Está tudo muito dividido, como as cores das nectarinas, que evocam os dois partidos que querem chegar ao Governo. Espinho até pode ser a terra do inimigo, mas faz parte de Aveiro, o distrito natal do socialista. É quase um jogar em casa. Pedro Nuno e Montenegro foram à feira, mas não se cruzaram - outra vez. De olhos postos na confusão, havia quem só quisesse trabalhar. Junto ao bacalhau, quase deu molho. Ao almoço, a ementa foi (politicamente) turca. Em Coimbra, como se procurou honrar a tradição, houve uma arruada para turista ver. Deu para conhecer as dificuldades de Cristina e uma "grande fã"
“Já nasci galinheira da barriga da minha mãe”. Maria do Céu Pereira tem 80 anos, começou a vender animais aos 14. Para estimação ou alimentação, não lhe interessa muito o fim que os clientes lhes dão. A galinha custa 15 euros, o coelho também. Cada espécie na sua jaula, juntos a aquecer-se, sem adivinhar o destino que os aguarda.
A feira de Espinho assiste esta segunda de manhã a uma espécie de luta de galos, a ver quem consegue levar mais votos num distrito a que ambos chamam casa. Luís Montenegro é mesmo daqui, Pedro Nuno Santos do vizinho São João da Madeira. “Era uma gaiola a cada um, para não andarem por aí.”
Até porque quando a primeira caravana se aproxima monta-se o chiqueiro nas passagens apertadas. De nada servem os avisos prévios da organização aos feirantes. “Esperamos não incomodar muito.”
Eles só pedem uma coisa: deixem-nos trabalhar
Mas incomodam. E não é pouco, bastante. Quando Pedro Nuno Santos se aproxima, rodeado de câmaras de televisão, Fátima Bastos corre a proteger a caixa de nectarinas que está no canto de banca. Põe as mãos à cabeça, revira os olhos. “Calma”, diz. A fruta, tal como a terra, mistura as cores dos dois partidos: o laranja do PSD, o avermelhado do PS. O marido, Carlos, também faz cara de poucos amigos. “Só atrapalha o negócio. Hoje vai ser isto o dia todo.” Afinal, ainda há de passar Montenegro daqui a bocado.
Junto à banca do bacalhau, ia dando molho. Pedro Nuno faz uma pausa para falar aos jornalistas. “Deixem-nos trabalhar”, repete um feirante. Da multidão alguém grita “fascista”. E, não fosse a rápida intervenção da polícia, podia ter sido pior. “Ó Pedro avança, ó Pedro avança”, dizem ao candidato, para o afastar da confusão. Ele acata, “para não perturbarmos as pessoas”.
Às câmaras de televisão dizia que Montenegro está “em negação” em relação aos problemas do país e a direita “de cabeça perdida” sobre uma eventual aliança com a Iniciativa Liberal. “Dizem coisas diferentes, na coligação. No PSD querem a IL, o CDS não quer, eles estão completamente de cabeça perdida.”
"Montenegro e Chega, tenho nojo deles"
Zulmira Couto é das que consegue furar e dá um beijo a Pedro Nuno. E daqui a pouco, faz o mesmo a Montenegro? “É um nojo para mim. É no PS que eu voto. O Montenegro e o Chega, tenho nojo deles.”
Fátima Lima é das que mais se anima com a passagem da comitiva. Dança e grita em doses desmedidas. Quando passar o primeiro-ministro promete que vai ficar “sossegadita”. Ela vai votar no PS, o “partido dos pobres”, mas não acredita que vá ser suficiente. “Acho que o Montenegro vai para lá outra vez.”
Uns metros mais à frente, outra Fátima, Cunha de apelido, apoia-se nos tachos. Já tem o voto decidido e não vai na mesma direção. “Eu cumprimento todos, que sou das que vira. Não tenho partido certo. Acho é que o Montenegro não teve tempo de governar e veio muito coisa torta do outro governo socialista.” Dá o exemplo da saúde, mesmo que para esta vendedora isso não seja um problema. Tem quatro médicos na família. Nunca vai para a fila de espera.
Tanta opção, tão pouca decisão
Parece que a feira de Espinho tem mel. E não é desse que se vende nas bancas. Vamos por ordem alfabética: AD, ADN, Chega, PAN, PS, PPM. Estão cá todos - até a polícia de intervenção.
