ECO publica longa entrevista com antigo primeiro-ministro esta segunda-feira
É a primeira grande entrevista de Pedro Passos Coelho neste "regresso" à vida pública: depois de participações em conferências, o antigo primeiro-ministro falou longamente com o ECO, que publicará a entrevista esta segunda-feira.
Num excerto a que a CNN Portugal teve acesso no domingo à noite, Pedro Passos Coelho cita os casos da privatização de TAP e da proposta de reforma das leis laborais para justificar que, ao contrário do que fez, a AD deveria ter tentado um acordo de governo com o Chega com a Iniciativa Liberal. Até pela clareza de posições que tal proposta traria, fosse ela aceite ou recusada.
“O país virou à direita e, portanto, claramente, há uma grande maioria no Parlamento à direita”, constata, respondendo ao jornalista António Costa, diretor do ECO e comentador da CNN Portugal. “Depois, é preciso saber se ela [a maioria] tem o mínimo de cimento ou não.” Ora, “é difícil vê-lo [esse cimento], mas é mais fácil que, quando não se procura uma base comum, as divergências se acentuem para permitir evidenciar as diferenças, do que quando procuramos à partida um caminho mais comum.”
Passos Coelho defende assim que esse “cimento” deveria ter sido tentado: “Só o tempo demonstraria se era possível ou não. Mas desejável era, e deveria ter sido tentado”, afirma. E ele “teria de ser procurado entre o Chega e a Iniciativa Liberal”.
São várias as razões invocadas por Pedro Passos Coelho na entrevista ao ECO, desde logo porque “é desejável ter um quadro de estabilidade”. Para quê? “Para evitar justamente este desgaste, esta negociação casuística em que nem sempre se percebe o que é que é a posição que o Governo tem, o que é que são as responsabilidades que cabem à oposição”.
“Arrisco dizer que, se esse caminho tivesse sido prosseguido, uma de duas coisas acontecia: ou não teria sido bem-sucedido porque os líderes do Chega e da Iniciativa Liberal não teriam aceitado fazê-lo, mas seriam responsabilizados pelos eleitores por terem recusado dar condições de estabilidade; ou teriam acedido e criado um quadro de estabilidade, e estaríamos melhor, seguramente.”
Assim, “o jogo fica menos nítido para as pessoas”, afirma. “Quando chegarem as eleições, as pessoas terão mais dificuldade em fazer um juízo sobre o que se passou.”
No caso da TAP, Passos Coelho refere-se à privatização minoritária, em que a maioria ficará do Estado, ao contrário do que o primeiro-ministro inicialmente afirmou. “A mim, parece-me um modelo errado”, afirma Passos, “suficientemente errado para que as pessoas percebessem que a intenção do Governo não deveria ser essa.”
“A mim parecia muito mais natural que o Governo levasse uma proposta de privatização com alienação da maioria do capital, mesmo que pudesse não acontecer de uma vez só”, afirma Passos. Que completa: “Porque é que devemos isentar o Partido Socialista e o Chega de assumirem a responsabilidade da decisão no Parlamento? Que chumbassem essa privatização. Isso responsabilizaria quer o Chega, quer o Partido Socialista”. Já se chumbassem, “o Governo ainda tinha a oportunidade de se aproximar dessa solução, se quisesse dizer ao país: ‘Não me deixam fazer o que eu desejo, vamos aos 49% porque não há outra condição”.