Pedro Sánchez vê Israel como a Rússia e pede a exclusão de todos os eventos desportivos internacionais

15 set 2025, 17:14
Manifestantes pró-Palestina na Volta a Espanha/Vuelta (Manu Fernandez/AP)

As declarações do presidente do governo espanhol surgem um dia após a última etapa da Volta a Espanha em bicicleta, com final em Madrid, ter sido abruptamente interrompida a 43 quilómetros do fim devido a protestos pró-Palestina

O primeiro-ministro de Espanha Pedro Sánchez sugeriu esta segunda-feira no Congresso dos Deputados a expulsão das equipas israelitas das competições desportivas internacionais, à semelhança daquilo que ocorreu em 2022 com a Rússia após a invasão da Ucrânia.

“Vimos como os governos europeus estão a afirmar que, enquanto durar a barbárie, Israel não pode utilizar qualquer plataforma internacional para branquear a sua presença. As organizações desportivas devem questionar-se se é ético que Israel continue a participar em competições internacionais. Por que razão a Rússia foi expulsa após a invasão da Ucrânia e Israel não é expulso após a invasão de Gaza?”, questionou Sánchez, citado pelo El País.

As declarações do presidente do governo espanhol surgem um dia após a última etapa da Volta a Espanha em bicicleta, com final em Madrid, ter sido abruptamente interrompida a 43 quilómetros do fim devido a protestos pró-Palestina.

Segundo dados do executivo espanhol, cerca de 100 mil pessoas manifestaram-se na capital contra a presença da equipa israelita Israel - Premier Tech na corrida, na qual o português João Almeida foi segundo classificado. Os manifestantes derrubaram as barreiras de proteção que separavam os espectadores da estrada e vandalizaram as estruturas provisórias colocadas pela organização para a corrida.

Apesar de a Vuelta, uma das três mais importantes provas por etapas do calendário velocipédico mundial, ser um importante veículo de promoção e ter um peso substancial na imagem do país no estrangeiro, Pedro Sánchez não condenou os sucessivos incidentes que marcaram a prova e que levaram ao cancelamento e encurtamento de várias etapas e, inclusive, ao abandono de um corredor. Em sentido oposto, o primeiro-ministro espanhol aplaudiu quem se manifestou e condicionou a prova durante as três semanas.

“Sentimos, como disse, uma profunda admiração e respeito pelos nossos atletas, pelos ciclistas da Volta a Espanha", começou por dizer Sánchez, antes de manifestar o seu "imenso respeito e admiração por uma sociedade civil espanhola que se mobiliza contra a injustiça e defende as suas convicções de forma pacífica".

"A Espanha brilha como exemplo e com orgulho. Dá um passo em frente na defesa dos direitos humanos. Concordamos com uma causa justa, como são os direitos humanos. Viva o povo espanhol!", disse Sánchez no domingo, antes do fiasco de Madrid, durante um comício do PSOE em Málaga.

Quem não ficou muito contente com os protestos foi o diretor da Vuelta, Javier Guillén. “Quero condenar o que aconteceu na última etapa. São necessários poucos comentários sobre o que vimos ontem. As imagens falam por si e é inaceitável o que aconteceu. Isto não se deve repetir. Podíamos ter convivido perfeitamente entre manifestações e desporto”, disse Guillén durante uma conferência de imprensa extraordinária esta segunda-feira.

Javier Guillén, diretor da Volta a Espanha, em conferência de imprensa após a prova nesta segunda-feira (Daniel Gonzalez/EFE via Lusa)

Quanto ao pedido de Sánchez, de exclusão das equipas israelitas das competições internacionais, o diretor da Vuelta explicou que não tem competência para tomar essa decisão, remetendo a mesma para a União Ciclista Internacional (UCI).

“É à UCI que cabe determinar a participação e a exclusão das equipas nas corridas. Ficamo-nos por aí e centrámo-nos no que tínhamos de fazer. Tomámos uma posição de não entrar num debate, o que é legítimo. Explicámo-nos até onde pudemos. Falou-se com a UCI para ver o que se faria, eles tomaram uma posição em comunicado, que era a de manter a Israel na prova. Nós não podíamos fazer outra coisa. Sem a sua autorização, havia consequências legais. Não há nenhuma federação que tenha vetado a Israel das suas competições, nem a União Europeia. A UCI fez o comunicado e entendo que conhece o que aconteceu”, disse Guillén.

O caso está a extravasar o desporto e assume importantes contornos políticos. Alberto Nuñez Feijóo, líder do Partido Popular (PP) e da oposição, acusou Sánchez de ter encorajado os protestos que prejudicaram a prova.

"O Governo permitiu e induziu a não finalização da Vuelta e, dessa forma, um ridículo internacional transmitido pela televisão em todo o mundo", escreveu Feijóo num comunicado divulgado no X.

Também a presidente da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, contestou o posicionamento do presidente do governo espanhol. “A mensagem enviada pelo presidente, atirando fogo para esta situação, é intolerável. É claro que é preciso protestar livremente quando se considera necessário, mas há muitos locais para o fazer, sem coagir os desportistas”, disse, citada pelo El País.

O governo de Israel também marcou posição, com o ministro dos Negócios Estrangeiros Gideon Saar a chamar Sánchez de “antissemita”.

“Pedro Sánchez e o seu governo – uma vergonha para Espanha!”, escreveu Saar no X, numa das muitas publicações que fez acerca do tema.

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