Ó Pedro Nuno vai com "calma", as nectarinas de Espinho não são para estragar

12 mai 2025, 20:25
Pedro Nuno Santos na Feira de Espinho

Está tudo muito dividido, como as cores das nectarinas, que evocam os dois partidos que querem chegar ao Governo. Espinho até pode ser a terra do inimigo, mas faz parte de Aveiro, o distrito natal do socialista. É quase um jogar em casa. Pedro Nuno e Montenegro foram à feira, mas não se cruzaram - outra vez. De olhos postos na confusão, havia quem só quisesse trabalhar. Junto ao bacalhau, quase deu molho. Ao almoço, a ementa foi (politicamente) turca. Em Coimbra, como se procurou honrar a tradição, houve uma arruada para turista ver. Deu para conhecer as dificuldades de Cristina e uma "grande fã"

“Já nasci galinheira da barriga da minha mãe”. Maria do Céu Pereira tem 80 anos, começou a vender animais aos 14. Para estimação ou alimentação, não lhe interessa muito o fim que os clientes lhes dão. A galinha custa 15 euros, o coelho também. Cada espécie na sua jaula, juntos a aquecer-se, sem adivinhar o destino que os aguarda.

A feira de Espinho assiste esta segunda de manhã a uma espécie de luta de galos, a ver quem consegue levar mais votos num distrito a que ambos chamam casa. Luís Montenegro é mesmo daqui, Pedro Nuno Santos do vizinho São João da Madeira. “Era uma gaiola a cada um, para não andarem por aí.”

Até porque quando a primeira caravana se aproxima monta-se o chiqueiro nas passagens apertadas. De nada servem os avisos prévios da organização aos feirantes. “Esperamos não incomodar muito.”

Maria do Céu Pereira, feirante em Espinho, vende animais vivos há muito (DR)

Eles só pedem uma coisa: deixem-nos trabalhar

Mas incomodam. E não é pouco, bastante. Quando Pedro Nuno Santos se aproxima, rodeado de câmaras de televisão, Fátima Bastos corre a proteger a caixa de nectarinas que está no canto de banca. Põe as mãos à cabeça, revira os olhos. “Calma”, diz. A fruta, tal como a terra, mistura as cores dos dois partidos: o laranja do PSD, o avermelhado do PS. O marido, Carlos, também faz cara de poucos amigos. “Só atrapalha o negócio. Hoje vai ser isto o dia todo.” Afinal, ainda há de passar Montenegro daqui a bocado.

Abordagem calorosa em Espinho (José Sena Goulão / Lusa)

Junto à banca do bacalhau, ia dando molho. Pedro Nuno faz uma pausa para falar aos jornalistas. “Deixem-nos trabalhar”, repete um feirante. Da multidão alguém grita “fascista”. E, não fosse a rápida intervenção da polícia, podia ter sido pior. “Ó Pedro avança, ó Pedro avança”, dizem ao candidato, para o afastar da confusão. Ele acata, “para não perturbarmos as pessoas”.

Às câmaras de televisão dizia que Montenegro está “em negação” em relação aos problemas do país e a direita “de cabeça perdida” sobre uma eventual aliança com a Iniciativa Liberal. “Dizem coisas diferentes, na coligação. No PSD querem a IL, o CDS não quer, eles estão completamente de cabeça perdida.”

Momento de tensão na caravana (José Sena Goulão / Lusa)

"Montenegro e Chega, tenho nojo deles"

Zulmira Couto é das que consegue furar e dá um beijo a Pedro Nuno. E daqui a pouco, faz o mesmo a Montenegro? “É um nojo para mim. É no PS que eu voto. O Montenegro e o Chega, tenho nojo deles.”

Fátima Lima é das que mais se anima com a passagem da comitiva. Dança e grita em doses desmedidas. Quando passar o primeiro-ministro promete que vai ficar “sossegadita”. Ela vai votar no PS, o “partido dos pobres”, mas não acredita que vá ser suficiente. “Acho que o Montenegro vai para lá outra vez.”

Uns metros mais à frente, outra Fátima, Cunha de apelido, apoia-se nos tachos. Já tem o voto decidido e não vai na mesma direção. “Eu cumprimento todos, que sou das que vira. Não tenho partido certo. Acho é que o Montenegro não teve tempo de governar e veio muito coisa torta do outro governo socialista.” Dá o exemplo da saúde, mesmo que para esta vendedora isso não seja um problema. Tem quatro médicos na família. Nunca vai para a fila de espera.

Fátima Cunha, feirante em Espinho, tem o voto decidido (DR)

Tanta opção, tão pouca decisão

Parece que a feira de Espinho tem mel. E não é desse que se vende nas bancas. Vamos por ordem alfabética: AD, ADN, Chega, PAN, PS, PPM. Estão cá todos - até a polícia de intervenção.