As caravanas socialista e social-democrata separam-se por poucos metros na hora da concentração. Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro, tal como aconteceu em Évora, não se encontram. Quando o primeiro chega à última banca, o segundo arranca a visita.
A Manuela Lourenço nenhum convence. “Uma pecinha a cada um é que não fazia mal, dava-me um jeito do caneco.” Escolha intencional de palavra, porque vende cerâmicas de todos os formatos e feitios. “Precisávamos era de uma pessoa extra PS, extra PSD, extra tudo, algo diferente, porque só se atacam uns aos outros. Nós aqui na feira damo-nos bem uns com os outros, eles é que estão sempre a lavar roupa suja.”
A cliente, Cristiana, com quem curiosamente partilha o apelido lembra que isto por aqui é muito dividido. Montenegro não ganha vantagem por morar a poucos metros. “É amado e odiado na própria terra. E eu vou-me mas é embora antes que venha a confusão.”
Almoço turco: onde vai ceder a AD à IL?
No almoço-comício da Figueira da Foz estão todos. Bem, quase todos. Pedro Nuno Santos, Duarte Cordeiro, Pedro Delgado Alves. Outrora conhecidos como os jovens turcos do PS. Para compor o ramalhete só faltava João Galamba.
Duarte Cordeiro, amigo de Pedro Nuno e seu antigo diretor de campanha, vem para reforçar a mensagem forte dos últimos dias: colar Montenegro aos cortes do passado, antecipar quadros de incerteza, porque a AD vai ter de ceder se tiver de negociar com os liberais.
“Nunca vi a atual AD, Luís Montenegro, distanciar-se das políticas que foram adotadas na altura, dos cortes nos salários e pensões, da expressão ir ‘além da troika’”, afirma.
Pedro Nuno aproveita para vincar as diferenças na manhã em Espinho para acusar o rival de não “reconhecer” os problemas do país. “Enquanto ele tinha de procurar as pessoas, as pessoas vinham ter connosco, preocupadas com as vidas delas.”
E, de novo, o foco nos reformados, como sempre nos últimos dias: “Quem aumentou as reformas, mesmo na oposição, fomos nós.”
Arruada para turista ver
Uma carrinha descarrega extintores junto à comitiva socialista. Não é a chama do partido que está intensa em Coimbra. Pelo contrário, é preciso guardar algumas das bandeiras que vieram e não encontraram mãos.
Cristina Veríssimo, 57 anos, é uma das primeiras paragens. Emociona-se com o encontro. Tem uma reforma de 400 euros, paga um quarto de 430. Sim, as contas não batem certo. O marido ficou acamado depois de um acidente de trabalho, ela é reformada por invalidez. Para comer recorre a uma instituição. Como ela, garante, há muitos mais a aparecer na cidade dos estudantes. “Nele acredito, pelo que o vi fazer enquanto oposição e pelas propostas dele.”
Pedro Nuno aproveita depois para disparar em todas as direções. Primeiro, o ministro das Finanças que "não tem credibilidade", depois a ministra da Saúde que "não é capaz de assumir um bocadinho de responsabilidade".
Em Coimbra, o PS introduz uma inovação: faz a emblemática arruada da Rua Ferreira Borges no sentido inverso à tradição. O que o PS talvez não tenha percebido é que esta artéria histórica já não serve para captar votos. É uma arruada para turista ver. Dos germânicos a beber cerveja aos asiáticos que disparam as máquinas fotográficas, alimentando o cliché. Os portugueses, poucos, ou são lojistas ou foram apanhados no regresso a casa.
A mancha humana passa organizada, contornando o autocarro que vinha e as esplanadas. Muito diferente da manhã em Espinho. E ainda mais diferente da tarde em que António Costa passou aqui na sua última corrida legislativa. Não dava para contornar a multidão, não raras vezes havia quem acabasse junto à parede, tais eram os empurrões dos apoiantes.
Hoje dá, pelo menos, para Pedro Nuno conhecer uma “grande fã”, de seu nome Inês de Melo, que enverga uma t-shirt personalizada, com a cara do líder do PS nas suas diferentes eras. Estrela pop da política. Esta estudante “ainda não” está na Juventude Socialista. “Gosto dele pela ideologia, não é só uma cara bonita.”