Begoña Gómez: do casamento com Pedro Sánchez às acusações de corrupção

24 jun, 16:49
Bugoña Gómez e Pedro Sánchez (Foto: Alastair Grant)
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Mulher do primeiro-ministro espanhol é acusada de quatro crimes e pode ser condenada a até 16 anos de prisão

A história de Maria Begoña Gómez não começou em 2024, quando o Ministério Público iniciou uma investigação sobre crimes que teria cometido. No entanto, tem ganhado cada vez mais capítulos, principalmente nos últimos dias após o juiz Juan Carlos Peinado impor rigorosas medidas restritivas contra a mulher de Pedro Sánchez.

Nascida em 1971 em Bilbau, no País Basco, Gómez mudou-se para Madrid com a família em 1989 devido a compromissos profissionais do pai – o empresário Sabiniano Gómez Serrano, ligado ao imobiliário e à hotelaria. Na capital, concluiu o ensino secundário, seguindo para a M&B Escuela Superior de Marketing y Negocios e, posteriormente, à ESIC Universidad, onde fez um mestrado em gestão. 

Ao longo de sua vida, dirigiu a Atenea Business Center e foi responsável pela captação de fundos no Grupo Inmark. Foi em 2023 que assumiu a codireção da cátedra em Transformação Social Competitiva na Universidade Complutense de Madrid, trajetória que deu início às polémicas relações entre a sua atuação académica e o governo liderado por Pedro Sánchez.

O casamento e a chegada ao topo da política espanhola

Maria Begoña Gómez e Pedro Sánchez casaram-se em 2006 num tribunal em Madrid. O político teve uma trajetória de altos e baixos até chegar ao governo espanhol. Em 2014, Sánchez, na época pouco conhecido no país, assumiu a liderança do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), mas a sua primeira passagem pelo comando da esquerda durou apenas dois anos e três meses. Depois deste período, perdeu o cargo devido aos maus resultados nas eleições em 2015 e 2016. 

Mesmo assim, retornou à posição de líder do PSOE em 2017 e tornou-se primeiro-ministro em 2018. Na época, articulou uma manobra arriscada ao lado dos partidos de esquerda e separatistas (do País Basco e da Catalunha) para colocar fim ao governo de Mariano Rajoy, do Partido Popular, de centro-direita. Desde então, Sánchez mantém-se no poder apesar das adversidades, como a falta de maioria absoluta, e, agora, o escândalo que envolve a sua mulher. 

Begoña Gómez, por sua vez, esteve ao lado do marido durante todo este período, marcado por um alegado favorecimento a uma cátedra universitária que era de sua responsabilidade. A investigação desta relação foi iniciada em 2024 após uma denúncia realizada pela associação Mãos Limpas, ligada à extrema-direita, assim como por elementos da organização ultracatólica Hazte Oír e o Vox.

A decisão de Juan Carlos Peinado

O juiz Juan Carlos Peinado divulgou uma importante decisão que coloca fim à investigação e enviou Begoña Gómez a julgamento com júri popular. A mulher de Pedro Sánchez é acusada de quatro crimes: tráfico de influências, corrupção no setor privado, apropriação indevida e desvio de fundos públicos.

“Após a tomada de posse de Pedro Sánchez, verifica-se uma mudança radical na trajetória de María Begoña Gómez Fernández”, afirma o juiz, citado pelo El Mundo. Logo após o início do governo socialista, Gómez foi contratada para gerir o Africa Center do Instituto de Empresa (IE), local em que teve contacto com o empresário Juan Carlos Barrabés, que possui um longo histórico de sucesso em Espanha.

Segundo o El Confidencial, o empresário iniciou a sua trajetória com uma pequena loja de materiais para montanhismo, mas tornou-se mais relevante quando, de maneira pioneira, criou uma das principais plataformas online de esqui e de montanhismo no país. Com o passar dos anos, chegou a ser membro do conselho de administração da unidade de negócios do Banco Santander Espanha e fez parte do conselho consultivo da Vodafone. 

Por determinação de Peinado, o empresário será julgado pelos crimes de tráfico de influência e corrupção no setor privado entre indivíduos. Segundo o juiz, Begoña “pediu ajuda” a Barrabés para desenvolver o mestrado no âmbito da cátedra da qual era responsável. “É de salientar a concomitância de ações que ligam o desenvolvimento dos projetos profissionais impulsionados por Begoña Gómez à adjudicação de contratos públicos a favor de empresas ligadas ao círculo empresarial de Barrabés”, diz a decisão, citada pelo El Mundo. O juiz ainda menciona que ela assinou cartas de recomendação favoráveis ao empresário para concursos públicos promovidos por uma entidade que é “dependente” do governo de Pedro Sánchez. 

