão), declaram que a instituição é “fundada nos valores do respeito pela dignidade humana, liberdade, democracia, igualdade, Estado de direito e respeito pelos direitos humanos”.

Sánchez diz que o governo espanhol não está só (e não está, já recebeu o apoio da Comissão e de Emmanuel Macron, entre outros). Também invocou os valores da “Constituição [espanhola, de 1978], da UE, da Carta da ONU e da paz”, mas Barroso prefere alinhar-se com uma administração corrupta, incompetente e mentirosa que, ainda por cima, deixou — há já algum tempo — de ser “o nosso maior aliado”. É possível que não tenho ouvido as ameaças trumpianas de anexação da Gronelândia, um território europeu? Ou que não saiba o que aconteceu na Venezuela, com Maduro?

Não sei. Talvez acredite que Renée Good e Alex Pretti, os dois manifestantes pacíficos assassinados pelo ICE e a Guarda Fronteiriça em janeiro em Minneappolis, fossem “terroristas domésticos”, como declarou a secretária de Segurança Nacional norte-americana, Kristi Noem. Se é assim, é provável que também confie na porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, quando assegurou que a Espanha concorda em “cooperar com os militares dos EUA” apenas umas horas depois do “não à guerra” de Sánchez (a afirmação foi desmentida imediatamente por Madrid, cuja posição continua a ser de rejeição “categórica” da escalada militar).

“O Presidente [Trump] espera, evidentemente, que todos os nossos aliados europeus cooperem nesta longa missão para derrubar o regime desonesto do Irão, que ameaça não só os Estados Unidos, mas também os nossos aliados europeus”, acrescentou Leavitt numa conferência de imprensa tão desonesta quanto o inquilino da Casa Branca, que tão cedo descreve os supostos aliados como um conjunto de “nações decadentes” em “autodestruição” como apela à sua participação numa guerra iniciada por ele sem consultar ninguém (a não ser Netanyahu, que visitou os EUA sete vezes nos últimos meses).

Os motivos da guerra parecem claros para Israel, que tem uma oportunidade histórica para destruir uma ameaça “existencial”, um regime execrável que financia os outros grandes inimigos do Estado judaico no Líbano (Hezbollah) e na Palestina (Hamas), além de reprimir brutalmente os iranianos desde 1979. Para Trump, duplamente fragilizado pelo escândalo Epstein e a anulação das tarifas pelo Supremo Tribunal dos EUA (e portanto em queda livre nas sondagens e com as eleições intercalares de novembro à vista), nada melhor do que uma guerra, e uma previsível vitória, para desviar as atenções — e as intenções — dos eleitores. O problema é que, ao contrário do que aconteceu na Venezuela (outra ditadura brutal, ilegítima e antiamericana), no Irão o maior fator de coesão do regime é o fanatismo religioso. E o fanatismo é o motor da maioria dos atentados terroristas — uma arma que se pode virar contra os aliados de Trump (incluindo Portugal) nesta guerra.

Sánchez lembra que a Espanha foi arrastada, há 23 anos, “por outra administração dos EUA” para uma guerra “injusta”. “A guerra do Iraque gerou um aumento drástico do terrorismo, uma crise migratória e económica. Foi esse o presente do trio dos Açores, um mundo mais inseguro e uma vida pior”, sublinhou.

Percebem-se melhor, assim, as declarações do anfitrião da Cimeira dos Açores (março de 2003) na RTP. “Do ponto de vista espanhol, eu acho que é um erro. Alienou a ligação com os Estados Unidos, sendo a Espanha membro da NATO. Conseguiu pôr contra ele todo o mundo árabe — para os americanos, um aliado como a Espanha não os apoiou num momento importante.” Já Portugal, segundo o antigo-primeiro ministro, “é considerado um aliado credível”.

Quanto à utilização da Base Aérea das Lajes, diz que não acompanhou a questão, mas acredita no Governo quando diz que as condições de utilização, assinadas pelo próprio há 30 anos, “foram respeitadas”. Ou seja, posiciona-se ao lado de Montenegro, o seu sucessor em São Bento, mesmo quando tudo indica que as Lajes serviram, e provavelmente ainda servem, para sustentar a ofensiva contra o Irão. E ataca o único governo europeu que desafia abertamente os impulsos belicistas e autocráticos da Administração Trump — sem sombra de dúvidas, a maior ameaça para a paz e a estabilidade mundial.

A Espanha vai enviar a fragata ‘Cristóbal Colón’ para apoiar o Chipre, um Estado-membro da UE atacado pelo Hezbollah. E vai continuar a colaborar, no quadro da NATO, mas sempre em tarefas defensivas, em situações como o míssil intercetado perto da base turca de Incirlik (e previamente detetado por uma bateria espanhola de mísseis Patriot instalada em Adana, perto de Incirlik).

França, Reino Unido e outros países europeus mobilizam-se para defender os seus interesses, ao passo que criticam o ataque contra o Irão. A UE apela aos países do Golfo Pérsico para “trabalharem em conjunto na desescalada, na salvaguarda da segurança regional e no respeito pelo direito internacional”. Em Portugal, Durão Barroso e Luís Montenegro, e outros políticos como Mariana Leitão e André Ventura, tentam iludir-nos com falsas alternativas e apoios, mais ou menos disfarçados, ao homem que agasalha Putin e humilha Zelensky. O mesmo que, sem darmos por isso, pode aparecer nas Lajes no Air Force One e dizer que os Açores fazem parte do seu espaço estratégico e pertencem aos EUA “por direito”. Foi o que afirmou Stephen Miller (um dos conselheiros mais próximos de Trump) há exatamente dois meses sobre a Gronelândia.

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