As caravanas socialista e social-democrata separam-se por poucos metros na hora da concentração. Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro, tal como aconteceu em Évora, não se encontram. Quando o primeiro chega à última banca, o segundo arranca a visita.

Arruada terminou junto às bancas do peixe (José Sena Goulão / Lusa)

A Manuela Lourenço nenhum convence. “Uma pecinha a cada um é que não fazia mal, dava-me um jeito do caneco.” Escolha intencional de palavra, porque vende cerâmicas de todos os formatos e feitios. “Precisávamos era de uma pessoa extra PS, extra PSD, extra tudo, algo diferente, porque só se atacam uns aos outros. Nós aqui na feira damo-nos bem uns com os outros, eles é que estão sempre a lavar roupa suja.”

A cliente, Cristiana, com quem curiosamente partilha o apelido lembra que isto por aqui é muito dividido. Montenegro não ganha vantagem por morar a poucos metros. “É amado e odiado na própria terra. E eu vou-me mas é embora antes que venha a confusão.”

Manuela Lourenço, feirante em Espinho, queria aproveitar para vender (DR)

Almoço turco: onde vai ceder a AD à IL?

No almoço-comício da Figueira da Foz estão todos. Bem, quase todos. Pedro Nuno Santos, Duarte Cordeiro, Pedro Delgado Alves. Outrora conhecidos como os jovens turcos do PS. Para compor o ramalhete só faltava João Galamba.

Pedro Nuno Santos e Duarte Cordeiro (José Sena Goulão / Lusa)

Duarte Cordeiro, amigo de Pedro Nuno e seu antigo diretor de campanha, vem para reforçar a mensagem forte dos últimos dias: colar Montenegro aos cortes do passado, antecipar quadros de incerteza, porque a AD vai ter de ceder se tiver de negociar com os liberais.

“Nunca vi a atual AD, Luís Montenegro, distanciar-se das políticas que foram adotadas na altura, dos cortes nos salários e pensões, da expressão ir ‘além da troika’”, afirma.

Pedro Nuno aproveita para vincar as diferenças na manhã em Espinho para acusar o rival de não “reconhecer” os problemas do país. “Enquanto ele tinha de procurar as pessoas, as pessoas vinham ter connosco, preocupadas com as vidas delas.”

E, de novo, o foco nos reformados, como sempre nos últimos dias: “Quem aumentou as reformas, mesmo na oposição, fomos nós.”

Pedro Delgado Alves, cabeça de lista por Coimbra, e Pedro Nuno Santos (José Sena Goulão / Lusa)

Arruada para turista ver

Uma carrinha descarrega extintores junto à comitiva socialista. Não é a chama do partido que está intensa em Coimbra. Pelo contrário, é preciso guardar algumas das bandeiras que vieram e não encontraram mãos.

Cristina Veríssimo, 57 anos, é uma das primeiras paragens. Emociona-se com o encontro. Tem uma reforma de 400 euros, paga um quarto de 430. Sim, as contas não batem certo. O marido ficou acamado depois de um acidente de trabalho, ela é reformada por invalidez. Para comer recorre a uma instituição. Como ela, garante, há muitos mais a aparecer na cidade dos estudantes. “Nele acredito, pelo que o vi fazer enquanto oposição e pelas propostas dele.”

Pedro Nuno aproveita depois para disparar em todas as direções. Primeiro, o ministro das Finanças que "não tem credibilidade", depois a ministra da Saúde que "não é capaz de assumir um bocadinho de responsabilidade".

Mobilização na arruada do PS em Coimbra foi contida (DR)

Em Coimbra, o PS introduz uma inovação: faz a emblemática arruada da Rua Ferreira Borges no sentido inverso à tradição. O que o PS talvez não tenha percebido é que esta artéria histórica já não serve para captar votos. É uma arruada para turista ver. Dos germânicos a beber cerveja aos asiáticos que disparam as máquinas fotográficas, alimentando o cliché. Os portugueses, poucos, ou são lojistas ou foram apanhados no regresso a casa.

A prova de que os turistas foram quem mais se distraiu com a arruada (José Sena Goulão / Lusa)

A mancha humana passa organizada, contornando o autocarro que vinha e as esplanadas. Muito diferente da manhã em Espinho. E ainda mais diferente da tarde em que António Costa passou aqui na sua última corrida legislativa. Não dava para contornar a multidão, não raras vezes havia quem acabasse junto à parede, tais eram os empurrões dos apoiantes.

Hoje dá, pelo menos, para Pedro Nuno conhecer uma “grande fã”, de seu nome Inês de Melo, que enverga uma t-shirt personalizada, com a cara do líder do PS nas suas diferentes eras. Estrela pop da política. Esta estudante “ainda não” está na Juventude Socialista. “Gosto dele pela ideologia, não é só uma cara bonita.”

Inês de Melo com o ídolo PNS (José Sena Goulão / Lusa)
T-shirt foi personalizada por uma amiga de Inês (José Sena Goulão / Lusa)

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