Houve "Princípio da Incerteza" na CNN Portugal. Com Alexandra Leitão, Pacheco Pereira e Pedro Duarte
Pedro Duarte, ministro dos Assuntos Parlamentares, considera que "o povo português foi relativamente inequívoco na expressão que quis transmitir" nas eleições legislativas, porque deu um "reforço absolutamente inequívoco da posição do Governo vigente".
"A verdade é que hoje a distância para o segundo classificado está muito próximo dos 10 pontos percentuais e portanto acho que não há qualquer dúvida de que há uma força que é inequivocamente maioritária - do ponto de vista relativo, não absoluto. Mas é claramente maioritária e portanto não haverá outra forma de encontrar uma governação para o país que não seja de facto conferir essa responsabilidade ao Governo da AD", afirmou no programa "O Princípio da Incerteza".
Para o ministro, "não havendo qualquer outra solução governativa possível ou viável, deve haver o sentido de responsabilidade por parte dos partidos da oposição para perceber que têm de dar condições de governabilidade e de estabilidade mínima ao país".
Quanto à derrota do Partido Socialista - perdeu 20 deputados em relação há um ano -, considera que o partido deve "repensar o seu posicionamento" e que é "uma grande oportunidade para o Partido Socialista se recentrar, para se moderar e voltar àquilo que é o seu posicionamento histórico e tradicional".
Por sua vez, Alexandra Leitão, líder parlamentar do PS, não descarta uma eventual candidatura à liderança do partido, agora que Pedro Nuno Santos anunciou a demissão da liderança e convocou a direção nacional para preparar eleições internais, às quais não se vai candidatar.
Questionada no programa "O Princípio da Incerteza" sobre se vai candidatar-se à liderança do PS, Alexandra Leitão não foi taxativa, respondendo apenas que está concentrada nas autárquicas. "Sou candidata à Câmara de Lisboa e é aí que me vou concentrar nos próximos meses."
A líder parlamentar do PS admite estar "muitíssimo" preocupada com a possibilidade de uma revisão constitucional, agora que o Parlamento tem "dois terços [à direita] para rever a Constituição". Alexandra Leitão diz querer acreditar que "a direita democrática" não vai ceder nesse ponto. "Estamos a falar de uma hipotética mudança de regime", salienta.
"Eu espero que isso não esteja em cima da AD. Registei que a pergunta foi feita ao ainda e futuro primeiro-ministro, registei também que não respondeu. É algo a que temos de nos manter muito atentos", aponta, convidando os portugueses a verificar o projeto de revisão constitucional do Chega.
Alexandra Leitão considera ainda que "o nosso sistema partidário mudou estruturalmente", uma vez que passou a ser um sistema tripartidário.
"Nós passámos de ter um sistema em que os dois maiores partidos juntos andavam ali na casa dos 60% ou 70% para um sistema tripartidário em que o terceiro partido, enfim, está colado ao segundo, no caso ao Partido Socialista. Isto é uma mudança que já se verificou em muitos países da Europa e com a infelicidade - permitam-me dizer isto, não posso dizer outra coisa - de este terceiro partido que emerge ser na Europa toda um partido de extrema-direita, um partido populista, um partido com um conjunto de características que nos devem preocupar a todos. E, portanto, a primeira nota que eu deixava é a confirmação desta mudança estrutural que deve ser analisada por todos os partidos, mesmo pelos vencedores e que será seguramente, objeto de grande análise dentro do Partido Socialista", afirmou, acrescentando que se confirma "que ainda não se arranjou, de facto, o antídoto para estes partidos de extrema-direita".
Já Pacheco Pereira considera que "os resultados não surpreenderam", mas confessa que "talvez" não contasse com "a dimensão do resultado do Chega".
"Sempre achei que a AD ia ganhar, sempre achei que o Chega não ia ter a crise que se presumia e sempre achei que o problema da governabilidade não ia desaparecer. Em primeiro lugar, há uma clara deslocação à direita. Essa deslocação à direita, no seu conjunto, porque mesmo no PSD há fatores de radicalização que nunca foram e não desapareceram com esta campanha eleitoral. Esta deslocação à direita vai ter um efeito governativo. Já há, aliás, em algumas declarações de comentadores próximos da AD, e no Ventura, algum laivo de autoritarismo. Como quem diz 'falam contra nós e irão ser punidos a qualquer altura'. Mas, dito isto, há outra consequência que também vai ser vantajosa para a direita - a direção do PS vai ser empurrada claramente para a direita."
O comentador da CNN Portugal diz que "isto, em teoria, é aceitável, depende depois do conteúdo da governação que é suposto aplicar". No entanto, lembra que "a esquerda há muito tempo que não percebeu uma coisa básica, que é a forma clássica do conflito social, que era um elemento importante da representatividade da esquerda porque falava sobre setores desse conflito social - que foi substituído por outra forma de conflito social, que é o ressentimento".
"Eu digo aqui a palavra ressentimento sem lhe atribuir até à partida qualquer noção de negatividade. É um ressentimento social e esse ressentimento social, que é o alimento do populismo na Europa e do Chega em Portugal, tem que ver com esperanças que foram traídas ou esperanças que não foram cumpridas. Consegue dar um exemplo que nos ajude a perceber essa ideia? É muito simples: por exemplo, a maneira como se enfrentaram os problemas de segurança, a maneira como se enfrentaram os problemas de imigração. Estes problemas, até há pouco tempo, eram muito relevantes para quem estava próximo desses problemas. Era muito relevante para quem vivia próximo de bairros sociais - em grande parte tratava-se de pessoas que vinham de fora de Portugal."
Pacheco Pereira defendeu que o tema da insegurança urbana, agora amplificado pelo governo da AD e pela pressão do Chega, sempre foi relevante para quem vive junto de bairros sociais e em zonas periféricas das grandes cidades, mas alertou que o problema "não está nos imigrantes em si", sublinhando que a criminalidade associada à imigração é uma realidade mais presente no Brasil do que em Portugal.
Ainda assim, observou que o discurso político e mediático foca-se de forma seletiva em determinados grupos, como os indostânicos, ignorando outros, como os brasileiros, por se integrarem mais facilmente no imaginário social.
Segundo Pacheco Pereira, isso significa que as pessoas se sentem "isoladas e o Chega dá-lhes uma resposta".
"O problema aqui não é apenas o Chega. É por isso que eu percebo a alegria da vitória da AD. Mas não devem estar tão alegres como isso. Porque a transformação, de facto, o fim do sistema bipartidário e a ascensão do Chega é um problema muito mais grave a curto prazo para o governo da AD do que é para qualquer outro partido político."
