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A remodelação e a oposição ‒ muita tática, nenhum país

3 jan, 08:49
Marina Sola Gonçalves e João Galamba (Lusa)

Tática é a palavra que melhor descreve o que se passou ontem. Esteve por todo o lado, na boca e no pensamento de toda a gente, do primeiro-ministro ao líder da oposição.

A remodelação foi, em primeiro lugar, tática no timing.

Entre a demissão de Pedro Nuno Santos e o regresso de Luís Montenegro das suas férias, António Costa guardou os nomes dos novos ministros na manga para soltá-los meticulosamente na tarde em que o presidente do PSD voltaria aos holofotes nacionais. Montenegro, cujo reaparecimento poderia causar impacto, foi esvaziado de importância pela promoção de João Galamba e de Marina Gonçalves a ministros. Costa, cujo objetivo maior para esta semana é salvar Fernando Medina, falou aos jornalistas uma hora após a reunião de urgência da direção do PSD. A notícia não foi Montenegro, nem Montenegro sobre Medina, nem Montenegro sobre nada; foi Galamba. E tal foi premeditadamente calculado por António Costa.

Pedro Nuno Sombra

A remodelação foi, em segundo lugar, tática nos convites.

Na véspera, Marcelo Rebelo de Sousa pedira a António Costa um 2023 sem guerras internas no governo. Ora, a remodelação de ontem visa responder justamente a esse anseio do Presidente. Com João Galamba e Marina Gonçalves a dividirem as Infraestruturas e a Habitação, o primeiro-ministro puxa por dois pedronunistas para empurrar o próprio Pedro Nuno. Legando o superministério em dois quadros do PS próximos do ministro demissionário, Costa procura comprar uma paz ‒ veremos se podre ‒ no seu partido, que irá a congresso este ano.

Pedro Nuno Santos, que conseguira sair sob uma chuva de elogios, paira agora sobre a remodelação que provocou. Costa, que não tivera força para demitir Pedro Nuno na crise da localização do aeroporto, em junho, não teve agora confiança para purgar o pedronunismo do seu governo. E não há outra variável que explique isso que não a tática.

Galamba fez-se secretário de Estado da Energia, estudando os dossiers e criando relações com o setor, ficando até depois de Matos Fernandes sair, mas não lhe é exatamente reconhecido o feitio para lidar com os sindicatos de todo o setor dos transportes. Ao convidá-lo, o primeiro-ministro não quis um governante, quis um colete à prova de Pedro Nuno.

Neste novo ano, António Costa terá de enfrentar um líder da oposição de um lado e um primeiro-ministro-sombra do outro. O segundo sentar-se-á na bancada do PS.

Oposição? Hoje! Alternativa? Só amanhã…

António Costa, apesar de tudo, não é o único tacticista nesta história. Luís Montenegro, cujo silêncio gerara alguma expectativa, proferiu uma declaração frouxa, vaga e surpreendentemente reservada. Sem exagero, a contenção de Montenegro foi tão inaudita quanto a ideia de associarmos Galamba a estabilidade governativa.  Montenegro falou e falou, mas nunca conseguiu deixar clara a excecionalidade da circunstância que o governo viveu na última semana ‒ eventualmente por ter estado do outro lado do oceano.

Ao cidadão que reconhece mas não conhece Luís Montenegro não foi dada uma explicação. Culpou-se Costa sem se explicar de que é ele acusado. Declarou-se falta de condições para Medina ficar no governo sem se explicar por que há ele de sair.

O PSD quer ser carrasco sem a elaboração de um juiz. Fala como se todos soubessem do que está a falar para, no fim, não ter força para um golpe certeiro. Não disse uma só vez o nome “Alexandra Reis”. Não referiu uma só vez o meio milhão de euros de indemnização por ela recebido. Montenegro falou de serviços públicos, custo de vida, médicos de família, professores, salários, impostos, produtividade, competitividade, sustentabilidade, mobilidade, habitação, emigração, administração, demografia e burocracia.

Do que fez tremer o governo de António Costa como nunca, pouco, quase nada.

Não pediu sequer a demissão do homem que quer convencer-nos de que uma jornalista sabia mais do que se passava no erário público do que todo o ministério das Finanças. Diz antes que, com ele, Medina “não ficaria no governo”. Esqueceu-se foi de explicar porquê a quem o escutava.

Igualmente surpreendente foi a sua tergiversação perante a possibilidade de enfrentar António Costa nas urnas. “Este não é o tempo para abrirmos uma crise política em cima de uma crise social”, apontou Montenegro. “O governo tem uma maioria absoluta”, reforçou ainda, cometendo o erro de proferir todas as desculpas que o Partido Socialista recordará quando o PSD quiser eleições antes de 2026.

“Nós estaremos aqui: para sermos oposição hoje e alternativa de governo amanhã”, afirmou Montenegro; concordando, no fundo, com a constatação de Marcelo: não há atualmente alternativa ao governo de António Costa.

Ora, o PSD não tem de pedir eleições, mas também não pode parecer fugir delas. Sete meses de trabalho político são suficientes ‒ ou deveriam ser suficientes ‒ para um líder da oposição não hesitar em assumir-se como candidato a primeiro-ministro. Um presidente do PSD tem de estar preparado para governar e ontem Luís Montenegro nem preparado para disputar a governação se mostrou.

A questão é simples: para convencer os portugueses de que o governo está desfeito, o maior partido da oposição não pode mostrar medo de o enfrentar.

O dia de ontem, mais do que tudo, exibiu uma dramática crise de regime: quem governa já não tem soluções, quem quer governar não se considera solução.

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