A cátedra na Universidade Complutense de Madrid

Segundo o juiz, a partir de 2020, Begoña Gómez “inicia uma nova linha de atividade profissional” na Universidade Complutense de Madrid, instituição na qual passou a dirigir um mestrado em fundraising, mencionou o El Mundo. Posteriormente, no entanto, foi criada uma cátedra em Transformação Social Competitiva, com Gómez na função de diretora. 

Peinado entende que o financiamento à cátedra “foi concretizado através de contribuições de empresas de primeira linha que tinham e continuam a manter ligações de diversa natureza com a Administração Geral do Estado e outras instituições oficiais”. Além disso, o juiz destacou que o processo ocorreu num “contexto em que Begoña Gómez, esposa do presidente do governo, combinava simultaneamente a sua posição institucional, a sua atividade académica e as suas relações com dirigentes e empresas com interesses ou ligações ao setor público”. 

Outro financiamento que, para o magistrado, indica irregularidades foi o de um software para a medição de impacto social para pequenas e médias empresas. O projeto contou com o aporte financeiro de diferentes instituições. No caso da Google, o apoio foi efetuado após Gómez encontrar um dos seus dirigentes num evento do PSOE. Telefónica e Indra, que também investiram na tecnologia, reconheceram que a sua atuação não é “habitual” para estas empresas. 

O software ainda está envolvido em outra situação que, para Peinado, indica potencial ilegalidade. A tecnologia deveria ser propriedade da universidade. No entanto, segundo o El Mundo, Gómez teria criado uma empresa com o nome da cátedra, registado a marca em seu nome e, assim, tornado-se proprietária da plataforma digital.

“Da sequência cronológica apresentada depreende-se, a título indicativo, que Begoña Gómez teria vindo a aproveitar a sua proximidade com o presidente do governo para impulsionar a sua projeção profissional no âmbito da Universidade Complutense de Madrid, obtendo, para tal, um diálogo privilegiado com responsáveis de uma universidade pública, com empresas patrocinadoras e com entidades do setor tecnológico, ao mesmo tempo que angariava apoio, financiamento, colaboração e respaldo institucional e empresarial para a criação, desenvolvimento e expansão da Cátedra Extraordinária de Transformação Social Competitiva e dos projetos que dela surgiram”, conclui o juiz. 

Além disso, Cristina Álvarez, assessora de Begoña Gómez na Moncloa (sede do governo espanhol), também será julgada por quatro crimes, os mesmos da mulher de Pedro Sánchez. Para o juiz, Álvarez mantinha uma atuação tão presente em relação à cátedra que “era vista por terceiros não como uma mera acompanhante protocolar da esposa do presidente do governo, mas como alguém que fazia parte da equipa de trabalho da cátedra e do projeto tecnológico relacionado com o software”.

Medidas de coação e uma pena pesada

Após constatar que há indícios relevantes de ilegalidade nas ações dos investigados, Juan Carlos Peinado impôs importantes medidas de coação contra Begoña Gómez. A esposa de Pedro Sánchez está proibida de deixar o país e viu o seu passaporte apreendido. Além disso, terá de apresentar-se no tribunal quinzenalmente. A arguida deve recorrer desta decisão. 

O risco de fuga também foi justificado pela posição política de Gómez. O magistrado afirmou que os agentes responsáveis pela segurança de Pedro Sánchez e sua família podem “colaborar” com uma tentativa de escapar às investigações “por ordem dos seus superiores hierárquicos”. 

A suposição, porém, gerou repercussões negativas entre os polícias, e o Sindicado da Polícia espanhola emitiu um comunicado no qual repudia a justificativa de Peinado. “É uma verdadeira barbaridade sugerir que membros da Polícia Nacional, e em particular os agentes destacados para a segurança da Presidência do Governo, possam colaborar numa hipotética fuga ou em qualquer ação destinada a subtrair uma pessoa à ação da Justiça, independentemente de quem o disser”, afirmou. 

Begoña Gómez, se considerada culpada, pode ser condenada a até 16 anos de prisão, segundo o OK Diário. Recentemente, a Justiça espanhola demonstrou que está disposta a aplicar punições pesadas em casos de corrupção. O Supremo Tribunal do país condenou na segunda-feira José Luis Ábalos, ex-ministro socialista dos Transportes, a 24 anos e três meses de prisão, além do pagamento de multa. O acusado foi considerado culpado dos crimes de organização criminosa, suborno, desvio de fundos e tráfico de influências.

O político foi dirigente do PSOE e braço direito de Pedro Sánchez no governo espanhol. Além dele, o antigo assessor do Ministério dos Transportes, Koldo García, foi condenado a 19 anos de reclusão. Víctor de Aldama, único arguido que está em liberdade, foi condenado a quatro anos e meio, com pena suspensa. 

Begoña Gómez nega as acusações e afirma que não participou de qualquer ação irregular. Pedro Sánchez, por sua vez, pediu “à Justiça que faça justiça”. O primeiro-ministro espanhol entende que sua mulher foi alvo de “denúncias falsas” de “organizações de extrema-direita”.

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