ANÁLISE || Secretário-geral do PS deu uma entrevista sobre imigração que apanhou o próprio partido de surpresa. O Governo gostou disso e até fez alguns elogios. No PS houve quem gostasse menos e até há "muita preocupação"
Pedro Nuno Santos “caiu na realidade” sobre a imigração em Portugal e está a adotar um discurso “mais moderado”, numa “tática” eleitoral para “não perder votos numa questão que está no centro da agenda política e mediática”, concluem especialistas em ciência política ouvidos pela CNN Portugal.
“Pedro Nuno Santos está a afastar-se relativamente à posição de António Costa”, afirma o politólogo José Filipe Pinto, numa análise à entrevista do secretário-geral do PS ao Expresso, na qual Pedro Nuno Santos admitiu que o PS “não fez tudo bem nos últimos anos no que diz respeito a imigração”, em que defendeu “a regulação da imigração” de forma “exigente” com o “respeito pelos valores” nacionais.
José Filipe Pinto resume esta posição a uma “moderação oportunista” por parte de Pedro Nuno Santos. “É evidente que é uma moderação feita muito a contragosto”, sublinha o politólogo, teorizando que o secretário-geral do PS “caiu na realidade” da situação da imigração em Portugal, particularmente depois dos desacatos no Bairro do Zambujal e de queixas de violações no Martim Moniz. Estas situações, diz o politólogo, formaram “um terreno demasiado perigoso para que Pedro Nuno Santos não se distanciasse da esquerda radical”, sobretudo num ano de eleições.
Para o politólogo Pedro Silveira, esta “alteração” do discurso de Pedro Nuno Santos quanto à imigração - que não considera “de todo um discurso extremista ou radical” - deve-se precisamente aos “embates eleitorais que se avizinham”, nomeadamente as eleições autárquicas, mas não só.
“Eu acho que faz sentido pensar que estas declarações surgem agora por uma questão tática, ou seja, há eleições e é preciso de alguma maneira não perder votos numa questão que está no centro da agenda política e mediática. Mas não me parece que seja apenas isso, parece-me que seja também uma questão estratégica de reposicionamento do partido para se aproximar do eleitor-médio”, argumenta Pedro Silveira.
Ainda assim, acrescenta Pedro Silveira, há uma declaração na entrevista que “pode ser apontada como menos moderada” e mais “típico de um discurso de direita”: quando Pedro Nuno Santos defende que o país deve ser “exigente” no respeito pelos seus valores, como “a nossa cultura”. “Uma coisa é os imigrantes terem de cumprir a lei, isso não há ninguém que discorde, da extrema-direita à extrema-esquerda. Outra coisa é a questão cultural, ou seja, de alguma maneira, os imigrantes terem de estar sujeitos a uma determinada cultura. E isso coloca o debate no tipo de sociedade mais multicultural ou menos multicultural que nós queremos e, obviamente, já pode dar as interpretações de menor moderação.”
Certo é que a entrevista de Pedro Nuno valeu-lhe elogios do... Governo: "Queríamos saudar a mudança de opinião do líder do Partido Socialista. É uma das maiores mudanças de opinião de um líder da oposição de que há memória em Portugal", reagiu o ministro da Presidência, Leitão Amaro.. Portanto: elogios com ironia.
Burca: um assunto "pantanoso"
Em concreto, Pedro Nuno Santos defendeu que os imigrantes devem “respeitar a igualdade entre homens e mulheres”, sublinhando o respeito pelas mulheres, mas, quando questionado sobre se uma mulher muçulmana deve ser proibida de usar burca, respondeu que “essa questão não se coloca”, afirmando não querer “distrair-se do essencial”.
José Filipe Pinto entende que Pedro Nuno Santos não quis alongar-se nessa questão porque os partidos “tendem a não se imiscuir muito nesse domínio”, tendo em conta o “peso muito grande da Igreja Católica em Portugal”, a par com o “número crescente de crenças religiosas que estão presentes no país”.
“Uma resposta no sentido da concordância com a proibição da burca poderia ser vista como xenófoba e ele [Pedro Nuno] não quer correr esse risco. Por outro lado, o reconhecimento do direito ao uso da burca com base na liberdade religiosa prevista na Constituição iria contra a opinião da maioria dos portugueses, que é católica. Este é um campo muito pantanoso e, por isso mesmo, é normal que o discurso dele, em vez de sim ou não, seja um ‘nim’”, explica José Filipe Pinto.
As declarações sobre Pedro Nuno Santos não agradaram a alguns socialistas. José Luís Carneiro, adversário de Pedro Nuno nas últimas eleições internas do PS, discorda do secretário-geral, afirmando que as declarações de Pedro Nuno, que recusou recuperar a manifestação de interesse para a entrada de estrangeiros em Portugal, “assentam em fundamentos e pressupostos que conduzem a ilações erradas”.
Também Ana Catarina Mendes, eurodeputada do PS, manifestou “muita preocupação com o anúncio de Pedro Nuno Santos de acabar com a manifestação de interesse”, explicando que essa decisão deixa os cidadãos estrangeiros “entregues às redes de tráfico ilegal”. A socialista considera ainda que isto é “uma aproximação ao Governo”. “Do ponto de vista da política da imigração, estamos com retrocessos.”