Antigo primeiro-ministro defendeu esta segunda-feira um acordo à direita e criticou a falta de ambição reformista do Governo de Montenegro
Quase uma década depois de se afastar da liderança do PSD, Pedro Passos Coelho voltou a colocar-se no centro do debate político. Nas últimas semanas, o antigo primeiro-ministro tem surgido em apresentações de livros e eventos universitários, mas foi esta segunda-feira, numa entrevista ao ECO, que o seu silêncio político terminou de forma mais clara.
Para o politólogo Pedro Silveira, ouvido pela CNN Portugal, o impacto das palavras do ex-primeiro-ministro não está tanto num dano direto ao Executivo liderado por Luís Montenegro, mas numa pressão política acrescida, especialmente por vir de dentro do próprio campo político do Governo: não é a oposição a questionar, mas uma figura com peso histórico no PSD.
"Eu não lhe chamaria dano. Talvez alguma pressão", argumenta. "Quando estamos no Governo e temos a oposição a dizer que não fazemos reformas é uma coisa; quando temos figuras importantes do nosso próprio partido a dizer que não fazemos reformas é outra."
Na sua análise, as declarações de Passos Coelho "colocam toda a sociedade a olhar para o Governo" e a "confrontá-lo" com a existência ou não dessas reformas. Além disso, uma das consequências políticas mais relevantes pode estar, segundo o especialista, na forma como estas declarações interferem com a imagem de liderança do primeiro-ministro.
O politólogo defende que Luís Montenegro tentou "desde muito cedo emular uma imagem de primeiro-ministro como a de Cavaco Silva", ao ter como referência o seu estilo político, marcado por uma liderança institucional e por uma ideia de reformismo. No entanto, diz, a realidade política atual limita a concretização dessa ambição.
"As condições políticas são muito diferentes. As condições que ele tem para fazer reformas - se é que tem essa vontade - são muito diferentes."
É exatamente neste ponto que considera que as declarações de Passos Coelho ganham maior peso político. Ao dizer que antes de se alegar falta de maioria para grandes reformas é preciso apresentá-las, o antigo primeiro-ministro coloca o debate num plano incómodo para o Executivo.
"É o mesmo que dizer 'não me venham com a conversa de que não há maioria para fazer grandes reformas porque nem sequer as estão a propor'."
O resultado, diz, é a exposição de uma lacuna na imagem atual do primeiro-ministro: "Da imagem que ele emulava de Cavaco Silva parece apenas conseguir concretizar a do recato, a de uma certa austeridade na comunicação, não esse ímpeto reformista. E Passos Coelho, com a autoridade que tem, acaba por colocar isso muito a nu."
"Por muito que Luís Montenegro diga que está a trabalhar e que lhe é indiferente, nunca é indiferente ao Governo um ex-primeiro-ministro incitar claramente o Governo do seu partido a fazer reformas e a ser mais ativo na proposta dessas reformas."
A politóloga Paula Espírito Santo concorda que as intervenções do antigo primeiro-ministro não são neutras para o Governo, mas considera que o impacto deve ser visto com cautela.
"Do ponto de vista corrente da ação governativa, certamente que sim, que não favorecem a ação e a imagem do Governo, mas nós nunca temos perfeita noção de como é que estas intervenções públicas podem impactar. Nós não temos eleições próximas, por isso também não parece que tenha qualquer efeito."
Para a especialista, o momento deve ser interpretado sobretudo à luz da posição atual de Passos Coelho: alguém que está fora da estrutura governativa e que fala a partir de um espaço de independência política.
"Neste momento, Passos Coelho está numa posição de independência, o que traz uma capacidade de distanciamento, de crítica, de reflexão e de intervenção no espaço público."
Ou seja, continua a identificar-se com o espaço político da direita, mas não atua como suporte direto ao Executivo: "Não é alguém que se possa considerar como sendo um construtor ou um reforço para o Governo neste ponto da política de ação governativa.”
Sobre o impacto direto na imagem do primeiro-ministro, Paula Espírito Santo admite que é possível, mas dificilmente imediato.
"Ele não fala diretamente de Montenegro no sentido de o identificar como responsável direto, mas claro que sabemos que o primeiro-ministro será sempre, em última análise, o principal responsável destas mensagens."
Apesar disso, a politóloga sublinha que os efeitos - a existirem - serão mais visíveis "a médio ou longo prazo".
O que ambiciona Passos Coelho agora?
Sobre o que pretende exatamente Passos Coelho com esta presença mais regular no espaço público, Pedro Silveira defende que a resposta não está num plano político definido, mas também não pode ser vista como algo totalmente casual.
"Acho que é pouco realista a ideia de que os políticos ou ex-políticos estão sempre concentrados em planos de médio e longo prazo", afirma.
No entanto, alerta para o risco de ingenuidade: "No outro extremo também não convém sermos ingénuos. A ideia de que as pessoas não têm noção de que as circunstâncias mudam e que podem vir a ter condições para regressar não é realista."
Na sua leitura, Passos Coelho está sobretudo a expressar posições políticas, consciente de que isso envia sinais.
"Não acho que ele esteja a preparar um movimento para liderar o PSD. O que ele está é a dizer aquilo que acha, mas claramente consciente de que isso sinaliza qualquer coisa ao eleitorado."
Paula Espírito Santo vê o momento como uma possível fase intermédia no percurso político do antigo primeiro-ministro: "Provavelmente está a voltar ao contexto onde fez o seu percurso como político."
E acrescenta que pode tratar-se de uma fase de passagem entre o afastamento e uma intervenção mais frequente no debate público.
"Isto pode ser uma fase de transição de uma retaguarda em que ele não interveio na política e fazer agora uma ponte com uma política mais interventiva, ainda que seja para já ao nível da reflexão."